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Ensaio sobre a cegueira Saramago

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Uma duas Eliane Brum

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ao farol virgínia woolf

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mulheres de cinzas mia couto

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Extraordinário Luandino Vieira

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Luuanda Luandino Vieira
31.8.16

A estepe, escrito por Anton Tchékhov

Editora: Penguin Companhia
Páginas: 144
ISBN: 8582850182
Tradução: Rubens Figueiredo
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Com A estepe, pela primeira vez Anton Tchékhov, aos 28 anos e já com vasta quilometragem como colaborador de jornais e revistas literárias, tentou produzir uma narrativa mais extensa. Tarefa desafiadora mas, como se lê hoje, bem-sucedida. O subtítulo parece sintetizar a situação central- a viagem de um menino que parte para estudar em outra cidade e, para isso, percorre alguns dias pela vasta estepe russa. Mas também apresenta o caráter múltiplo do texto- um relato da experiência, uma narrativa ficcional, um estudo de tipos humanos, a pintura da natureza, além de retratos das atividades econômicas, das relações sociais e das mudanças de comportamento em curso.

A estepe, como seu subtítulo já explica, é a História de uma viagem. O enredo se passa nessa paisagem russa da estepe durante o verão: um comerciante que só consegue pensar em seus produtos e em dinheiro, Ivan Ivánitch Kuzmitchóv, na companhia de uma padre, Khristofor Siríiski, e de um ajudante muito jovem que tem obrigações de um adulto e disposições de uma criança, Deniska, leva seu sobrinho, Iegóruchka para uma outra cidade para que o menino possa estudar. A mãe de Iegóruchka amava pessoas cultas e alta sociedade e por isso escolhe se distanciar do filho e pede que o irmão o leve a casa de uma amiga em outra cidade onde ele poderia ter tal oportunidade. Como é bastante frequente nos contos do autor russo, a criança que é o protagonista da história. Iegóruchka está bem infeliz de deixar para trás a mãe, os pães de papoula, a avó que dorme no cemitério debaixo das cerejeiras. Mas sua condição de criança o impede de ter uma escolha própria e usando uma camisa vermelha que contrata fortemente com o marrom da estepe, Iegóruchka é levado para dentro dessa paisagem. 

Durante a viagem, o tio está sempre em busca de Varlámov, um homem que todos parecem conhecer, temer e respeitar, exceto Solomon, o menino judeu que diz que cumpre sua função de lacaio e que a função de cada um é ser lacaio daquele que tem mais dinheiro, por isso todos ali, os viajantes da estepe, seriam lacaios de Varlámov. Depois de conhecer a família de judeus a qual Solomon pertence, Iegóruchka conhece um comboio de viajantes da estepe, homens, como ele percebem e o narrador comenta que isso fazia deles típicos russos, que amam o passado e amavam recordar, mas odeio o presente e odeiam o viver. Entre eles está Dímov, de quem Iegóruchka sente muito ódio e também tem a experiência da sua impotência de criança diante da maldade e das injustiças. 

A paisagem, a estepe, é quase um personagem. Ela tem um comportamento próprio, altera seus barulhos, seus silêncios, seus animais, suas cores e isso altera o percurso dos viajantes. As passagens do livro de descrição da estepe são muito bonitas de tom bastante poético:

(...) pouco a pouco, vêm à memória as lendas da estepe, os relatos dos viajantes, as histórias contadas por uma babá nascida na estepe, e tudo aquilo nós mesmo conseguimos ver e apreender na alma. E então, nos chiados dos insetos, nas figuras suspeitas e nos kurgam, no c"u profundo, na luz da lua, no voo dos pássaros noturnos, em tudo o que vemos e ouvimos, começa a aparecer o triunfo da beleza, a juventude, o florescimento das forças e a apaixonada vontade de viver (...) (p.60). 

