13.10.16

O dia que um músico ganhou o Nobel de Literatura

Então chegou o dia em que um músico foi laureado com o Nobel de Literatura. 2016 tem sido um ano interessante, inclusive por Bob Dylan agora ser a única pessoa que ganhou o Oscar, o Grammy, o Globo de Ouro e o Nobel. E ninguém pareceu achar estranho ele ganhar até mesmo uma citação no Pulitzer de 2008 ("por seu profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcado por composições líricas de poder poético extraordinário").


Para início de conversa, desenhemos o óbvio: Bob Dylan é um grande artista, ninguém parece estar negando isso. Mas parece que muitos estão negando a possibilidade de música ser, sim, literatura. E esta não seria uma possibilidade bem plausível? Afinal, Odisseia e Ilíada não foram compostos para serem cantados?

Sim, a notícia é polêmica, por conta das questões que ela suscita. Minha cabeça ainda está atordoada com a quantidade de questionamentos que vieram à tona hoje, e que já existiam, porém separadamente e sem um meio tão caótico e tão repentino. Pois esta quinta-feira veio para colocar no centro do palco o papel da literatura e o jogo de piadas "o que é o que é..."

O que é o que é, caro leitor...
A música?
A poesia?
A literatura?
... Arte?
Distintas?
Congruentes?
Unidas?

Pois isso tudo só deixa claro um dos principais motivos da literatura ser tão deixada em segundo plano, tão menosprezada pela sociedade regida pelos lucros das exatas, tão vista como simplesmente um hobby e um passatempo: a humanidades não tem uma resposta certa, bem como toda essa questão de merecimento ou não do prêmio Nobel de Literatura por um artista que é reconhecido como músico, e também como escritor. 

Quando alguém fala de Dylan, fala de um músico. Mas também podemos, ocasionalmente, ouvir alguém incluindo a informação de que "ah, mas ele também é pintor, ator e escritor". A Wikipedia nunca deve ser fonte de confiabilidade, mas aqui ela será útil pelo fato de ser composta pelo imaginário popular, até:

Bob Dylan (nome artístico de Robert Allen Zimmerman; Duluth, 24 de maio de 1941) é um compositor, cantor, pintor, ator e escritor norte-americano. (Fonte)

O que quero destacar é: compositor e escritor não fazem a mesma coisa, mesmo que um tenha a finalidade de musicar o seu texto? Posso estar no meio do muro por me considerar de humanas no meio de um furacão de humanas, mas pelo menos tenho resposta para essa pergunta. E ela me parece evidente.

Uma outra ressalva que tenho que fazer é quanto à importância do prêmio. Se por um lado um músico pode ser considerado escritor enquanto compositor (e, realmente, Dylan é compositor e escritor, apesar do destaque - até mesmo da própria comissão do Nobel - ir para suas composições, ditas - e realmente sendo - poéticas), o prêmio Nobel de Literatura é o mais importante prêmio da área, e está envolto em mudança, status e poder. Um escritor premiado, principalmente com um Nobel, com certeza se tornará mais conhecido, mais lido e ganhará uma circulação incomum (para não mencionar o poder financeiro). O peso disso é grande porque a literatura não é a área com maior prestígio; o mercado editorial vive capengando por um motivo, e a dica está no cerce deste furdúncio também. Como podem ver, há muito a se discutir antes de apedrejar, seja aqueles que estão a favor da decisão ou não. Resta sabermos se será a Companhia das Letras ou a Cosac Naify que irá publicá-lo a partir de amanhã.

É um prêmio importante, mas também já cogitou laurear Donald Trump e até Adolf Hitler, neste último caso mudando de ideia por motivos também óbvios. É a velha questão de quem indica, de quem discute, de quem bate o martelo. Quem? Países nórdicos. Uma Academia formada por suecos. Não é surpreendente o fato do poder de decisão e de fala serem atribuídos àqueles que não são os marginalizados.

Sim, tem muita coisa óbvia neste angu, inclusive o fato, querido amigo que discordará ou não, de que a literatura não é apenas um bando de pessoas sem importância que entre uma conta e outra, entre um ganha-pão ou outro, sentam para escrever um punhado de linhas - ou versos.

Este tipo de debate acerca das humanidades sempre é bem-vindo, e esta pode ser, a princípio, a sua melhor consequência para nós. Mas vamos discutir, ok?

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo