29.8.16

Neblina, Adalgisa Nery


Neblina, escrito por Adalgisa Nery

Editora: Record
Páginas: 208
ISBN: 9788503012676
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
O segundo romance de Adalgisa Nery, publicado pela primeira vez em 1972, tem como protagonista uma mulher que sofre uma complicação cirúrgica e fica acamada e emudecida. Fragilizada por essas dificuldades, essa personagem se mostra poética e incisiva ao mostrar o profundo desprezo pela própria família, que tenta se aproveitar de sua condição. Aqui, vemos o talento de Adalgisa para narrativas mais longas aflorar, em um texto verdadeiro, cuidadoso e original.
A narradora do livro, após sofrer uma complicação cirúrgica, tem sua vida comum interrompida. Impossibilitada de se locomover e falar, ela vê sua família - mãe, pai e irmã, cobertos por uma neblina, somente o marido aparece por inteiro para a narradora - tentando se desvencilhar de sua incômoda presença.
No início de sua doença sua mãe ainda se preocupa em tentar conversar, reanimá-la, mas com o passar do tempo o desejo de tentar manter uma rotina normal."Ela", como é identificada no livro, torna-se um peso morto para os familiares, que passam a tratá-la como um objeto incômodo; nem mesmo a chamam mais pelo nome.

A doente narra, da perspectiva da poltrona onde repousa em seu quarto, a mesquinhez cada vez mais intensa de sua família.
Após anos acamada e muda, sem o mínimo sinal de melhora e sem poder contar com a sua força de trabalho, a família se vê em dificuldades financeiras e decidem tomar uma atitude definitiva em relação à doente.

A primeira proposta vem do seu marido, que considera a situação insustentável, e acredita que o melhor seja enviá-la para um hospício público. A sugestão foi discutida e aceita pela mãe, que só pensa nas contas, pela irmã, que não quer que os vizinhos descubram que mantem uma louca em casa e o marido, que propôs, pretende ficar solteiro, o pai, porém, é um homem bom, apesar da sua resignação, não aceita o acordo. A família entra num consenso e "Ela" passa a habitar um quartinho dos fundos inutilizado para que o quarto que agora habita seja alugado para complementar a renda da família.

Um casal passa, então, a habitar o antigo quarto da doente, que é escondida de ambos os inquilinos a todo custo.
Por um descuido da mãe a inquilina acaba descobrindo que existe uma pessoa acamada morando no quartinho dos fundos e passa a fazer visitas diárias à doente, que tem sua vida transformada pelo casal.

A inquilina começa, aos poucos, visitar o quarto da enferma e os minutos dos primeiros dias transformam-se em longas horas de visitas, mesmo que a doente nunca responda à conversa da visitante. O inquilino passa também a fazer parte das visitas com a esposa e, ambos muito bondosos, trazem uma nova luz à vida da narradora. As conversas são sempre muito poéticas, carregadas de lirismo sobre a vida, o amor, a morte.

"O amor é cansaço, é insegurança, é desconfiança e, principalmente, uma análise secreta e permanente entre duas pessoas que se amam. Quanto mais se ama, maior é a separação entre duas criaturas por força dessa análise que um faz contra o outro. Para manter o amor, com esse nome, é necessário aplicarmos o lirismo como uma espécie de defesa que conduz os nossos sentimentos às bordas da alma, onde há conjugação do universo com a ação do homem. Fora disso resta apenas o desejo passageiro que as pessoas confundem com o amor."

Com o passar do tempo "ela" começa a falar. Frases longas, devaneios poéticos, para depois ficar muda novamente. Os inquilinos entendem a postura da doente e passam a trazer amigos para as discussões: médicos, jornalistas, advogados, escritores. Todas essas pessoas passam a frequentar o pequeno quarto da acamada num bairro suburbano.

Tentando tirar vantagem dos visitantes ilustres, a irmã acredita que os vizinhos ficarão com inveja de pessoas diplomadas frequentarem sua casa e acredita ganhar prestigio com isso. O marido, para causar ainda mais inveja na vizinhança, compra um carro para que todos possam ver como a vida da família melhorou.

E assim segue a narrativa dela, contrapondo reflexões profundas acerca da vida, da morte, de Deus e, por outro lado, cercada pela mesquinhez de sua família.

"Há muita beleza no sofrimento, e já o fato de reconhecermos o sofrimento, a desfiguração dos sentimentos humanos é um aspecto do belo no mal que a vida mostra em seus pontos extremos. Não será belo compadecer-nos da alma de um criminoso? Não será belo imaginar uma mulher trazer em seu ventre um filho, desejando para esse filho todas as melhores coisas da existência humana e depois, mais tarde, após inúmeros sacrifícios, dores e trabalhos cansativos, vê-lo um homem dirigido pelo mal sem mesmo saber as razões que o levaram a atos condenáveis? O sofrimento estremece a alma com maior violência que a felicidade."

Toda a narrativa do livro é imersa nessa atmosfera de quase realidade da acamada, que acredita não fazer mais parte dessa vida, nessa neblina que cobre sua lucidez. O livro é muito poético, os devaneios da narradora são repletos de frases bonitas, profundas embora grande parte do que ela diz não seja palpável. Enfim é um livro muito bonito, mas ao mesmo tempo é bastante angustiante estar vendo esse mundo tão difícil e opressor sob o ponto de vista de uma pessoa que já não quer fazer parte dele.

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