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Extraordinário Luandino Vieira

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Luuanda Luandino Vieira
19.7.17

Luuanda, de Luandino Vieira

Luuanda, escrito por Luandino Vieira

Editora: Cia das Letras
Páginas:  144
ISBN: 8535909184

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. Essas histórias curtas, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



 Publicado antes da conquista de independência de Angola em 11 de novembro de 1975, Luuanda está na mesma linha que Mayombe de Pepetela (exigido, agora, em alguns vestibulares) porque tem a preocupação de conscientizar e unir as pessoas em torno da luta revolucionária pela independência e pela identidade nacional angolana. Luandino é um pseudônimo de um homem que passou muitos anos preso por se opor ao governo metropolitano português; é na prisão que lê Guimarães Rosa pela primeira vez, o que provoca uma mudança na sua própria escrita, e é na prisão que escreve Luuanda.

Obviamente, nome remete a capital de Angola, Luanda, mas a repetição do "u" tem a ver com a maneira que os habitantes da região pronunciam o nome da cidade em quimbundo, uma das línguas locais. A primeira preocupação do livro é justamente a língua: assim como Guimarães Rosa, Luandino tenta trazer para dentro da língua escrita literária a língua falada pela gente de Luanda, em especial pela gente do musseque. Musseque é a designação para os bairros mais pobres da cidade, onde não há luz, saneamento básico, ruas asfaltadas, casas construídas de maneira adequada e onde morava a maior parte dos negros antes da conquista de independência. Trata-se, então, de uma mistura de língua escrita com língua falada, de português com quimbundo, de uma tradição literária escrita, como o próprio Guimarães, com uma tradição literária angolana de estórias que eram contatas oralmente em torno da fogueira pelos mais velhos para os mais novos. O livro propõe também uma cartografia da capital em que o musseque se opõe à Baixa, ou seja, a cidade dos pobres à cidade dos ricos, a cidade negra à cidade branca, a cidade dos explorados à cidade dos exploradores e usurpadores europeus. Em Luuanda, o importa é realmente o musseque, a gente do musseque e o seu potência para inverter aquela ordem de mundo partido em dois.

Luuanda é composto de três contos: "Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos", “Estória do ladrão e do papagaio” e “Estória da galinha e do ovo”. Suas personagens são marcadas pela fome, pela humilhação, pela discriminação racial e pela injustiça. Zeca Santos, do primeiro conto, procura emprego, é humilhado sem motivos, atormentado pela fome, desacreditado pela avó, rejeitado pela namorada; Lomelino, do segundo conto, é ridicularizado por ser manco e mestiço, desprezado pelos amigos e pela mulher por quem está apaixonado, preso injustamente; já Zefa e Bina, do último conto, ainda que tenham problemas entre elas, ambas são vítimas de autoridades brancas que tentam enganá-las e roubar o que lhes pertence. Diversas tipos, mas antes de tudo, a dor é o grande fio que passa por todas essas personagens e histórias. Contudo, há seus consolos também: o chorar no ombro da avó, uma refeição na prisão com os amigos, o apoio das mulheres do musseque para salvar o que está em risco. A saída para Luandino é sempre coletiva, assim como a Revolução e a construção de uma nova Angola também deveria ser coletiva. 

Não é algo que se possa negar o nosso desconhecimento e ignorância sobre a África como um todo, assim como nossa subserviência e super valorização de tudo o que é produzido na parte norte do globo. Esquecemos até que não fazemos parte do cânone, que para além das fronteiras quase ninguém ouviu falar de Machado de Assis, Drummond ou Portinari. Esquecemos que nossa história é muito mais parecida com a de Angola do que com a da França ou da Inglaterra. Esquecemos a nossa culpa imensurável nessa grande ferida na História chamada escravidão e racismo. A leitura de uma obra como  Luuanda, além de nos expor um mundo que ignoramos, nos rememora essas questões e nos coloca contra a parede com uma literatura de altíssima qualidade que tem os negros e um mundo periférico em primeiro plano.
 

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