12.10.16

Voltar para casa, de Toni Morrison

Voltar para casa, escrito por Toni Morrison

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 136
ISBN: 8535927123
Tradução: José Rubens Siqueira
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Quando Frank Money volta da Guerra da Coréia com mais cicatrizes do que as visíveis no corpo, encontra um mundo racista e desfigurado. Durante os anos de sua ausência, sua irmã Ycidra sobreviveu como pôde a uma sociedade machista e opressiva, em que as mulheres são sistematicamente abandonadas pelos maridos e muitas vezes mutiladas sem piedade. Ao se reencontrarem na pequena cidade de Geórgia, onde nasceram, os irmãos revisitam memórias da infância, e Frank retoma sua experiência traumática no campo de batalha para redescobrir a força e a coragem que já não acreditava ter. Um romance estarrecedor sobre a forte ligação entre irmãos, a ressignificação de um passado violento e a volta para casa.

Com quatro anos Frank se muda com a família para um povoadinho insignificante, que nem chega a ser uma cidade, chamado Lotus na Geórgia. Ali vão viver de favor na casa do avô. Frank dormia num balanço do lado de fora da casa, mesmo quando chovia, o tio dormia em duas cadeiras encostadas na parede e os pais dormiam no chão junto da pequena Ycidra. Ycidra, ou Ci, nascida na viagem até Lotus, ganhou esse nome estranho porque sua mãe gostava do som que ele formava quando pronunciado. Entretanto, isso não significou que a mãe ou pai tivessem qualquer afeto pela menina recém-nascida. Na verdade, a mãe, o pai e o tio tinham cada um dois empregos, trabalhavam dezesseis horas por dia, quando chegavam em casa, as crianças eram só fonte de aborrecimento. O avô era uma figura apagada e submissa a esposa que odiava todos os membros da família por terem roubado seu sossego e o espaço de sua casa. Ela, Lenore, odiava principalmente Ci, "filha da sarjeta", corrigia, repreendia e mal tratava a menina o máximo que podia. Nesse ambiente áspero, o único consolo de Ci era Frank que cuidou dela como os pais deveriam ter cuidado. Frank a acalmava quando sentia medo, quando era mal tratada, guardava numa caixinha suas bolas de gude favoritas e dentinhos de leite de Ci, um menino e um pai ao mesmo tempo. 

Além de Ci, a única coisa que aliviava as infelicidades de Frank eram seus colegas Mike e Stuff. E foi com a companhia deles que Frank foi servir ao exército na Coréia para fugir daquela vida sem sentido e sem afeto da Geórgia. A guerra não dá sentido a vida, mas oferece algum objetivo, emoção e ousadia. Entretanto, uma vez que se esteve na guerra, a guerra estará sempre com você. Frank vive com os tormentos das lembranças, a dor de matar, o medo de ser morto, a culpa por ter sobrevivido, a culpa por ter matado, a dor da parda dos amigos, a culpa por não ter podido salvá-los, a culpa por não ter morrido com eles e impossibilidade de contar a alguém o que foi viver a guerra. Mesmo quando Frank conhece Lily, com quem tudo parecia ficar melhor, o tormento da guerra nunca passa, sempre volta, atenua e acentua esporadicamente, mas nunca se ressignifica. 

Frank recebe uma carta dizendo que Ci precisava dele, que ela estava morrendo. É nesse ponto que o livro começa: uma viagem, o meio do caminho até Atlanta para resgatar Ci e depois até Lotus, casa, lar, "Home" (título em inglês). Assim como Ulysses (Odisséia), Frank tem que voltar para casa depois da guerra. Mas muito diferente de Ulysses, Frank não quer voltar para casa, Frank não carrega o heroismo da guerra, mas todo seu horror. Não há Penélopes na Geórgia. As histórias de Frank e Ci nada têm das aventuras e conquistas de Ulysses. Frank leva o peso da guerra. Ci leva o peso das injustiças sociais, raciais e de gênero. Ulysses significa astúcia. Frank e Ci têm ironicamente o sobrenome Money. A história de Ulysses será sempre contada. Pode-se também contar muitas coisas sobre Estados Unidos nos anos 50, mas Frank e Ci são aqueles que normalmente não entram na história e pagam o preço da História. Como a narradora lembra, aquilo que as pessoas ricas chamaram de Depressão, as pessoas pobres chamavam de vida. 

Essa narradora é quem nos permite transitar pelo passado enquanto acompanhamos o caminho de regresso de Frank, assim como nos permite, ao mesmo tempo, ver Ci, Lily e Lenore. Contudo, cada capítulo é precedido por um capítulo menor em que aparece a voz dos personagens também. É nesse emaranhado de vozes e de tempos que podemos entender a necessidade de regressar a Geórgia e de ressignificá-la. O voltar para casa nos Estados Unidos dos anos 50, em um dos estados mais marcados pela escravidão, de um homem negro que carrega consigo a violência, a pobreza e a guerra, de uma mulher negra que leva no corpo feridas do racismo e do machismo, de um homem que perdeu suas possibilidades de experiências e que está sempre isolado em suas culpas e de uma mulher que teve o corpo mutilado, não na guerra da Coréia, mas em outras guerras menores que ocorrem na "mecânica mínima da vida", esse voltar para casa não é como o de Ulysses, não há aqui o lar afetivo, confortável e acolhedor do senso-comum. Por isso a ideia de lar precisa ser ressignificada, precisa ponderar sobre a violência que também existe nesse lar, para que Frank e Ci possam construir um novo significado, uma nova razão para estarem vivos, algo que a família, Lotus, o estado da Geórgia ou os Estados Unidos nunca lhes deu

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