31.8.16

A estepe, de Anton Tchékhov

A estepe, escrito por Anton Tchékhov

Editora: Penguin Companhia
Páginas: 144
ISBN: 8582850182
Tradução: Rubens Figueiredo
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Com A estepe, pela primeira vez Anton Tchékhov, aos 28 anos e já com vasta quilometragem como colaborador de jornais e revistas literárias, tentou produzir uma narrativa mais extensa. Tarefa desafiadora mas, como se lê hoje, bem-sucedida. O subtítulo parece sintetizar a situação central- a viagem de um menino que parte para estudar em outra cidade e, para isso, percorre alguns dias pela vasta estepe russa. Mas também apresenta o caráter múltiplo do texto- um relato da experiência, uma narrativa ficcional, um estudo de tipos humanos, a pintura da natureza, além de retratos das atividades econômicas, das relações sociais e das mudanças de comportamento em curso.

A estepe, como seu subtítulo já explica, é a História de uma viagem. O enredo se passa nessa paisagem russa da estepe durante o verão: um comerciante que só consegue pensar em seus produtos e em dinheiro, Ivan Ivánitch Kuzmitchóv, na companhia de uma padre, Khristofor Siríiski, e de um ajudante muito jovem que tem obrigações de um adulto e disposições de uma criança, Deniska, leva seu sobrinho, Iegóruchka para uma outra cidade para que o menino possa estudar. A mãe de Iegóruchka amava pessoas cultas e alta sociedade e por isso escolhe se distanciar do filho e pede que o irmão o leve a casa de uma amiga em outra cidade onde ele poderia ter tal oportunidade. Como é bastante frequente nos contos do autor russo, a criança que é o protagonista da história. Iegóruchka está bem infeliz de deixar para trás a mãe, os pães de papoula, a avó que dorme no cemitério debaixo das cerejeiras. Mas sua condição de criança o impede de ter uma escolha própria e usando uma camisa vermelha que contrata fortemente com o marrom da estepe, Iegóruchka é levado para dentro dessa paisagem. 

Durante a viagem, o tio está sempre em busca de Varlámov, um homem que todos parecem conhecer, temer e respeitar, exceto Solomon, o menino judeu que diz que cumpre sua função de lacaio e que a função de cada um é ser lacaio daquele que tem mais dinheiro, por isso todos ali, os viajantes da estepe, seriam lacaios de Varlámov. Depois de conhecer a família de judeus a qual Solomon pertence, Iegóruchka conhece um comboio de viajantes da estepe, homens, como ele percebem e o narrador comenta que isso fazia deles típicos russos, que amam o passado e amavam recordar, mas odeio o presente e odeiam o viver. Entre eles está Dímov, de quem Iegóruchka sente muito ódio e também tem a experiência da sua impotência de criança diante da maldade e das injustiças. 

A paisagem, a estepe, é quase um personagem. Ela tem um comportamento próprio, altera seus barulhos, seus silêncios, seus animais, suas cores e isso altera o percurso dos viajantes. As passagens do livro de descrição da estepe são muito bonitas de tom bastante poético:

(...) pouco a pouco, vêm à memória as lendas da estepe, os relatos dos viajantes, as histórias contadas por uma babá nascida na estepe, e tudo aquilo nós mesmo conseguimos ver e apreender na alma. E então, nos chiados dos insetos, nas figuras suspeitas e nos kurgam, no c"u profundo, na luz da lua, no voo dos pássaros noturnos, em tudo o que vemos e ouvimos, começa a aparecer o triunfo da beleza, a juventude, o florescimento das forças e a apaixonada vontade de viver (...) (p.60). 

Quando contemplamos o céu profundo por muito tempo sem desviar os olhos, não se sabe por que, os pensamentos e a alma se fundem na consciência da solidão. Começamos a nos sentir irremediavelmente sós e tudo que antes achávamos próximo e familiar se torna infinitamente distante e sem valor. As estrelas, que miram do céu há milhares de anos, o próprio céu insondável e a escuridão se mostram indiferentes à vida breve dos homens e oprimem nossa alma com seu silêncio, quando acontece de ficarmos cara a cara com eles e tentamos alcançar seu sentido; então, nos vem ao pensamento a solidão que aguarda casa um de nós na sepultura e a essência da vida parece misteriosa, assustadora... (p.86)

No meio da viagem, Iegóruchka enfrenta uma tempestade que afeta sua disposição física, mas também seus sentimentos com relação àquela paisagem, àquelas pessoas e com a viagem em si. Mas a viagem precisa prosseguir e ela continua sendo, no silêncio da estepe, uma reflexão profunda e também silenciosa das relações sociais e da condição humana. O breve romance de Tchékhov não tem um final chocante como boa parte dos seus contos mais famosos, contudo possuí o mesmo grau profundo de reflexão e uma beleza muito grande no nível da escrita. 

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