resenha 1

resenha 1
Ensaio sobre a cegueira Saramago

resenha 2

resenha 2
Uma duas Eliane Brum

resenha 3

resenha 3
ao farol virgínia woolf

resenha 4

resenha 4
mulheres de cinzas mia couto

resenha 5

resenha 5
Extraordinário Luandino Vieira

resenha 6

resenha 6
Luuanda Luandino Vieira
29.3.18

A varanda do frangipani, de Mia Couto

A varanda do frangipani, escrito por Mia Couto



Edtora: Companhia das Letras
Páginas: 152
ISBN: 8535909842
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Depois da Independência de Portugal, em 1975, Moçambique enfrentou quase duas décadas de conflitos. O período foi marcado pela oposição entre os antigos guerrilheiros anticolonialistas da Frelimo (que tomaram o poder e tentaram implantar o socialismo no país) e o grupo de orientação conservadora Renamo (alinhado a Rodésia e África do Sul). A história de 'A varanda do frangipani' se passa vinte anos após a Independência, depois dos acordos de paz de 1992.
O romance é narrado pelo carpinteiro Ermelindo Mucanga, que morreu às vésperas da Independência, quando trabalhava nas obras de restauro da Fortaleza de S. Nicolau, onde funciona um asilo para velhos. Ele é um 'xipoco', um fantasma que vive numa cova sob a árvore de frangipani na varanda da fortaleza colonial.
As autoridades do país querem transformar Mucanga em herói nacional, mas ele pretende, ao contrário, morrer definitivamente. Para tanto, precisa 'remorrer'. Então, seguindo conselho de seu pangolim (uma espécie de tamanduá africano), encarna no inspetor de polícia Izidine Naíta, que está a caminho da Fortaleza para investigar a morte do diretor.
Mais de vinte anos depois da independência de Moçambique, quando a guerra civil já arrefeceu, a Fortaleza é um lugar em que convergem heranças, memórias e contradições de um país novo e ao mesmo tempo profundamente ligado às tradições e aos mitos ancestrais. Da sua varanda se pode enxergar o horizonte.

"Sou o morto" é a frase que abre A varanda do frangipani de Mia Couto. O romance começa nesse tom de Brás Cubas em que o narrador é também um defunto. Entretanto, é um defunto muito mais literalmente que o Brás Cubas. Sabemos que sua cova fica debaixo de uma árvore de frangipani numa antiga fortaleza que fora transformada em um asilo para idosos. O defunto, Ermelindo Mucanga, era carpinteiro e trabalhava nesse asilo. Quando morreu, não foi enterrado no lugar onde nasceu e não teve cerimônias fúnebres, como manda a tradição africana, então se tornou um "xipoco", uma espécie de fantasma, sem poder alcançar definitivamente o mundo dos mortos. Ele morrera pouco antes da independência de Moçambique, mas quando a Guerra Civil eclode, ele sente que sua cova está sendo violada e que querem lhe transformar indevidamente num herói nacional. Como está desconfiado e descontente com a ideia, um pangolim - um tipo de tamanduá africano que é mandado pelas forças religiosas extramundanas -  faz com que ele volte ao mundo dos vivos no corpo de um policial que tem como função investigar um crime que aparentemente aconteceu no asilo. Ou seja, diferente de Brás Cubas, não é só a voz e o discurso de um defunto que está em jogo, mas verdadeiramente a condição material da morte que permeia essa voz.

Logo, a narrativa começa com uma voz em primeira pessoa, mas que, praticamente, se torna uma voz de terceira pessoa onisciente quando Ermelindo passa ocupar o corpo do policial Izidine Naíta, pois ele descreve as ações e os sentimentos da autoridade e as pessoas com quem este se relaciona e o leitor quase esquece que o espírito que narra a história está no corpo do policial. Se não bastasse todo esse estranhamento da voz narrativa, o enredo deveria ser um tipo de romance policial, pois Izidine começa a buscar pistas para desvendar o culpado do assassinato de uma pessoa que ocuparia um cargo importante no governo moçambicano, mas quem poderia ter cometido um crime num asilo, onde a maioria dos ocupantes são extremamente debilitados fisicamente e há uma única enfermeira? Mais estranho do que a natureza do crime em si é o fato de que alguns residentes do asilo, velhos e velhas, moçambicanos e portugueses, passam a confessar o crime fornecendo histórias absurdas e diferentes motivos para justificar o ato. A busca pelas pistas não funciona, porque o policial encontra diversas conclusões, diversos culpados, um mais improvável do que o outro e isso o impede de chegar a uma real conclusão. Todavia, as histórias que não podem ser verdade, tão pouco parecem mentiras, pois os velhos parecem estar muito certos da verossimilhanças delas. Por isso, parece apontar para um outro tipo de verdade, para uma outra realidade que aquilo que é visto como real, oficial, moderno e científico não consegue apreender na sua integralidade.  

A narrativa vai se alternando entre a voz do defunto contando os passos e as ações de Izidine e a voz de cada um desses velhos e suas histórias. O mais perto de uma "verdade" que Izidine pode chegar é pelo relato de Marta, a única enfermeira do asilo, que apesar de não ser velha e não fazer discursos fantásticos como os residentes, parece igualmente a parte de uma realidade averiguável por pistas e provas. Ela diz a Izidine que os velhos não mentem, mas que o único crime que havia sido cometido ali era o crime contra o antigamente. Da varanda do asilo, onde está o frangipani e a cova do narrador, Mia Couto nos coloca diante desse dilema de um país que precisava conquistar sua independência e seu direito a uma identidade, mas mesmo assim tem toda a sua tradição ameaçada pela globalização, pela ocidentalização e pela modernização. Do horizonte que se avista da varanda, se vê uma Moçambique incerta que esquece progressivamente dos valores do passado, da importância da voz dos velhos que contam histórias, de tudo o que se aprende com as narrativas e com as experiências dos outros.  Essa voz do narrador, do xipoco, é como a voz do país em si, impedido de alcançar a realização do destino tradicional, porque há um afastamento do solo cultural de origem. A morte que ronda e ameaça os personagens não é do diretor do asilo que era uma autoridade, mas sim da tradição moçambicana que dava sentido a vida do seu povo. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)