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Ensaio sobre a cegueira Saramago

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Uma duas Eliane Brum

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ao farol virgínia woolf

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mulheres de cinzas mia couto

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Extraordinário Luandino Vieira

resenha 6

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Luuanda Luandino Vieira
29.3.17


Febre de Enxofre, escrito por Bruno Ribeiro

Editora: Penalux
Páginas: 274
ISBN: 9788558331173
Yuri Quirino, um poeta desiludido, após se despedir da mulher amada conhece Manuel di Paula, uma criatura estranha que oferece uma oportunidade peculiar de trabalho para ele: escrever sua biografia. Para escrevê-la, Yuri viaja até a cidade natal de Manuel, Buenos Aires, e termina entrando em uma voragem absurda de horror e perdição.
Yuri e Luciana formam um casal improvável. Ele poeta maldito sem perspectiva e que na maior parte do tempo depende do dinheiro do pai para conseguir sobreviver; ela uma jovem bonita e estudante de Direito que vive de maneira tradicional.
O livro se inicia quando Yuri deixa Luciana no aeroporto em Campina Grande, Paraíba, cidade onde ambos vivem até o momento, para que ela pegue o voo até o Rio de Janeiro, cidade onde ela dará continuidade nos seus estudos. Apesar das diferenças entre eles Yuri é completamente apaixonado por Luciane e fica extremamente abalado com o distanciamento físico e afetivo que essa mudança trará.

Ainda no aeroporto Yuri conhece uma figura estranha, Manuel di Paula, que diz ser um grande fã de sua poesia e exatamente por esse motivo gostaria que Yuri escrevesse sua biografia, mas para isso seria necessário que o poeta se mudasse para sua cidade natal, Buenos Aires.
Yuri de início rejeita a proposta do estranho e retorna ao caos de sua vida.

E você imaginou que eu voltaria como relâmpago, daqueles que kamikazes que se imortalizam no céu na forma de cicatriz. Não. Eu retornei tormenta, daquelas que puxam tudo para o ralo, inundando qualquer rastro de rua. Foi o que ela disse, nunca foi tão poeta como neste dia, nem eu que sou poeta o fui alguma vez; beijou minha boca, te amo, também te amo, e partiu. Judas.

Ao retornar à realidade de sua vida sem Luciana o poeta mergulha no caos e depressão. Vivendo sempre no submundo de Campina Grande, rodeado por bêbados, prostitutas, drogados e sem dinheiro Yuri começa considerar a proposta feita por Manuel di Paula, já que ele não tem perspectiva ou alternativas para continuar se sustentando.

Durante o período que acompanhamos a vida do poeta na cidade paraibana percebemos o quanto Yuri é sensível à realidade, como ele gosta de expor e evidenciar a podridão e a crueza da vida. Acompanhamos o seu processo de enlouquecimento e sua única escapatória é se mudar para Buenos Aires.
(...) é preciso ter cuidado com pessoa danificadas, elas sempre arrumam um jeito de sobreviver, e Luciana sobrevivia criando uma carapaça rígida, deixando que seu lado sensível estivesse protegido de estranhos e eventuais danos.  
A partir do momento que ele se muda para a Argentina o livro muda de tom. O Yuri deprimido dá lugar a um mais debochado e escrachado, que apesar de viver sempre no limite consegue enxergar com mais comicidade os problemas que acontecem na sua vida.

Morando na mansão em ruínas de Manuel di Paula Yuri percebe que está novamente sendo engolido pela loucura dos seus pensamentos e, mais ainda, como está sendo sugado pela figura estranha de di Paula.

Enquanto escreve sua biografia Yuri começa a perceber que ele talvez já conheça Manuel e que sua vida está mais ligada à dele do que poderia imaginar.
Nesse momento o leitor é levado pela loucura de Yuri e começa a se questionar se o que ele narra está acontecendo, se é apenas loucura ou se existe algum traço do sobrenatural permeando a história.

Enfim, é um livro que nos faz mergulhar pouco a pouco na loucura do protagonista narrador e somos levados ao submundo que é a mente de um poeta que sente tudo muito latente, as paixões, a podridão e as coisas ruins geralmente não ditas sobre vida.
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26.3.17

