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26.3.17

O bálsamo, de Tereza Custódio

O bálsamo, escrito por Tereza Custódio
Editora: Chiado
Páginas: 270
ISBN: 978-989-51-9411-7
Lara Castro fica órfã de mãe aos cinco anos de idade. A partir daí, começa sua luta incansável na tentativa de se adaptar aos novos modelos familiares. Nessa caminhada cheia de atropelos, desamparo, bullying e abandono emocional, ela vai relatando suas vivências com lápis de cores ora cinza, ora colorido.
Quando adulta, ao cuidar da avó, Lara resgata a família, recuperando um sentimento de pertencimento desse clã perdido na poeira da vida. Demite-se de um trabalho estafante, e adentra em um novo campo profissional como Cuidadora de Idosos. A partir daí, seus horizontes se alargam e ela passa a ver os aspectos frágeis e vulneráveis do ser humano. Vivencia o desgaste emocional familiar, as dificuldades nas relações geracionais decorrentes de doenças crônicas, luto, viuvez, negligência e violência física e mental contra o idoso. Começa a compreender que o ato de cuidar envolve corpo, mente e alma e, portanto, a compaixão, paciência e resiliência se fazem cada vez mais necessárias.
Ao perceber que pessoas idosas quebram paradigmas e estereótipos, se permitindo novas histórias de amor, um novo mundo vai se descortinando, facilitando o processo de cura e redescoberta daquele coração petrificado e daquele corpo intocável. Novos cenários surgem cheio de cores e musicalidade levando Lara a encontrar o bálsamo para curar sua ferida no Hotel Geriátrico Reviver. Será que doutor Raphael Medeiros – Geriatra e Gerontólogo – iria se interessar por uma simples cuidadora?

Sobre o que se trata?

Lara Castro é uma mulher fragmentada pelo seu passado. Marcada pela perda repentina de sua mãe quando tinha apenas cinco anos de idade e por um relacionamento abusivo e extremamente nocivo, ela precisa contar o seu passado para decidir o que quer para a sua vida – e a para a de Jonas também, seu filho de treze anos. Em busca de sua autoconfiança e de um cotidiano digno, é na profissão de cuidadora de idosos que encontrará o seu conforto e através da qual conseguirá dar vazão à sua índole dócil e altruísta. 

Conhecemos sua infância, seus traumas que surgem neste período, sua adolescência e sua vida de casada. Até então, são várias pessoas destruidoras que apareceram em sua vida, a ponto de tais relacionamentos determinarem uma ausência de afeto que lhe proporcionaram uma autoestima corroída e deficiente. Porém, Lara tem Eva em sua vida, a avó sempre carinhosa. E é esta figura interessante que lhe ajudará na escolha da sua profissão. Por ser tão importante em sua vida, e justamente por necessitar de cuidados e atenção, Eva parece estar em sua vida para lhe dar um rumo, para ser sua guia. 

Minhas impressões

A leitura é fluida, e isto porque a história é gostosa, do tipo que nos acompanha depois de lermos. Torna-se, até, uma espécie de amigo. A impressão que tenho é que acalenta o coração do leitor, justamente porque trata de temas tão significativos como a família e a interação entre gerações. A discussão sobre a importância de se cuidar e proporcionar uma vida digna aos idosos se faz sempre presente, e de diversas formas, seja explícita ou implicitamente.

Outra característica da história que nos é cativante se refere à intertextualidade. Já começamos com a leitura do prefácio, no qual a autora nos revela o porquê do título, extremamente ligado à figura do Sancho Pança e da obra Dom Quixote. Ao destacarmos Dom Quixote, acabamos deixando de lado o fato de que Sancho é seu fiel escudeiro por cuidar sempre dele, e estar sempre ali ao seu lado. Sancho é, pois, a figura de um cuidador, de alguém que providencia uma vida mais afetuosa a outrem, principalmente por sua companhia. Muito se assemelha a este personagem a menina que Eva adotou e criou, a Baía, uma idosa forte e extremamente doce, fiel àquela que a salvou de um destino cruel de desamparo e inanição. E não apenas esta referência literária aparece em O bálsamo, como várias outras, inclusive musicais e históricas. A narrativa de Lara está entremeada pelo contexto histórico por que passou durante sua própria história, e isto é muito bacana de vir à tona. 


Outra questão interessante do livro é a linearidade temporal, ou esta ser tênue, pois o relato de Lara retorna e avança nas memórias quando necessita. Ela não conta do começo ao fim. Ela começa in media res, conta o seu passado e depois retorna ao presente e àquilo que passa a acontecer em sua vida. Por ser um livro de memórias, este fato é muito verossímil porque o tempo psicológico não necessariamente obedece a cronologia habitual. Pelo contrário, eu diria: se tem algo que não pode acontecer neste tipo de narrativa é a linearidade dos fatos. Quanto a isso, cito também a construção dos personagens. Lara amadurece conforme relata aquilo por que passou, ela é complexa – assim como Baía –, e estar a todo momento a par de sua perspectiva nos esclarece isso.

Apesar de o livro necessitar e merecer uma revisão mais atenta e de alguns diálogos serem inorgânicos (com um uso excessivo de vocativos, o que torna a leitura destes trechos truncada e inverossímil), ele foi um companheiro e tanto para o meu sábado! Fiquei emocionada com a história da Lara e com sua forma de enxergar e lidar com o seu próprio cotidiano. Recomendo àqueles que se entusiasmam com dramas familiares e com livros que têm muito a oferecer, enquanto ensinamentos, ao leitor.

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