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13.2.17

História de quem foge e de quem fica, de Elena Ferrante

História de quem foge e de quem fica, escrito por Elena Ferrante



Editora: Biblioteca Azul/Editora Globo
Páginas: 416
ISBN: 8525062502
Tradução: Mauricio Santana Dias

A continuação do aclamado A amiga genial
No terceiro volume da série napolitana, Lenu e Lila partem para os embates da vida adulta. Numa sequência angustiante e sem espaço para a inocência de outrora, Elena Ferrante coloca o leitor no meio do turbilhão que se forma das amizades, das relações sociais e dos interesses individuais. História de quem foge e de quem fica é uma obra de arte a respeito do amor, da maternidade, da busca por justiça social e de como é transgressor ser mulher em um mundo comandado pelos homens.

Já escrevi aqui sobre A amiga genial e História do novo sobrenome. História de quem foge e de quem fica é a continuação, o terceiro livro da Série Napolitana. Você pode ler a resenha, (eu ficaria feliz com a leitura), mas não tente ler o livros fora da ordem. Primeiro porque o livro foi pensando como uma série e devemos certo respeito ao projeto da autora, segundo porque não tem como entender a vida adulta de Elena e Lina pulando a infância que está em A amiga genial e a adolescência de História do novo sobrenome. O terceiro livro segue o contrato estabelecido desde o primeiro volume: uma tabela inicial com os nomes dos personagens, as relações familiares e breves resumos que retomam pontos e acontecimentos anteriores; quem comanda a narração é Elena, iniciando de uma forma que recapitule o desaparecimento de Lila que foi o ponto de partida da narrativa, os principais eventos do passado e a cena final do último volume, que tanto no primeiro, quanto no segundo livro firam tipo os últimos capítulos das novelas.

Amiga genial termina quando as meninas têm 16 anos, A História do novo sobrenome quando têm por volta dos 20 anos, História de quem foge e de quem fica começa aí e termina em torno dos 30 anos. Dom Aquille, o dono do bairro e o ogro das fábulas, começa receber o adjetivo de agiota e sua família de fascistas. As violências que passavam como sustos, espetáculos e estranhamentos aos olhos da infância ganham contornos definidos e passam a ser verdadeiramente encenadas e vividas. Não só a vida adulta traz para existência de Elena e Lina dificuldades, violências emocionais e físicas, mas também o mundo social: o bairro pobre em que nasceram leva a toda Nápoles, Nápoles leva a toda Itália, a Itália leva a toda Europa e a Europa ao mundo - explodem os movimentos estudantis e lutas operárias, Maio de 68 na França entusiasma a todos com promessas de melhores futuros, os artiguinhos de esquerda de Elena se tornam verdadeiros relatos das dificuldades da classe operária nas fábricas da periferia; mas por outro lado, o fascismo, a exploração e a repressão deixam de ser somente a ameaça dos irmãos Solara e tornam-se real nas ruas, no trabalho e em toda parte. Quanto mais Elena e Lina crescem enfrentando a deficiências dos próprios corpos que envelhecem e de suas condições de mulheres, inevitavelmente se ligam a uma resistência social. A luta operária e estudantil para as duas, ainda que seja de maneiras diferentes, é uma resistência às violências e opressões individuais em que são submetidas. Antes defendi que os livros eram sobre a violência, mas não aquela dos grandes esquemas de máfia e gangues, mas da violência escamoteada no cotidiano. No terceiro volume da Série Napolitana, a violência é um produto do tempo histórico que se espalha pelo espaço como doença e que só fomenta a gravidade das violência pequenas escondidas nas relações privadas e nos bairros desimportantes.

Se até então a leitora ou o leitor de Elena Ferrante não tinha se sentido colocado contra a parede pela violência do mundo dos homens, nesse terceiro volume isso é impossível. A vida adulta faz emergir toda a potência da dominação masculina: mulheres enganadas, traídas, iludidas, meninos que tentam negar os pais e são iguais eles, vidas sexuais expostas, violência doméstica, manipulação psicológica, rebaixamento acadêmico, escravidão ao papel de mãe, escravidão ao trabalho doméstico, rótulos, deformações do corpo, a repressão do sexo, o nojo do sexo, a imposição do sexo, a vontade do sexo, o salário mais baixo, a posição menos importante, o desespero de ser diferente e o caminho inevitável de ser igual, . Tanto Elena, quanto Lina são massacradas por todas essas questões. Se o esforço da vida toda de Elena foi fugir do bairro e fugir de ser quem a família esperava que ela fosse , e principalmente, de ser o que a mãe era, fica a dúvida se não era inevitável que mesmo diferente, ela fosse igual, mesmo fugindo, ela permanecesse no subúrbio de Nápoles. O fugir e o ficar de Elena e Lina não são concluídos, não tem um ponto final para termos certezas em afirmar se as mudanças são possíveis ou não. Mas se ainda há esperança para Elena e Lina, não se pode dizer o mesmo para os homens. Não importa o quão diferente tentam ser, não importa o quanto tentam se afastar da violência e da dominação exercida nas figuras de seus pais, eles se tornam sempre os próprios pais, eles voltam sempre aos mesmos lugares de partida.

Isso me parece presente desde o primeiro volume, mas essa consciência do mundo masculino e essa visão tão pessimista com relação aos homens parece de forma gritante no terceiro volume da série. Disto é válido pensar que quando Elena Ferrante começou a se tornar um sucesso mundial, ganhar prêmios e elogios da crítica literária, Ferrante fever como foi chamado o fenômeno, levantou-se a hipótese de que se tratasse de um homem, já que ninguém conhecia sua identidade. Um jornalista italiano se deu ao trabalho de vasculhar os dados pessoais e bancários da autora até descobrir sua verdadeira identidade (obviamente era uma mulher!), descobriu-se que é casada com um escritor italiano já famoso e agora levanta-se a hipótese que seja o marido que escreva os livros e não ela. Aparentemente esses levantadores de hipóteses não leram os livros e não perceberam o quanto o mundo masculino é uma das maiores fontes de violência no interior dos romances de Elena Ferrante. A tentativa de dar o crédito do sucesso da escrita a um homem ou desmerecer a autora diante da valorização de seu marido só mostra o quanto a ficção está correta enquanto diagnóstico da realidade. 

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