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Luuanda Luandino Vieira
20.8.18

Pagar ou não pagar, eis a questão... do conteúdo cultural


           O choque cultural entre gerações não é novidade da atualidade altamente tecnológica e conectada. No século XX, o debate sobre quem tem autoridade para falar a respeito de literatura já acontecia, mas sobretudo entre pesquisadores acadêmicos e jornalistas, que passaram a publicar em cadernos e colunas de jornais sobre arte e, portanto, literatura. 
           Eis que um escritor, que também é um jornalista, gera uma polêmica (porque expôs com escárnio um e-mail profissional, contendo valores do trabalho de divulgação de um booktuber, em suas redes sociais) a respeito de divulgação paga no mercado editorial – mais especificamente, em canais do Youtube voltados exclusivamente à literatura. Esta é uma discussão que deve existir, já que estamos falando de uma nova forma de se compartilhar opiniões. O problema está em como ela é gerada; se há algo que deve passar longe da disseminação de livros e da literatura no geral, é a falta de respeito e a prepotência.
           A escritora Clarissa Wolff (Todo mundo merece morrer, Verus Editora), colunista do site Carta Capital, escreveu um texto super bacana sobre este debate, que você pode ler aqui. Além disso, achei importante compartilhar a entrevista na íntegra:
"Eu não encaro a disseminação de arte e de cultura como algo dicotômico entre as partes que a formam."
Clarissa Wolff: Por que você criou o seu canal no Youtube?
Mell Ferraz: Criei o Literature-se para ter com quem conversar. Na época, era adolescente, tinha acabado de me mudar para uma cidade que não possui uma livraria sequer e não tinha com quem conversar, pessoalmente, sobre livros, minha maior paixão na época – e até hoje. Deu certo, e não falo apenas de números (o canal só começou a crescer depois de uns quatro anos). Encontrei pessoas que amam ler e que toparam discutir literatura comigo. Aliás, foi isso o que me ajudou a sair de uma depressão. Tenho amigos e continuo conversando com esse pessoal que “conheci” (e alguns eu realmente cheguei a encontrar pessoalmente, tornando-se meus melhores amigos) na internet em 2010 – e é claro que, com o crescimento do Literature-se, passei a ter muitos outros amigos literários.

CW: Você se considera crítico literário?
MF  Veja bem, eu comecei a produzir conteúdo para o Youtube quando eu tinha apenas 17 anos. Na época, estava no colegial e não trabalhava. O Literature-se me proporcionou o contato com os livros e com o mercado editorial; cursar Estudos Literários (Unicamp) como faculdade foi uma escolha natural para mim. Apesar de estudar literatura no ensino superior, posso dizer que um vídeo sobre um livro não é a mesma coisa que uma crítica literária publicada em jornal, por exemplo. 
O que faço com o canal, mesmo enquanto graduanda de Estudos Literários, não deixou de ser a conversa entre amigos que gostam muito de ler. É claro que tenho mais contato com crítica e teoria literárias, e que um canal pode ser voltado para a crítica literária sem problema algum, porém a polêmica em torno de quem tem autoridade para falar sobre literatura não é atual. Vários estudiosos (ou não) já discutiram sobre isso, mas a respeito do jornal e da produção acadêmica, inclusive. Por enquanto, considero o que faço como compartilhamento e disseminação da literatura, não me intitulo uma crítica literária.

CW: Você cobra por conteúdo? E por resenhas? Você vê algum conflito ético?
MF  Para mim, a base de um canal literário é a sua honestidade. Trabalhar na internet demanda fidelização do público. Eu, como consumidora do conteúdo de outros colegas youtubers, sei como é trabalhoso manter um canal no Youtube. Além do tempo de leitura do livro, tem o de roteirização, de preparação de equipamentos e cenário, de gravação, de edição (algo complexo e demorado, principalmente para quem é leigo nisso), de publicação, de resposta ao público e de divulgação do próprio conteúdo. Para dizer o básico, aquilo que precisa ser feito. Dito isso, se quer realmente instigar o seu público a continuar te assistindo e, mais ainda, a sentar e ler o livro que indicou, precisa se dedicar bastante para produzir um conteúdo honesto, porque é isso que atrai o público (e, de novo, falo por experiência também enquanto consumidora). 
Depois de oito anos produzindo conteúdo para a internet de forma ininterrupta, precisei entrar para a faculdade e começar a trabalhar também, já que hoje tenho 25 anos e não consigo viver apenas de amor pela literatura. Muitas outras coisas começaram a intervir no meu tempo de dedicação para o canal, que reduziu drasticamente. Com o crescimento das mídias digitais, a possibilidade disso se tornar um trabalho remunerado surgiu, e hoje muitos produtores de conteúdo, como booktubers, já se dedicam integralmente a isso. Não é o meu caso ainda, pois sabemos que o mercado editorial está passando por uma crise complicadíssima. Mas possuo um espaço do canal que é voltado aos publieditoriais, e com o qual eu recebo um valor. Vejo um conflito nisso quando a pessoa adota uma postura de vender sua opinião. Vender opinião e vender o espaço (e tempo) para a divulgação são coisas completamente diferentes. Como eu disse, é extremamente importante que o canal seja sustentado por transparência, honestidade e respeito.

CW: Pensando que a indústria literária é extremamente pobre, isso impacta a forma que você pensa sobre isso?
MF  Claro, não podemos deixar de visualizar o contexto no qual estamos inseridos – afinal, conhecer o seu nicho é importante para saber o que ele gosta de assistir. Se é uma indústria, ainda assim, nós, pessoas que trabalham nela, sabemos que é um mercado como qualquer outro. E possui características peculiares como qualquer nicho dele. Sabemos da crise complicada e complexa que permeia o mercado editorial, e isso influencia a forma como lidamos com publicidade. A realidade que se aplica aos youtubers que falam sobre games é totalmente diferente da realidade dos booktubers.

CW: Como você vê a dualidade entre crítica clássica e de influenciadores nesse cenário?
MF  Eu não encaro a disseminação de arte e cultura como algo dicotômico entre as partes que a formam. Para mim, crítica “clássica” é diferente de influência literária por meio da internet (apesar de não serem coisas sempre dissociáveis). Hoje, diante do cenário democrático que é a internet, fica complicado alguém dizer que é errado um engenheiro indicar leituras, simplesmente porque o que vejo são pessoas de todo quanto é tipo de formação (e até aquelas sem ensino superior) instigando outras a se tornarem leitores ou a lerem cada vez mais. 
Meu objetivo no início do Literature-se foi ter com quem conversar sobre livros. E ele persiste, porém houve o acréscimo de apoiar o incentivo à leitura, seja de quem for. Tenho um exemplo incrível disso dentro de minha própria casa. Em todos os meus 24 anos, minha mãe nunca tinha lido um livro sequer. Com a minha influência e a de outros booktubers, ela passou a ler e, hoje, depois de um ano desde que isso aconteceu, enquanto escrevo estas linhas, é ela quem está lendo no quarto ao lado – e muito mais do que eu, com muito mais paixão. Essa descoberta é maravilhosa, e aconteceu bem perto de mim. O Literature-se me proporciona essa aproximação com milhares de pessoas que vêm me contar terem se tornado leitores assíduos por causa de canais como o meu. O booktube dissemina o hábito literário, e se isso acontece de forma respeitosa e honesta, é um acontecimento maravilhoso de nossa atualidade.

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