O bálsamo, escrito por Tereza Custódio
Editora: Chiado
Páginas: 270
ISBN: 978-989-51-9411-7
Lara Castro fica órfã de mãe aos cinco anos de idade. A partir daí, começa sua luta incansável na tentativa de se adaptar aos novos modelos familiares. Nessa caminhada cheia de atropelos, desamparo, bullying e abandono emocional, ela vai relatando suas vivências com lápis de cores ora cinza, ora colorido.
Quando adulta, ao cuidar da avó, Lara resgata a família, recuperando um sentimento de pertencimento desse clã perdido na poeira da vida. Demite-se de um trabalho estafante, e adentra em um novo campo profissional como Cuidadora de Idosos. A partir daí, seus horizontes se alargam e ela passa a ver os aspectos frágeis e vulneráveis do ser humano. Vivencia o desgaste emocional familiar, as dificuldades nas relações geracionais decorrentes de doenças crônicas, luto, viuvez, negligência e violência física e mental contra o idoso. Começa a compreender que o ato de cuidar envolve corpo, mente e alma e, portanto, a compaixão, paciência e resiliência se fazem cada vez mais necessárias.
Ao perceber que pessoas idosas quebram paradigmas e estereótipos, se permitindo novas histórias de amor, um novo mundo vai se descortinando, facilitando o processo de cura e redescoberta daquele coração petrificado e daquele corpo intocável. Novos cenários surgem cheio de cores e musicalidade levando Lara a encontrar o bálsamo para curar sua ferida no Hotel Geriátrico Reviver. Será que doutor Raphael Medeiros – Geriatra e Gerontólogo – iria se interessar por uma simples cuidadora?

Sobre o que se trata?

Lara Castro é uma mulher fragmentada pelo seu passado. Marcada pela perda repentina de sua mãe quando tinha apenas cinco anos de idade e por um relacionamento abusivo e extremamente nocivo, ela precisa contar o seu passado para decidir o que quer para a sua vida – e a para a de Jonas também, seu filho de treze anos. Em busca de sua autoconfiança e de um cotidiano digno, é na profissão de cuidadora de idosos que encontrará o seu conforto e através da qual conseguirá dar vazão à sua índole dócil e altruísta. 

Conhecemos sua infância, seus traumas que surgem neste período, sua adolescência e sua vida de casada. Até então, são várias pessoas destruidoras que apareceram em sua vida, a ponto de tais relacionamentos determinarem uma ausência de afeto que lhe proporcionaram uma autoestima corroída e deficiente. Porém, Lara tem Eva em sua vida, a avó sempre carinhosa. E é esta figura interessante que lhe ajudará na escolha da sua profissão. Por ser tão importante em sua vida, e justamente por necessitar de cuidados e atenção, Eva parece estar em sua vida para lhe dar um rumo, para ser sua guia. 

Minhas impressões

A leitura é fluida, e isto porque a história é gostosa, do tipo que nos acompanha depois de lermos. Torna-se, até, uma espécie de amigo. A impressão que tenho é que acalenta o coração do leitor, justamente porque trata de temas tão significativos como a família e a interação entre gerações. A discussão sobre a importância de se cuidar e proporcionar uma vida digna aos idosos se faz sempre presente, e de diversas formas, seja explícita ou implicitamente.

Outra característica da história que nos é cativante se refere à intertextualidade. Já começamos com a leitura do prefácio, no qual a autora nos revela o porquê do título, extremamente ligado à figura do Sancho Pança e da obra Dom Quixote. Ao destacarmos Dom Quixote, acabamos deixando de lado o fato de que Sancho é seu fiel escudeiro por cuidar sempre dele, e estar sempre ali ao seu lado. Sancho é, pois, a figura de um cuidador, de alguém que providencia uma vida mais afetuosa a outrem, principalmente por sua companhia. Muito se assemelha a este personagem a menina que Eva adotou e criou, a Baía, uma idosa forte e extremamente doce, fiel àquela que a salvou de um destino cruel de desamparo e inanição. E não apenas esta referência literária aparece em O bálsamo, como várias outras, inclusive musicais e históricas. A narrativa de Lara está entremeada pelo contexto histórico por que passou durante sua própria história, e isto é muito bacana de vir à tona. 


Outra questão interessante do livro é a linearidade temporal, ou esta ser tênue, pois o relato de Lara retorna e avança nas memórias quando necessita. Ela não conta do começo ao fim. Ela começa in media res, conta o seu passado e depois retorna ao presente e àquilo que passa a acontecer em sua vida. Por ser um livro de memórias, este fato é muito verossímil porque o tempo psicológico não necessariamente obedece a cronologia habitual. Pelo contrário, eu diria: se tem algo que não pode acontecer neste tipo de narrativa é a linearidade dos fatos. Quanto a isso, cito também a construção dos personagens. Lara amadurece conforme relata aquilo por que passou, ela é complexa – assim como Baía –, e estar a todo momento a par de sua perspectiva nos esclarece isso.

