20.11.16

En finir avec Eddy Bellegueule, de Édouard Louis

En finir avec Eddy Bellegueule, escrito por Édouard Louis 


Editora: Seuil
Páginas: 219
ISBN-10: 2021117707
ISBN-13: 978-2021117707
Língua: Francês

"De repente, saí correndo. Era só o tempo de ouvir minha mãe dizer O que o idiota tá fazendo? Eu não queria ficar do lado deles, eu me recusava de compartilhar esse momento com eles. Eu já estava longe, já não pertencia mais ao mundo deles, a carta dizia. Eu fui até o campo e andei uma boa parte da noite, o frescor do Norte, os caminhos de terra, o cheiro das flores muito forte nessa época do ano. A noite toda eu consagrei a elaborar minha nova vida longe "daqui". Na verdade, a insurreição contra meus pais, contra a pobreza, contra minha classe social e seu racismo, sua violência, seus costumes só vieram depois. Pois antes que eu me revoltasse contra o mundo de minha infância, esse mundo se revoltou contra mim. Muito rápido, eu fui, para minha família e para os outros, uma fonte de vergonha e mesmo de nojo. Minha única escolha foi fugir. Esse livro é uma forma de tentar entender" (tradução própria).

Consultei a Mel Ferraz antes de escrever essa resenha, pois se trata de um livro que ainda não foi traduzido para o português. Queria saber se ela achava ruim falar de um livro cujo público se limita devido essa diferença de língua. A Mel, como sempre muito disposta e aberta, me disse que seria interessante falar do livro mesmo assim. Quem sabe isso não possa aumentar as possibilidades de que um dia ele seja traduzido e torne-se mais acessível para leitores brasileiros.

O título poderia ser algo como "Para acabar com Eddy Bellegueule", lançado em 2014 por um moço que atualmente tem 24 anos e atualmente se chama Édouard Louis. Digo atualmente porque ele se chamava Eddy Bellegueule e mudou seu nome pouco antes do livro ser lançado. Auto-biografia ou auto-ficção ou romance, coloquem a etiqueta que mais lhes agrada, pois etiquetas nunca dão conta de tudo e muito menos de um livro como esse. Édouard Louis narra a si mesmo, mas principalmente narra quem ele foi e quem ele decidiu não ser mais, alguém com quem ele decidiu acabar, matar a si mesmo, matar Eddy para que pudesse ser Édouard Louis. Logo, sua mudança de nome na realidade acompanha sua proposta de ficção.

Isto pode parecer interessante para alguns, mais do mesmo para outros. Entretanto, as primeiras linhas do livro já deixam claro a força de tal desconstrução/construção de identidade:

"De minha infância eu não tenho nenhuma lembrança feliz. Não quero dizer que, durante esses anos, eu nunca tenha experimentado um sentimento de felicidade ou alegria. Simplesmente o sofrimento é totalitário: tudo o que não entra no seu sistema, ele faz desaparecer" (tradução própria).

Não há aqui espaço para meias-palavras. Admitir o sofrimento é já em si um problema, pois pode trazer à tona culpas e vergonhas. É exatamente esse o caminho do texto: admitir o sofrimento, narrar a dor, admitir que a dor é algo com que nunca se acostuma, para ressignificar as culpas e as vergonhas.

O narrador conta dos sofrimentos de sua infância que eram causados, especialmente, pelo fato de ele ser homossexual. Na realidade, ele era um menino que não correspondia aos padrões e aos comportamentos esperados dos meninos do meio social em que ele vivia. Em sua casa moravam 7 pessoas com uma renda de 700 euros por mês: seu pai, como a maioria dos homens da minúscula cidadezinha do norte da França, era operário de uma fábrica, forte, duro, violento, inflexível, o chefe da casa e da família, o provedor, o dono da palavra final; sua mãe, dona de casa, mas que também cuidava de velinhos, o que causou um problema quando ela começou a ganhar mais do que o marido, tinha ficado grávida aos 16 anos, queria um filho que fosse um Don Juan entre as mulheres e uma filha que passeasse com ela para fazer compras; era a mulher que sempre defendia o marido, independente do comportamento violento que ele pudesse ter. Além dos pais havia seus irmãos, todos numa casa minúscula, marcada pela umidade, janelas quebradas, falta de água quente, falta de comida e pelo barulho da televisão.

O caminho: ir a escola, a única da cidade, ir ao ensino médio, o único da cidade, ir trabalhar na fábrica, como os homens da cidade faziam, casar-se com uma mulher e ir ao bar beber com os amigos, como o pai e o irmão mais velho faziam. Um futuro conhecido. O problema do menino Eddy é que ele apresentava "ares afeminados" que não correspondiam ao que seu pai, seu irmão e esses outros homens da fábrica e do bar achavam que um homem deveria ser. Isto lhe proporcionou, além da repreensão e da rejeição da própria família, violência física e vergonha nos anos de escola. Mas para ele mesmo, Eddy, ele devia ter um problema, ele era um problema. O que era certo na família, na escola e na cidade também era o certo para ele e ele não era certo, havia algo "errado" em si que ele tentava mudar, tentava imitar o comportamento dos outros, jogar futebol, andar entre os homens, namorar meninas, assistir televisão o dia todo, mas no final era sempre traído pelo próprio corpo que o levava para o oposto de tudo isso. Além da relação com os outros, havia a decepção com si próprio, de ser para si mesmo incorrigível.

No mesmo tom direto das primeiras linhas, o resto do livro segue explícito em contar a dor e a violência que eram físicas, mas também aquelas ligadas a imposição de um padrão e de um futuro pré-estabelecido, a vergonha, a impossibilidade de certas identidades, o medo, a frustração consigo mesmo, a dor de ser obrigado a fingir ser diferente do que realmente é e de se sentir estranho, sozinho, errado e anormal. Não é uma história bonitinha para rir. Não é também uma história sobre um menininho especial e diferente que não se encaixava num mundo de pessoas grosseiras e más. Trata-se das violências dos discursos, dos lugares, dos padrões. Eddy é a vítima, mas todos os são. A história não é uma vingança contra todos aqueles que o fizeram sofrer na infância. Também não é para matar o menino Eddy, no sentido de condenar o mundo que o fez e que o criou. Mas o livro todo é a tentativa de refletir sobre as violências que compõem os ambientes e os discursos que habitamos e como é possível construir uma identidade em meio a tal violência. Pensar na identidade não é só ser igual ou diferente, não é um jogo em que o diferente é o especial e mais inteligente, protagonistas de livros e filmes de hollywood. É isso que faz a o livro de Édouard Louis tão especial: uma semelhança intensa e dolorosa com a complexidade da realidade, em que não há uma divisão entre maus e bons; onde a dor, o sofrimento e a violência são as experiências mais fortes e mais importantes.


Logo, não é uma leitura leve e de risadas. Mas, assim como o narrador descreve sua infância, não significa que não há momentos de felicidade. Contudo, o que dá sua força e o que faz com que esse texto seja merecedor de uma tradução para o português é justamente a reflexão sincera e profunda sobre as possibilidades de ser e não ser. 

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