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Ensaio sobre a cegueira Saramago

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Uma duas Eliane Brum

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Extraordinário Luandino Vieira

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Luuanda Luandino Vieira
28.12.16

Poemas, escrito por Adonis


Editora: Companhia das Letras
Páginas: 262
ISBN: 8535921249
Tradução: Michel Sleiman
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Na poesia de Adonis, mais do que a polifonia das várias vozes, o leitor poderá encontrar o politeísmo de múltiplas verdades - contra a certeza de um Deus, a verdade plural das musas.


Há muito tempo tinha curiosidade sobre a poesia de Adonis. Li algumas coisas dispersas e fiquei intrigada. Perguntei para linda da Mel se podia pedir um livro de poesia e fazer a resenha sobre ele e, obviamente, maravilhosa e aberta como ela é, aceitou. O problema foi que eu mesma não percebi antes as dificuldades de resenhar um livro de poesias. Não tem resumo da história, não tem lista de personagens, não posso lançar alguns acontecimentos gerais da história para fazer outras pessoas ficarem curiosas. Ao mesmo tempo, não posso tratar de um único poema, não posso tirar o poema do seu contexto, não posso ficar recortando trecho como "olha que bonito" e também não consigo dar conta de todos os poemas do livro. O ponto de partida já é um desfio. Entretanto, Adonis vale o esforço.


O livro da Companhia das Letras poderia servir como uma espécie de apresentação do poeta. Ele começa com um prefácio inspirador feito pelo querido Milton Hatoum que faz um resumo sobre a carreira do autor e seu percurso biográfico: nasceu na Síria, formou-se em filosofia em Damasco, exilou-se em Beirute, mudou-se para Paris, traduziu T.S. Eliot e Robert Foster para o árabe, de Paris fundou diversas revistas que tinha o intuito de dar voz a nova poesia árabe, tem intensas relações com autores ocidentais como Rainer Maria Rilke, Baudelaire, Rimbaud, Henri Michaux, Walt Whitman, além das referências em língua árabe como os poetas sufis, al-Hallaj, Abu-Nuwas e al-Níffari e um cosmopolitismo que se estende ainda para outras língua e culturas, como o persa com referências como Shams ud-Din Mohamed Hafiz e Shiraz. Além disso, Milton Hatoum faz sua leitura e seu elogio a poesia de Adonis, recorta alguns trechos e mostra algumas imagens recorrente dessa poesia que, segundo ele, "tenta desvelar a essência do impossível por meio da alquimia verbal" (p. 16).

Há, depois, um breve comentário de algumas páginas do tradutor Michel Sleiman intutulado "Adonis em português" e em seguida, marcado pela referência 1957-1968 iniciam-se as poesias. Antes dos poemas aparecerem efetivamente, há sempre um título maior que agrupa os poemas de cada seção e uma explicação sobre cada uma dessa partes. Por exemplo, a primeira seção intitulada "Do amor, da morte, do que não acaba" vem marcada logo abaixo pela palavra "seleção" e pela explicação: "esse título, dado pela tradução, é formado com base na seleção de poemas tirados dos capítulos 'Poemas de morte', 'Canções de amor', 'Limites do desespero' e 'Poemas que não acabam', de Primeiros poemas, 1957". Ora, como eu disse, isso é uma estratégia interessante como forma de apresentação do autor, recolher algumas poesias, tendo em mente um projeto ou uma razão que justifiquem tais escolhas, é uma maneira de apresentar um pouco, um tema, um lado de determinado poeta. Entretanto, livros de poesia são como vinis ou k7. Vinis voltaram a moda e as K7 infelizmente não, mas quem conhece esses dois objetos sabe que eles pertencem a um tempo em que um gravação era muito caro, não existia Youtube, MTV ou Spotify, não podíamos ouvir o single no Itunes, tínhamos o vinil e ouvíamos tudo que estava ali, pois as músicas se relacionavam, uma fazia ligação com a outra ou respondia a outra, ou contestava a outra, os discos tinham projetos, narrativas próprias, uma lógica interna. Era importante ouvir as faixas na sequência, do começo ao fim para compreender toda essa narrativa. Livros de poesia até permitem saltos, leituras parciais, repetições, assim como os discos, mas sempre há um projeto maior, um sentido no conjunto que perdemos com esses saltos e recortes. Recortes são complicados. Propaganda, vestibulares, facebooks tendem a recortar versos de poemas para transformá-los em frases de auto-ajuda, frases de efeito, recadinhos românticos ou exemplos didáticos, produzindo aí diversos clichês. Poesia é coisa séria e os poemas merecem respeito. Gostar de um verso, recortá-lo, copiá-lo e colá-lo na parede do quarto não é crime, nem pecado, mas o recorte sempre proporciona um risco de perda, perde-se o contexto, perde-se o trabalho do autor com a forma e o conteúdo, perde a potência de sentido, perde a polissemia para reluzi-lo a uma única leitura. Claramente não é o caso do livro aqui em questão, não há recorte de versos, nem a transformação da poesia de Adonis em frases de efeito. Entretanto, há, de toda forma, recorte de livros de poemas, de conjuntos fechados que mereciam a atenção e dedicação de forma individualizada. Os poemas dessa primeira parte pertencem a divisões diferentes do livro original. O autor não divide o livro em partes e encaixa os poemas aleatoriamente. Existe sempre uma razão para os poemas estarem ali, para o nome de cada uma das partes, da sequência do que vem antes e do que vem depois. Em seguida, há uma seção chama "Folhas ao vento" e trata-se de uma seleção de dezoito das cinquenta unidades de poemas - são pequenas unidades de alguns versos que tem sentido sozinhas, claro, mas não foram colocadas sozinhas, elas existem sozinhas, existem como dezoito, mas com absoluta certeza existem de maneira mais completa as cinquenta juntas. Mais para frente, "Os dias do Sacre", temos os dois primeiros poemas que formam um poema bem longo de motivo épico. Ora, ninguém recorta a Odisséia, a Ilíada, a Eneida ou Os Lusíadas. Então, podíamos ter o mesmo respeito com o querido Adonis e não recortar "Os dias do Sacre".