Apesar de o livro necessitar e merecer uma revisão mais atenta e de alguns diálogos serem inorgânicos (com um uso excessivo de vocativos, o que torna a leitura destes trechos truncada e inverossímil), ele foi um companheiro e tanto para o meu sábado! Fiquei emocionada com a história da Lara e com sua forma de enxergar e lidar com o seu próprio cotidiano. Recomendo àqueles que se entusiasmam com dramas familiares e com livros que têm muito a oferecer, enquanto ensinamentos, ao leitor.

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23.3.17

Um mais um, escrito por Jojo Moyes

Editora: Intrínseca
Páginas: 320
ISBN: 9788580576542
Tradutora: Adalgisa Campos da Silva

Há dez anos, Jess Thomas ficou grávida e largou a escola para se casar com Marty. Dois anos atrás, Marty saiu de casa e nunca mais voltou.
Fazendo faxinas de manhã e trabalhando como garçonete em um pub à noite, Jess mal ganha o suficiente para sustentar a filha Tanzie e o enteado Nicky, que ela cria há oito anos. Jess está muito preocupada com o sensível Nicky, um adolescente gótico e mal-humorado que vive apanhando dos colegas. Já Tanzie, o pequeno gênio da matemática, tem outro problema: ela acabou de receber uma generosa bolsa de estudos em uma escola particular, mas Jess não tem condições de pagar a diferença. Sua única esperança é que a menina vença uma Olimpíada de Matemática que será disputada na Escócia. Mas como eles farão para chegar lá?
Enquanto isso, um dos clientes de faxina de Jess, o gênio da computação Ed Nicholls, decide se refugiar em sua casa de praia por causa de uma denúncia de práticas ilegais envolvendo sua empresa. Entre ele e Jess ocorre o que pode ser chamado de ódio à primeira vista. Mas quando Ed fica bêbado no pub em que Jess trabalha, ela faz questão de deixá-lo em casa, em segurança. Em parte agradecido, mas principalmente para escapar da pressão dos advogados, da ex-mulher e da irmã — que insiste em que ele vá visitar o pai doente —, Ed oferece uma carona a Jess, os filhos e o enorme cão da família até a cidade onde acontecerá o torneio.
Começa então uma viagem repleta de enjoos, comida ruim e engarrafamentos. A situação perfeita para o início de uma história de amor entre uma mãe solteira falida e um geek milionário.
A capa desse livro combina muito com o que podemos esperar da história: o encontro e convívio de cinco personagens únicas e muito diferentes que aprendem a se enxergar, a se respeitar e a se amar.

E definitivamente, em meio a um enredo previsível onde já sabemos o final logo de cara, as personagens ganham destaque e roubam a cena.

Jess é a mãe solteira e trabalhadora que precisa contar cada centavo do seu dinheiro para conseguir pagar as contas do mês. Ela acredita que pessoas boas são recompensadas, mas encara situações que parecem querer mostrar o contrário. Ela conhece seus filhos, sabe das dificuldades que passam por serem diferentes dos outros e sofre por não poder resolver todos os problemas. Ela representa muitas mulheres reais e sua força chega a ser tocante.

Nicky é seu enteado calado, que se veste diferente e que sofre bullying por fugir dos padrões. Com certeza você também já ouviu falar de alguém assim. Mas apesar disso, ele observa tudo o que acontece e tem um grande coração.

Tanzie é uma menina prodígio que arrebenta em matemática e precisa de oportunidades para desenvolver esse talento. A escola particular parece ser a única saída, mas, para isso, primeiro ela precisa vencer uma Olimpíada de Matemática. A maneira dela de pensar é muito interessante e impressiona o leitor.

Ed é um jovem muito rico que corre o risco de perder tudo. Além disso, ele adorava seu trabalho e agora está afastado dele. Sabe aquelas pessoas que se dedicam exclusivamente a uma única coisa? Pois então, agora sua vida parece ter perdido o sentido. Quando vê a família de Jess precisando de uma carona para a Escócia, ele pensa em fazer uma boa ação para retribuir um favor e fugir de sua própria realidade. No começo pensa em desistir, mas ele não tem muito mais o que fazer no momento. A convivência com pessoas tão diferentes, de um nível sócio-econômico tão mais baixo que o dele vai mostrar para Ed um mundo totalmente novo.

Nolan é o cachorro da família que apesar de ser companheiro não facilita muito a viagem de carro.

Durante a narrativa, temos todos esses personagens convivendo por alguns dias enquanto viajam de carro para a Escócia. Com momentos engraçados, tensos e doces, a leitura flui mais fácil do que a trajetória que eles precisam percorrer para chegar a tempo à Olimpíada de Matemática de Tanzie, para se conhecerem melhor e para perceber o quanto precisam um do outro.
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