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Luuanda Luandino Vieira
28.12.17

Amargo como os frutos, de Ana Paula Tavares

 Amargo como os frutos, escrito por Ana Paula Tavares
Editora: Pallas
Páginas: 288
ISBN: 853470466X
Durante os tempos das lutas pela libertação de Angola, uma significativa parcela dos poemas produzidos transformou-se em arma ideológica de combate ao colonialismo. A partir da independência, ao lado da literatura de exaltação nacional, marcada pelo discurso panfletário e anticolonialista, começaram a surgir novas vertentes poéticas que, sem negar a importância de um compromisso com as realidades nacionais, buscam em si outros ingredientes. Paula Tavares é uma escritora que cede sua voz procurando expressar o clamor amargo das mulheres encarceradas em seu próprio silêncio. Além dos efeitos das muitas décadas de guerras em Angola, as mulheres sofreram também no próprio corpo a opressão do machismo, visto como natural depois de tanto tempo enraizado na cultura local. A antologia poética 'Amargos como os frutos' é a representação da voz feminina africana na sua individualidade, na sua feminilidade, na sua corporalidade.
Escrever é sempre difícil. Escrever sobre poesia é mais desafiador do que escrever sobre romances, pois não se pode apresentar os personagens, resumir a história, apresentar episódios do enredo para causar no outro a curiosidade e a vontade de ler. A poesia já foi o grande gênero literário e o romance já foi um gênero inferiorizado. Os papéis não se inverteram, mas os leitores de poesias estão mais escondidos do que os de romance. Encontra-se por aí aqueles que passeiam pelas ruas com livros, lêem em café, ônibus, metrôs, parques, horários de almoço, filas. Dificilmente alguém carrega um livro de poesias. Nenhum tipo de condenação é justificável, é algo difícil de ler que exige uma disposição bem distinta do que uma boa ou má narrativa exigem. Lamentar também não adianta nada - desde o século XVIII que a importância do romance cresce e da poesia cai. Não há gênero melhor ou superior ao outro, todo leitor é livre para variar, mudar, gostar e desgostar do que bem entender. A única tristeza permitida é que há muitos poetas incríveis que passam despercebidos até para os mais dedicados leitores, o que se diria, então, de uma poeta angolana negra?! 

Ana Paula Tavares nasceu no sul de Angola, hoje é professora na universidade católica de Lisboa, já publicou prosa e poesia. Seu primeiro livro de poesia, Ritos de passagens, é de 1985, ou seja, de um contexto de um país pós-independência, mas que desde 1977 encontrava-se em Guerra Civil. Além dos poemas, este livro tem desenhos feitos por Luandino Vieira que tornam a leitura ainda mais particular. Sente-se em sua poesia uma relação intensa com a natureza e com a paisagem do sul de Angola através das imagens de gado e de homens e mulheres que o criam, trazendo para o texto uma marca da biografia da escritora. Da mesma forma, no livro Dizes-me coisas amargas como os frutos de 2001, é incontornável a percepção da guerra, que só acabaria em 2002, o cansaço por ela causado e uma tomada de posição contra qualquer tipo de violência. Entretanto, a relação com a natureza se expande para signos como a água, a própria terra, a lua, a noite, os frutos e outros elementos que convergem com a ideia do feminino, bem como um eu-lírico feminino que luta contra uma violência histórica de apagamento e silenciamento e assume nos poemas seu lugar, seu corpo e seu desejo. Trata-se então de uma poesia essencialmente preocupada com o corpo da mulher, suas transformações, seus "ritos de passagem", seu sangue, seu desejo e suas potencialidades. É uma poesia que está na contra-mão de uma tradição literária focada nos homem-herói, nas suas viagens e na sua aventuras de conquista do mundo. Esta tradição, inclusive, serviu para justificar a colonização, a exploração do território africano e destruição das suas culturas tradicionais. A poesia de Paula Tavares está ao lado do feminino fincado na terra, supostamente numa espera passiva pela volta do herói, mas que, na verdade, guarda a potência da poesia, transforma o ruído dos sujeitos historicamente apagados em grito e, como uma tecedeira, trama os fios da literatura.

A Nêspera

Doce rapariguinha-de-brincos
amarelece o sonho
deixa que o orvalho
de manso
lhe arrepie a pele
sabe a pouco.

(Tavares, Ana Paula. Ritos de Passagem. In In: Amargos como os frutos - Poesia reunida. Rio de Janeiro: Pallas, 2011, p. 29)


A  manga

Fruta do paraíso
companheira dos deuses
as mãos
tiram-lhe a pele
dúctil
como, se, de mantos
se tratasse
surge a carne chegadinha
fio a fio
ao coração
leve
morno
mastigável
o cheiro permanece
para que a encontrem
os meninos
pelo faro.

(Tavares, Ana Paula. Ritos de Passagem. In In: Amargos como os frutos - Poesia reunida. Rio de Janeiro: Pallas, 2011, p. 33)


Aquela mulher que rasga a noite
com seu canto de espera
não canta
Abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta

(Tavares, Ana Paula. O lago da lua. In: Amargos como os frutos - Poesia reunida. Rio de Janeiro: Pallas, 2011, p. 79.)

Começa a história
Desde o princípio assim
Era uma vez um
Sol e a lua que lhe pertence
Mais a terra entre os dois e
A paisagem
Com os seus vultos parados
À espera da carne fresca
Planta a história de vozes
Sujeitos caminhos e esperança
Depois a história curva-se sobre si própria
Medita duas vezes na água do rio
O fim está escrito
Nas linhas firmes das
Minhas mãos

(Tavares, Ana Paula. Como veias finas na terra. In: Amargos como os frutos - Poesia reunida, Rio de Janeiro: Pallas, 2011, p. 232.)


Estes poemas cabem dentro do ruído
(gargantas abertas, crianças às voltas,
mãos cravadas na enxada curta)

Agora que habito um país de silêncio
Recolhida na cela fria e branca
De um certo momento da vida
Me entrego a recolher
A memória do grito
Os sorrisos alargados de antigas fêmeas
Soltas das amarras dos gritos
um poema
apenas um poema

(Tavares, Ana Paula. Como veias finas na terra. In: Amargos como os frutos - Poesia reunida, Rio de Janeiro: Pallas, 2011, p. 242.)

Todos os livros de poesias publicados entre 1985 e 2010 estão reunidos na coletânea Amargos como frutos. Além de todos os desafios em apresentar um livro de poemas, é impossível dar conta aqui de uma obra que se estende tanto no tempo e por tantas imagens fortes, delicadas e marcantes. Mas assim como a poesia de Ana Paula Tavares reivindica uma esperança de retirar as mulheres do silenciamente histórico do apagamento como sujeitos autônomos no qual foram submetidas, neste texto resta a esperança que sua poesia seja mais lida e valorizada.

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