resenha 1

resenha 1
Ensaio sobre a cegueira Saramago

resenha 2

resenha 2
Uma duas Eliane Brum

resenha 3

resenha 3
ao farol virgínia woolf

resenha 4

resenha 4
mulheres de cinzas mia couto

resenha 5

resenha 5
Extraordinário Luandino Vieira

resenha 6

resenha 6
Luuanda Luandino Vieira
26.7.17

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

Ensaio sobre a cegueira, escrito por José Saramago

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 144
Lançamento: 25/10/1995
ISBN: 9788571644953
Capa: Hélio de Almeida
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti.Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". (Fonte)
O dadaísmo se caracterizou, entre outras facetas, pela busca da harmonização entre arte e mundo, pela interferência profícua da estética no mundo da vida, provocando uma alteração significativa. A capacidade modificadora da arte sempre esteve no horizonte não só do dadaísmo, mas também de todas vanguardas artísticas do século XX. Tal intervenção deveria ser alcançada a partir de um pequeno gesto, denominado clinâmen, capaz de provocar grandes modificações e povoar o cotidiano de uma força revolucionária. O papel ativo da arte dadaísta sonhou uma atribuição fundamental ao artista, que, pelo singelo e inaudito, seria capaz de engendrar novas realidades.

Em Ensaio sobre a cegueira, do autor português José Saramago, parece haver a conservação de um apelo dadaísta, com a presença do evento seminal, do pequeno gesto portador de grandes consequências que se repercutem ao longo da história. No entanto, longe de um clinâmen da esperança, Saramago introduz um clinâmen do terror, que cria um mundo no qual a alma humana é desnudada e seu mais primitivo caráter vem à tona.  A história do livro é simples e inicia-se de maneira corriqueira com a descrição de um motorista parado no semáforo, que, de maneira repentina e casual, fica cego. A cegueira que o acomete não é conhecida, não tem causa racional, não diz a que veio. Simplesmente o homem está cego. O fenômeno da cegueira se alastra velozmente e, progressivamente, atinge a todos, plenamente democrática. A explicação causal acerca da epidemia absurda pouco importa; cabe, porém, de maneira kafkiana, explorar suas consequências gigantescas e as reações do mundo à nova realidade.

Seguindo a mesma linha que Ensaio sobre a lucidez, o que surge da cegueira progressiva é o autoritarismo e o distanciamento entre as pessoas. A primeira medida é internar, isolar, trancafiar os cegos para que a epidemia não se propague. A partir de então, inicia-se uma descrição das condições mais abjetas e espúrias do convívio humano. Internados e abandonados às próprias custas, os cegos devem se organizar, mas, novamente, a natureza humana fala mais alto e uns tentam se sobrepor aos outros para obter vantagens. Como um estado de natureza hobbesiano, as ações visam a conservação de si, sem se atentar para os outros. Assassinatos, estupros, roubos e chantagens são a tônica dessa micro sociedade cega de visão e de regras de convívio. Entre aqueles trancafiados na casamata, uma mulher, também ao acaso, mantém a visão; seu fardo é o mais pesado, já que vê a verdadeira face humana, o grau mais baixo a que a humanidade pode chegar.

Aos poucos, toda humanidade, exceto a mulher, tornam-se cegos. Nada mais sobrevive, nenhuma instituição, nenhuma regra, não há mais produção possível, não há dignidade. A humanidade retorna a seu estado mais bárbaro e animalesco. Tudo é descuidado, relegado a segundo plano, quando a única questão fundamental é sobreviver, é conservar a si mesmo, num momento em que sentimentos perdem espaço para o puro instinto. A história acompanha um grupo liderado pela mulher que ainda vê e, pela sua visão, somos convidados a mergulhar numa atmosfera distópica e de barbárie. Assim como cegaram-se, todos recuperam a visão ao final do livro, sem maiores explicações ou justificativas. Assim como nos tornamos humanos, podemos perder, num piscar de olhos, nossa humanidade.

O clinâmen de Saramago adquire, portanto, uma face sombria, inaugura uma realidade de sofrimentos e egoísmo, na qual não há espaço para esperança. Ensaio sobre a cegueira desvela o que há de pior no homem, sua mais baixa condição, e deixa no ar uma questão pungente: será que não somos os cegos que podem ver? Por trás da metáfora da cegueira está uma das mais belas, e trágicas, caracterizações da condição humana, levada aos extremos da existência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)