16.8.16

A história do novo sobrenome, de Elena Ferrante

A história do novo sobrenome, escrito por Elena Ferrante

Editora: Biblioteca Azul/Editora Globo
Páginas: 470
ISBN: 8525061220
Tradução: Mauricio Santana Dias
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Neste segundo romance da chamada série napolitana, veremos suas duas protagonistas, Lila e Elena, crescerem, e com elas todas as dores e as delícias de sua juventude em meio a um mundo repleto de caminhos que se abrem enquanto portas se fecham - se a sabedoria, o crescimento e o amor são possibilidades, eles ocorrem em um cenário limitado por uma disposição social por vezes cruel. Neste maravilhoso romance de formação de duas meninas, certamente o leitor vai se surpreender ainda mais com as possibilidades do universo de Elena Ferrante - esse mundo árido, tenso, delicado, profundo e, sobretudo, humano.


A história do novo sobrenome é a continuação de A amiga genial e ambos romances pertencem a uma série de quatro livros denominada como série napolitana. A amiga genial introduz a história de Elena e Lina, duas meninas de uma bairro periférico da cidade de Nápoles que se conhecem na escola fundamental e acabam cultivando uma relação duradoura que oscila constantemente entre amizade, amor, conflitos e disputas. O primeiro livro se inicia com Elena, a narradora, recebendo do filho de Lina a notícia que a mãe desapareceu. Este fato que se passa já na velhice das duas protagonistas desencadeia a rememoração de Elena de todo o percurso de tal amizade. A amiga genial se concentra na infância das meninas, como se aproximaram, como construíram uma amizade que velava uma constante competição na escola que conforme elas crescem se estende para outras esferas de convívio e o livro termina quando elas têm 16 anos. Ainda que adolescentes, suas experiências já começam a configurar problemas e vivências de adultos e é nesse ponto que começa A história do novo sobrenome

Assim como o primeiro livro, este segundo romance apresenta antes da história uma listagem dos inúmeros personagens, famílias e profissões que adentram o enredo. Já no interior do texto, mas ainda nas primeiras páginas, há uma breve recuperação dos principais eventos passados em A amiga genial, pois é realmente imprescindível ter em conta toda a história do primeiro livro para compreender o segundo.

Dom Achille, aquele que as crianças chamavam de ogro das fábulas, o homem que era o centro da violência e poder no bairro, pois na verdade tratava-se um agiota envolvido no mercado negro, é assassinado ainda no primeiro livro e seu lugar é ocupado por seu filho Stefano. Este parece totalmente diferente do pai, não mal-trata nem ameaça os demais moradores, se envolve positivamente com todos e parece enriquecer devido a sua boa gestão na charcuteria da família. Entretanto, a lógica do bairro é a violência e o poder só pode ser mantido através da reprodução desta. No segundo livro, a imagem positiva de Stefano é o tempo todo tensionada com a lembrança do violento pai. Dom Achille ressurge através de Stefano e a violência encontra novas maneiras de se reproduzir. Esta tensão entre os jovens e os pais, entre a lógica cristalizada do bairro e a ruptura de tais violências é o conflito de diversos personagens, inclusive das protagonistas. Lina, que sempre parecera ambiciosa e especial demais para aquela mesma vida, parece aceitá-la. Entretanto, assim como acontece com Stefano, A história do novo sobrenome não completa as expectativas, no bom Stefano parece ressurgir o mau Dom Achille, mas esses dois lados são o tempo todo tensionados. A Lina que parece resignada ao papel de subserviência das mulheres daquele ambiente tradicional entra em tensão com a lembrança da menina brilhante, terrível e inflexível de A amiga genial. Rino, o irmão de Lina, que desafiava constantemente o pai Fernando, se parece mais e mais com ele. Pasquale, o jovem comunista que criticava e questionava todo aquele ambiente, ainda que no lado político oposto é tão violento quanto os donos do bairro. Ada, a menina que lutava contra a loucura da mãe Melina, causada por um infeliz envolvimento amoroso, se coloca na mesma posição de subserviência diante de um amor falso e impossível. Nino Sarratore, a paixão de infância de Elena, o menino que enfrentava o pai, o menino cujo projeto de vida era ser o oposto do sempre mal intencionado Donato Sarratore,  mostra que não é tão superior ao pai quanto se esforça por parecer. Já Elena, a narradora, enquanto o lugar onde nasceu aponta para quem ela deve ser, suas escolhas apontam para o caminho oposto e ela sempre parece ir para esta segunda direção, sempre se afastando da imagem dos pais. Logo, sua tensão se constrói entre negar e até esnobar a família e os amigos, perder seu lugar de pertencimento, e mostrar que pode existir caminhos melhores e menos violentos, mas que ela nunca consegue pertencer verdadeiramente porque sua condição de mulher e sua origem humilde a impedem. 

O conflito central do livro se passa na praia. Em A amiga genial a paisagem da praia já havia sido importante, pois era onde se dava o momento de maior felicidade da narradora, assim como o espaço de descoberta do amor e do desejo sexual. Em A história do novo sobrenome, a praia ocupa inicialmente o mesmo centro de felicidade e de prazer da juventude, mas é transformado depois num espaço de repressão e sofrimento, especialmente causados pelo amor e pelo desejo sexual. O prazer e a dor se misturam, assim como a beleza da paisagem do mar mediterrâneo e a violência cruel do poder dos homens sobre as mulheres, dos ricos sobre os pobres e também dos afetos. Se em A amiga genial Lina e Elena presenciavam e já sofriam violências físicas e simbólicas por serem mulheres, ainda que passasse pelo filtro da infância, em A história do novo sobrenome isso é constante e central. E o livro mostra bem como esse tipo de violência não é somente uma agressão física no espaço doméstico, mas também a impossibilidade de ter as mesmas conquistas, os mesmo reconhecimentos e as mesmas possibilidades de escolhas que um homem. E nos personagens masculinos, este é um dos parâmetros principais para indicar o rompimento ou a perpetuação com a lógica dos pais, com a lógica do bairro, da violência e da tradição.

Além do título ser ressignificado e ampliado em sentido nas últimas páginas do livro, exatamente como no primeiro volume da série, A história do novo sobrenome também continua a lógica de A amiga genial no fato que as últimas linhas elevam a história ao grau máximo de tensão que não é resolvido e estende expectativas para o próximo volume. Assim, a narrativa de Elena Ferrante é viva, fluída, envolvente e sobretudo articulada em tensões e grande temas que deixam o leitor preso nas experiências de Elena e Lina. 

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