2.8.16

A amiga genial, de Elena Ferrante

A amiga genial,  escrito por Elena Ferrante


Editora: Biblioteca Azul/Editora Globo
Páginas: 331
ISBN: 9788525060600
Tradução: Mauricio Santana Dias

'A amiga genial' é narrado pela personagem Elena Greco e cobre da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela. As duas se unem, competem, brigam, fazem planos. Em um bairro marcado pela violência, pelos gritos e agressões dos adultos e pelo o medo constante, as meninas sonham com um futuro melhor. Ir embora, conhecer o mundo, escrever livros. Os estudos parecem a melhor opção para que as duas não terminem como suas mães entristecidas pela pobreza, cansadas, cheias de filhos. No entanto, quando as duas terminam a quinta série, a família Greco decide apoiar os estudos de Elena, enquanto os Cerrulo não investem na educação de Raffaella. As duas seguem caminhos diferentes. Elena se dedica à escola e Raffaella se une ao irmão Rino para convencer seu pai a modernizar sua loja. Com a chegada da adolescência, as duas começam a chamar a atenção dos rapazes da vizinhança. Outras preocupações tornam-se parte da rotina; ser reconhecida pela beleza, conseguir um namorado, manter-se virgem até encontrar um bom candidato a marido.

A amiga genial é intrigante desde o nome da autora impresso na capa: Elena Ferrante é o pseudônimo de alguém que permanece oculto há mais de vinte anos. Ela só concede entrevistas por e-mail, só seus editores sabem quem ela é, não recebe prêmios e diz que não pode fazer mais nada por seus livros além de escrevê-los. Seus livros foram elogiados na Itália e em outros países do mundo e, mesmo assim, a autora mantém sua verdadeira identidade escondida. Diante de um período literário em que parece dominar as auto-ficções, ou seja, uma mistura estanha de auto-biografia e ficção em que o personagem parece sempre querer lembrar o autor, até seus nomes são iguais e suas histórias de vida se assemelham, mas os escritores afirmam categoricamente que seus personagens são completamente inventados; diante do hábito que os amantes da literatura tem de procurar os escritores dentro do livros; diante da frequência de perguntas como "como suas experiências próprias se relacionam com a história?"; diante de tudo isso, Elena Ferrante vai na via oposta e põe tais hábitos do avesso: mesmo que haja um esforço para encontrar semelhanças entre a autora de A amiga genial e sua narradora e protagonista, pois ambas se chamam Elena, ambas nasceram em Nápoles, ambas têm o dom da escrita, Elena Ferrante é um pseudônimo, um nome inventado, e em vez de sua personagem se assemelhar com sua autora real, sua autora se torna ficcional como sua personagem. Se trocadilhos são permitidos, a genialidade de A amiga genial começa aí.

Trata-se de uma série de quatro livros conhecida como Tetralogia Napolitana em que A amiga genial é o primeiro e A história do novo sobrenome o segundo volume, ambos publicados no Brasil pela Biblioteca Azul/Editora Globo. Depois de superar o estranhamento por de trás da identidade da autora indicada na capa, o segundo estranhamento também vem antes do texto, pois há uma lista de personagens e pequenos resumos sobre eles como em peças de teatro. O nome do personagem e indicações como, o sapateiro, o confeiteiro, o mecânico, são frequentes em teatro mas não em romances. Entretanto, tal ficha pode ajudar no decorrer da leitura, pois a história apresenta um número bastante elevado de personagens, o que pode causar um problema para memorizar o nome e a constituição de cada família. A história se passa em Nápoles, mas não em toda Nápoles, mas num bairro. O bairro tem sua lógica própria, suas regras próprias e todos devem obedecê-las se querem pertencer ou ao menos sobreviver a esse lugar. Um episódio bizarro com Lila desperta na narradora Elena toda sua infância e adolescência vivida nesse bairro ao lado dessa aamiga. Lila ou Lina ou Raffaella Cerullo, filha do sapateiro, é uma menina terrivelmente inteligente, bastante violenta e maldosa quando quer e naturalmente genial. Lenu ou Lenuccia ou Elena Grego, a narradora, a filha do contínuo da prefeitura, é uma menina esperta, competitiva, influenciável e estudiosa que torna-se a melhor amiga de Lila, ainda que sempre descreva esta como cruel. Em A amiga genial o relato começa na infância e continua pela adolescência até os 16 anos das meninas que vão crescendo numa atmosfera de violência e reprodução da violência, em o dono do bairro, homem maldoso da infância, o ogro das fábulas vai se definindo como agiota, mafioso e contrabandista conforme as meninas tomam conhecimento do mundo. As famílias, sempre definidas pelas profissões, vivem numa relação de comunidade, pobreza compartilhada, competição, fofoca, escândalos. As meninas frequentam a mesma escola fundamental, onde se tornam amigas, mas sempre competindo entre elas. Contudo, a escola se torna um problema permanente, pois a escola coloca em dúvida quem é a amiga genial.


O livro funciona em torno do acontecimento. Sem fluxo de consciência, reflexões filosóficas ou digressões. Tudo é acontecimento, o que o torna muito envolvente. Mas a genialidade de A amiga genial, novamente se trocadilhos não são condenados, está que a violência, as tensões não estão nas coisas grandes, mas no menor, no cotidiano, no naturalizado. Tudo no livro é da ordem do menor, tudo se passa no bairrinho, com pessoas medíocres, entre duas meninas adolescentes. Entretanto é nessa vida menor, nos sapatos, no livro de poesia, no dono da charcuteria, no filho do mecânico, no andar manco que se configuram a violências, os esquemas, a ganância, as tensões sociais, a opressão e todos os dilemas da existência social e individual como o impasse entre negar o bairro e pertencer ao bairro, negar os pais ou ser quem os pais são. E quando tudo parece razoável, na última linha Elena Ferrante, ou quem quer que seja, arranca um grito de desespero do leitor, pois o mínimo detalhe eleva a tensão ao máximo e tudo se torna muito ruim, não em um piscar de olhos, mas de uma palavra para outra. A única solução para aliviar a tensão e o espanto com a história e a euforia diante da qualidade do livro é agradecer que o segundo volume já está publicado em português e começar a lê-lo.

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