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4.10.17

História da Menina Perdida, de Elena Ferrante

História da Menina Perdida, escrito por Elena Ferrante



Editora: Biblioteca Azul/Editora Globo
Páginas: 480
ISBN: 852506310X
Tradução: Mauricio Santana Dias

Autora finaliza a série napolitana que já vendeu mais de 100.000 exemplares no Brasil. A história de vida de Lenu e Lina e de todos os personagens do bairro de Nápoles agora caminham da maturidade à velhice. "História da menina perdida" é o final que o leitor esperava, com a dureza e a força que aprendemos a identificar nas personagens de Ferrante - sem rodeios.



Esta é uma resenha para os íntimos!
Explico-me: para aqueles que já estão íntimos da escrita de Elena Ferrante e da Teatralogia Napolitana, para os que já leram A AmigaGenial, História do Novo Sobrenome e História de Quem Foge e de Quem Fica, para aqueles que, como eu, ficaram íntimos e apegados a Lenu e Lina, as protagonistas dos livros.

O primeiro volume acaba quando ambas têm 16 anos; o segundo volume, em torno dos 20 anos; o terceiro volume, entre 30 e 35 anos. Inevitavelmente, é o quarto volume que traz a vida adulta e a velhice, o episódio do desaparecimento exagerado de Lila que abre a história em A Amiga Genial, é nele, inevitavelmente também, que encontramos os fins - da narrativa que havia sido tão bem construída por tantas páginas e, consequentemente, o fim da vida das personagens que só podem existir dentro da ficção. Por saber tudo isso, acrescido pela maneira drástica e problemática como o terceiro livro havia terminado, somente ter o quarto volume nas mãos já começa causar um misto de tristeza e nervoso, aquela sensação que Ferrante sabe produzir de que tudo é horrível e mesmo assim você não consegue parar de ler.

No terceiro volume, o mundo já havia erupcionado com greves operárias, polarização política, acirramento das opressões, crescimento das violências e das perseguições e tudo isso convergia para aquela violência do mundo pequeno que adentra o bairro napolitano de Lina e Lenu. O quarto volume continua na mesma maré em que o grande mundo e o pequeno mundo se confundem e a violência atinge a todos. Se no início isto não era perceptível devido ao filtro da infância, no meio da narrativa, ambas meninas presenciarem e mergulham nessa maré de diferentes formas; já neste último volume, elas ainda a assistem e ainda são vítimas dela, mas as lutas e as participações se misturam a necessidade inevitável de serem mães, esposas e de terem uma carreira profissional antes de tentarem consertar todas as mazelas italianas. Logo, se por um lado o penúltimo livro colocava a dúvida se fugir ou ficar no local do nascimento provocaria alguma diferença entre ser aquilo o que já estava previsto neste espaço ou se era possível ser outra coisa, no quarto volume Lina e Lenu emergem ainda mais próximas de suas mães, do bairro e dos papéis de mães e espossa. Mas não se coloca o ponto final nisso - como se o quadro fosse "Lila ficou e continuou tudo, mas Elena fugiu e também continuou tudo" - pelo contrário, ainda que mais próximas a ideia de permanência ou de continuação como nunca antes, ambas conseguem desenhar novos contornos para tais papéis e funções, implicando neles também maneiras de independência. 

Isto mostra também como apesar de todo o afastamento que Elena procurou ter de Lila e de todas as diferenças dos percursos traçadas por cada uma, elas acabam sempre se reencontrando, sempre reatando como duas pontas que não podem romper. Elena viaja, mora em diferentes lugares, é estudada, culta, escritora, acostumada com hábitos liberais das classes altas; Lila nunca sai de Nápoles, não termina da escola, trabalha em qualquer tipo de emprego até tornar-se dona de uma empresa de tecnologia, ligada as repetições, aos laços e aos nomes das famílias de classe baixa da infância. Entretanto, as duas se tornam esposas e mães, sofrem como esposas, triunfam e fracassam como mães, sofrem violências dos maridos, das famílias dos maridos, das próprias famílias, entregam-se a um amor e são frustradas por ele, aprendem a serem independentes, capazes de tudo, respeitadas e reconhecidas. Em diferentes graus e em diferentes momentos, os sucessos e os fracassos de cada uma vão se concatenando. 

Munidas de distintas forças, mas com certeza muita força, Lina e Lenu enfrentam os desafios que esses papeis sociais lhes colocam, a violência do bairro e do mundo que lhes assombra, a dor do mundo que lhes ocorre inevitavelmente por serem mulheres. Neste ponto, fica o debate se, assim como elas, os homens do livro foram capazes de se mostrarem diferentes dos violentos pais ou se só foram versões intelectualizadas e atenuadas de atitudes mais brutas anteriormente. É certo que, apesar do olhar amargo a toda violência representada pelos homens, a autora ainda permite, com alguns personagens, momentos de possíveis esperanças; por outro lado, há aqueles que só deixam claro as novas tonalidades que as velhas violências vão adquirindo. Os méritos de Elena Ferrante estão também não ter pintado a velhice, e a conclusão da vida, com um único tom: por fim, talvez haja aqueles homens que sejam diferentes, como também há aqueles apegados ao seu poder, a seus privilégios e a seus diferentes direitos de serem violentos; na vida profissional, tanto de Elena quanto de Lila tiveram fracassos e sucessos, talvez uma termine mais bem sucedida que a outra, mas é difícil saber; uma grande infelicidade toma conta de uma delas, o que pode ter a feito sucumbir ou não, também não é possível ter uma resposta clara. 

Essas conclusões não claras, ou mesmo não-conclusões, aumentam a verossimilhança da história com a vida. E se, no terceiro volume, as meninas estiveram muito distanciadas e, consequentemente, a narrativa mais monótona por perder uma delas de questão, Elena e Lina estão quase sempre juntas nesse volume final, tornando ainda mais difícil afastar-se delas quando o livro termina.

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