Isso não diminui a beleza do livro. Apesar do risco dos recortes e da seleção, o livro cumpre o papel de despertar o desejo da existência dos livros completos e separados de Adonis. A seleção procura trazer de maneira mais justa possível as árvores de vida e sentido que crescem por sua poesia, a metamorfose da natureza que é também do homem, da experiência e da linguagem, os mitos da Península Arábica que se misturam com os mitos do Ocidente, a busca por um outro lugar de produção da poesia, onde o sentido não está mais dado, mas está em constante e interminável metamorfose e em processo de construção, destruição e reconstrução. Tumba para Nova York, o single internacional de Adonis,  aparece completo trazendo por inteiro sua potência da temática da grande cidade, mas dessa vez a arquitetura da cidade é elaborada por um estrangeiro, um sírio, que conhece Walt Whitman mas que vê ali a violência, o racismo, a "folha-grama" de Whitman virando a "folha-dólar" de Wall Street, asfalto e arranha-céu junto com árvores, serra, sol e Jerusalém. Como há excertos de diversos livros, como já foi apontado, é difícil enumerar tudo o que está contido ali. Há partes mais sociais sobre a condição e a identidade do Oriente, há outras mais existências sobre o amor, a mulher e a morte. Porém, o que me parece maior e que liga todos os pedaços dos livros é a própria linguagem e a poesia como possibilidade de um outro espaço de linguagem. Por isso, atraiu-me especialmente a atenção uma seção nomeada "Guia para viajar pelas florestas do sentido" em que há um empenho de ressignificação do mundo.










É difícil falar de poesia e difícil falar de Adonis. Acho que fiquei muito aquém de uma real compreensão de tudo o que li e falei muito pouco sobre o que senti com a leitura. O livro contém algumas páginas que reproduções a escrita original do poema em árabe. É muito bonito e interessante olhar para isso e parece-me um pouco do que é o próprio processo de leitura da poesia: é olhar para uma outra língua que tem os mais potentes sentidos escondidos em sutis traços e pequenos pontos, pequenos nadas, como disse Manuel Bandeira. 



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11.12.16

Te vendo um cachorro, escrito por Juan Pablo Villalobos



Editora: Companhia das Letras
Páginas: 248
ISBN: 8535926313
Tradução: Sérgio Molina
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Encerrando a trilogia sobre o México, Juan Pablo Villalobos cria um ambiente farsesco em torno de velhos aposentados e tece uma crítica mordaz à vida em sociedade. Aos 78 anos, Teo se muda para um prédio decadente cheio de anciãos. Passa os dias ouvindo as fofocas nos corredores, nutrindo desejos eróticos pela síndica e calculando quantas cervejas pode beber por dia às custas de um pecúlio que deve durar até sua morte. O grande evento do prédio é uma tertúlia literária: os participantes se impõem o desafio de ler os sete tomos de Em busca do tempo perdido, intercalando Proust com aulas de modelagem e ginástica aeróbica. Com este romance, Juan Pablo Villalobos encerra a trilogia sobre o México iniciada com Festa no covil. Mais afiado do que nunca, o autor debruça-se sobre a velhice, o cotidiano e a literatura para tecer uma crítica sagaz sobre a vida em sociedade.
No começo do ano escrevi aqui uma resenha de Festa no Covil. Tentei contar um pouco a minha sensação de estranhamento de pegar aquele livro laranja brilhante, com um título bizarro e encontrar uma narrativa incrível, surpreendente, que tinha, no seu centro, um tema arriscado, mas que era trabalhado de forma cuidadosa para não se tornar maniqueísta. Li Festa no Covil para o clube do livro da Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo; um dos participantes comentou que se o livro pertencia a um projeto de abordar o narcotráfico no México por perspectivas diferentes. Festa no Covil era pela perspectiva de uma criança, e segundo o moço, os outros seriam pela perspectiva de um velho e de um cachorro. Bom, guardei essa informação e quando pedi o livro Te vendo um cachorro para Companhia das Letras, esperava, obviamente, novamente me surpreender, mas agora com um cachorro narrando (de alguma forma) a questão do narcotráfico. Expectativa frustrada de novo!!! E positivamente, de novo também!

