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Luuanda Luandino Vieira
11.12.16

Te vendo um cachorro, de Juan Pablo Villalobos

Te vendo um cachorro, escrito por Juan Pablo Villalobos



Editora: Companhia das Letras
Páginas: 248
ISBN: 8535926313
Tradução: Sérgio Molina
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Encerrando a trilogia sobre o México, Juan Pablo Villalobos cria um ambiente farsesco em torno de velhos aposentados e tece uma crítica mordaz à vida em sociedade. Aos 78 anos, Teo se muda para um prédio decadente cheio de anciãos. Passa os dias ouvindo as fofocas nos corredores, nutrindo desejos eróticos pela síndica e calculando quantas cervejas pode beber por dia às custas de um pecúlio que deve durar até sua morte. O grande evento do prédio é uma tertúlia literária: os participantes se impõem o desafio de ler os sete tomos de Em busca do tempo perdido, intercalando Proust com aulas de modelagem e ginástica aeróbica. Com este romance, Juan Pablo Villalobos encerra a trilogia sobre o México iniciada com Festa no covil. Mais afiado do que nunca, o autor debruça-se sobre a velhice, o cotidiano e a literatura para tecer uma crítica sagaz sobre a vida em sociedade.
No começo do ano escrevi aqui uma resenha de Festa no Covil. Tentei contar um pouco a minha sensação de estranhamento de pegar aquele livro laranja brilhante, com um título bizarro e encontrar uma narrativa incrível, surpreendente, que tinha, no seu centro, um tema arriscado, mas que era trabalhado de forma cuidadosa para não se tornar maniqueísta. Li Festa no Covil para o clube do livro da Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo; um dos participantes comentou que se o livro pertencia a um projeto de abordar o narcotráfico no México por perspectivas diferentes. Festa no Covil era pela perspectiva de uma criança, e segundo o moço, os outros seriam pela perspectiva de um velho e de um cachorro. Bom, guardei essa informação e quando pedi o livro Te vendo um cachorro para Companhia das Letras, esperava, obviamente, novamente me surpreender, mas agora com um cachorro narrando (de alguma forma) a questão do narcotráfico. Expectativa frustrada de novo!!! E positivamente, de novo também!

Como diz a pequena sinopse que coloquei acima, acho que podemos considerar que se há um tema comum na trilogia composta por Festa no Covil, Se vivêssemos num lugar normal e Te vendo um cachorro, então este tema é o México. Te vendo um cachorro é narrado por um velho, e não por um cachorro, que se muda para um prédio decadente habitado somente por velhos e aposentados. Logo quando chega ao prédio, ele se encontra com a Tertúlia Literária, uma espécie de clube do livro dos moradores. Eles pressupõe que o narrador é um artista e se decepcionam rapidamente quando descobrem que ele não passa de um vendedor de tacos aposentado. O narrador mais parece um protagonista do Woody Allen com cores de América Latina. Ele fala muito, opina sobre tudo, ironiza todas as situações e pessoas a sua volta, provoca a tertúlia literária, principalmente a líder deles, também síndica do prédio, Francesca, que cisma que ele está escrevendo um romance. Ele diz o tempo todo, para a tertúlia e para o leitor, que não está.

Ele tem calculado o quanto pode viver de acordo com suas economias, mas principalmente quantas cervejas pode tomar. Passa o livro inteiro tomando cervejas e boa parte dele arrumando maneiras de as conseguir de graça. Digo ele porque numa primeira parte do livro o narrador não é nomeado. Um dia ele decide roubar uma Teoria Estética de Theodor Adorno de uma biblioteca pública, passa usar o livro para afastar telemarketings, vendedores ambulantes e corretor de seguro. Além disso, usa a Teoria Estética para matar as baratas do seu apartamento. Então, numa conversa com a dona da quitanda da rua, eles decidem que estão numa missão e que não deveriam usar seus nomes verdadeiros, e por isso o narrador escolhe ser chamado de Teo, de Theodoro, que persiste como seu nome até o final do livro.

A capa azul brilhante, o nome Te vendo um cachorro provocam um contraste imediato, e até uma risada em alguns, quando se olha o índice do livro:

11 - Teoria Estética
125 - Notas de literatura

Títulos muito sérios e técnicos da área de teoria literária para um livro que parece tão pouco sério num primeiro olhar. Inicialmente, ainda podiam ser nomes gerais, contudo a referência a Adorno é confirmada, como já foi falado. Para quem não conhece, trata-se de um intelectual alemão da chamada Escola de Frankfurt que escreveu sobre muitas coisas diferentes, mas todos seus textos têm algo em comum: são conhecidos por serem bem complicados e desafios de leitura. É bastante comum no meio universitário de encontrar professores importantes que admitem as dificuldades dos textos de Adorno. O top da lista pode mudar, mas com certeza a Teoria Estética está entre os livros mais difíceis do autor. Tendo isto em vista, a referência a Adorno saindo da "boca" de alguém tão desbocado debochado quanto Teo, já é engraçado; já usar o livro como maneira de afastar operadores de telemarketings soa como uma ideia genial e promissora, mas também muito cômica. O livro se torna quase que um amuleto para o narrador, até que ele é capturado e feito refém pela tertúlia literária. Teo, como vingança, captura os exemplares de Em busca do tempo perdido que a tertúlia estava lendo e tenta substituir a Teoria Estética por Notas de Literatura. Mas o volume III de Notas de Literatura é muito fino para matar as baratas.

Esses pequenos detalhes já podem dar uma ideia geral do funcionamento da narrativa: além do narrador irônico e provocador, há uma aparência de realismo, de seriedade que vai sendo frustrada aos poucos. As pessoas no prédio fazem exposição de esculturas de passarinhos feitos de miolos de pão, Teo expulsa as baratas do seu apartamento por música cubana, pois aparentemente baratas são conservadoras e de direita, lota um elevador até o teto de baratas, entre outras coisas. O mundo que parece real começa a ficar cheio de acontecimentos absurdos e o leitor tem que trabalhar suas expectativas em torno da verossimilhança. Mas a melhor parte é que tudo isso acontece com muito humor, sem ser de forma forçada ou vulgar.

Entretanto, além da oscilação entre possível e impossível, ficção e crítica literária, há outro movimento em torno desse humor que contrasta com uma melancolia que vem da rememoração: a infância com os conflitos entre o pai, acusado de temperado artístico, e a mãe que tentava saciar a solidão na companhia de cachorros; os cachorros que morreram engolindo meias; a separação do pai; a mãe que tinha certeza da morte; o amor e o desejo frustrados  da adolescência; a perda de tudo; o fim da escola de artes; a vida de taqueiro; a verdade de vender tacos com carne de cachorro; a vontade da arte que ficou frustrada dentro de si.

Num primeiro plano, o humor. Num segundo plano, a melancolia dos dilemas individuais. E mais ali no fundo, uma relação entre os acontecimentos engraçados, as frustrações pessoais e os problema políticos da sociedade mexicana. O livro de Juan Pablo Villalobos é bastante complexo por trás da aparente não-seriedade, além de ser, assim como Festa no Covil, uma leitura surpreendente, ousada e bastante engraçada. 

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