Como diz a pequena sinopse que coloquei acima, acho que podemos considerar que se há um tema comum na trilogia composta por Festa no Covil, Se vivêssemos num lugar normal e Te vendo um cachorro, então este tema é o México. Te vendo um cachorro é narrado por um velho, e não por um cachorro, que se muda para um prédio decadente habitado somente por velhos e aposentados. Logo quando chega ao prédio, ele se encontra com a Tertúlia Literária, uma espécie de clube do livro dos moradores. Eles pressupõe que o narrador é um artista e se decepcionam rapidamente quando descobrem que ele não passa de um vendedor de tacos aposentado. O narrador mais parece um protagonista do Woody Allen com cores de América Latina. Ele fala muito, opina sobre tudo, ironiza todas as situações e pessoas a sua volta, provoca a tertúlia literária, principalmente a líder deles, também síndica do prédio, Francesca, que cisma que ele está escrevendo um romance. Ele diz o tempo todo, para a tertúlia e para o leitor, que não está.

Ele tem calculado o quanto pode viver de acordo com suas economias, mas principalmente quantas cervejas pode tomar. Passa o livro inteiro tomando cervejas e boa parte dele arrumando maneiras de as conseguir de graça. Digo ele porque numa primeira parte do livro o narrador não é nomeado. Um dia ele decide roubar uma Teoria Estética de Theodor Adorno de uma biblioteca pública, passa usar o livro para afastar telemarketings, vendedores ambulantes e corretor de seguro. Além disso, usa a Teoria Estética para matar as baratas do seu apartamento. Então, numa conversa com a dona da quitanda da rua, eles decidem que estão numa missão e que não deveriam usar seus nomes verdadeiros, e por isso o narrador escolhe ser chamado de Teo, de Theodoro, que persiste como seu nome até o final do livro.

A capa azul brilhante, o nome Te vendo um cachorro provocam um contraste imediato, e até uma risada em alguns, quando se olha o índice do livro:

11 - Teoria Estética
125 - Notas de literatura

Títulos muito sérios e técnicos da área de teoria literária para um livro que parece tão pouco sério num primeiro olhar. Inicialmente, ainda podiam ser nomes gerais, contudo a referência a Adorno é confirmada, como já foi falado. Para quem não conhece, trata-se de um intelectual alemão da chamada Escola de Frankfurt que escreveu sobre muitas coisas diferentes, mas todos seus textos têm algo em comum: são conhecidos por serem bem complicados e desafios de leitura. É bastante comum no meio universitário de encontrar professores importantes que admitem as dificuldades dos textos de Adorno. O top da lista pode mudar, mas com certeza a Teoria Estética está entre os livros mais difíceis do autor. Tendo isto em vista, a referência a Adorno saindo da "boca" de alguém tão desbocado debochado quanto Teo, já é engraçado; já usar o livro como maneira de afastar operadores de telemarketings soa como uma ideia genial e promissora, mas também muito cômica. O livro se torna quase que um amuleto para o narrador, até que ele é capturado e feito refém pela tertúlia literária. Teo, como vingança, captura os exemplares de Em busca do tempo perdido que a tertúlia estava lendo e tenta substituir a Teoria Estética por Notas de Literatura. Mas o volume III de Notas de Literatura é muito fino para matar as baratas.

Esses pequenos detalhes já podem dar uma ideia geral do funcionamento da narrativa: além do narrador irônico e provocador, há uma aparência de realismo, de seriedade que vai sendo frustrada aos poucos. As pessoas no prédio fazem exposição de esculturas de passarinhos feitos de miolos de pão, Teo expulsa as baratas do seu apartamento por música cubana, pois aparentemente baratas são conservadoras e de direita, lota um elevador até o teto de baratas, entre outras coisas. O mundo que parece real começa a ficar cheio de acontecimentos absurdos e o leitor tem que trabalhar suas expectativas em torno da verossimilhança. Mas a melhor parte é que tudo isso acontece com muito humor, sem ser de forma forçada ou vulgar.

Entretanto, além da oscilação entre possível e impossível, ficção e crítica literária, há outro movimento em torno desse humor que contrasta com uma melancolia que vem da rememoração: a infância com os conflitos entre o pai, acusado de temperado artístico, e a mãe que tentava saciar a solidão na companhia de cachorros; os cachorros que morreram engolindo meias; a separação do pai; a mãe que tinha certeza da morte; o amor e o desejo frustrados  da adolescência; a perda de tudo; o fim da escola de artes; a vida de taqueiro; a verdade de vender tacos com carne de cachorro; a vontade da arte que ficou frustrada dentro de si.

Num primeiro plano, o humor. Num segundo plano, a melancolia dos dilemas individuais. E mais ali no fundo, uma relação entre os acontecimentos engraçados, as frustrações pessoais e os problema políticos da sociedade mexicana. O livro de Juan Pablo Villalobos é bastante complexo por trás da aparente não-seriedade, além de ser, assim como Festa no Covil, uma leitura surpreendente, ousada e bastante engraçada. 
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