Quando contemplamos o céu profundo por muito tempo sem desviar os olhos, não se sabe por que, os pensamentos e a alma se fundem na consciência da solidão. Começamos a nos sentir irremediavelmente sós e tudo que antes achávamos próximo e familiar se torna infinitamente distante e sem valor. As estrelas, que miram do céu há milhares de anos, o próprio céu insondável e a escuridão se mostram indiferentes à vida breve dos homens e oprimem nossa alma com seu silêncio, quando acontece de ficarmos cara a cara com eles e tentamos alcançar seu sentido; então, nos vem ao pensamento a solidão que aguarda casa um de nós na sepultura e a essência da vida parece misteriosa, assustadora... (p.86)

No meio da viagem, Iegóruchka enfrenta uma tempestade que afeta sua disposição física, mas também seus sentimentos com relação àquela paisagem, àquelas pessoas e com a viagem em si. Mas a viagem precisa prosseguir e ela continua sendo, no silêncio da estepe, uma reflexão profunda e também silenciosa das relações sociais e da condição humana. O breve romance de Tchékhov não tem um final chocante como boa parte dos seus contos mais famosos, contudo possuí o mesmo grau profundo de reflexão e uma beleza muito grande no nível da escrita. 

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30.8.16

Ardósia, de Nicolás Irurzum
Editora: Multifoco
Páginas: 250
ISBN: 9788579613557
Onde encontrar o livro: Amazon - Biblioteca do Nico
Um de seus habitantes desprezara a bênção de Santa Edwiges. Viroses, dores de corno, joanetes, todo tipo de tragédia cairia sobre as cabeças nativas. A maioria ignora que tais cartas contêm erros grosseiros de ortografia. Gramática inexistente. A população se divide entre brincadeira de mau gosto ou maldição. Na dúvida, o Prefeito marcou a assembleia. Pulso nem sempre agrada o eleitorado. O Delegado, pra lá de exagerado, procura evitar atentados terroristas.

Ambientada em Ardósia, a obra traz à tona diversos dramas da vida interiorana paulista, com personagens interessantes e que possuem, cada qual, uma característica única. Há alguns núcleos que representam a população de uma cidadezinha de poucos habitantes; eles se entrelaçam justamente por viverem num ambiente que proporciona o encontro. Temos o casal Eva e Jesuíno, donos de um bar no centro da cidade e pais de Idônea e Ilícito, nomes intrigantes que, na realidade, poderiam facilmente ser trocados, já que a menina é cheia de ideias mirabolantes e maldosas, e o garoto um completo ingênuo. Este é o núcleo que mais me arrancou risadas e sorrisos, mas também temos um grupo de amigos Gil, Roni e Léo, todos diferentes um do outro, mas sempre juntos e fiéis.


Este é um livro que se auto classifica como uma coletânea de contos, mas eu descobri muito mais: há uma certa linearidade temporal e uma sequência no enredo que me fizeram pensar em crônicas, não exatamente em contos. Pois as histórias não se acabam naqueles curtos capítulos; elas continuam. E muito do clima do interior conseguiu ser transmitido através deste formato.

Há um meio certo de começar a crônica por trivialidade. É dizer: Que calor! que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outra sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e la glace est rompue; está começada a crônica. - Machado de Assis

E, como se pode ler através deste fragmento de um texto do genial Machado de Assis, pode existir muita trivialidade nas crônicas. Em Ardósia, muito do que acontece é comum e típico de cidades pequenas. Nicolás Irurzum conseguiu representar muito bem o seu objeto de escrita. Pois Ardósia torna-se não uma mera cidade, mas a personagem principal de sua obra. E, o mais importante (ou interessante?) a se perguntar é: você conhece Ardósia?

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29.8.16


Neblina, escrito por Adalgisa Nery

Editora: Record
Páginas: 208
ISBN: 9788503012676
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
O segundo romance de Adalgisa Nery, publicado pela primeira vez em 1972, tem como protagonista uma mulher que sofre uma complicação cirúrgica e fica acamada e emudecida. Fragilizada por essas dificuldades, essa personagem se mostra poética e incisiva ao mostrar o profundo desprezo pela própria família, que tenta se aproveitar de sua condição. Aqui, vemos o talento de Adalgisa para narrativas mais longas aflorar, em um texto verdadeiro, cuidadoso e original.
A narradora do livro, após sofrer uma complicação cirúrgica, tem sua vida comum interrompida. Impossibilitada de se locomover e falar, ela vê sua família - mãe, pai e irmã, cobertos por uma neblina, somente o marido aparece por inteiro para a narradora - tentando se desvencilhar de sua incômoda presença.
No início de sua doença sua mãe ainda se preocupa em tentar conversar, reanimá-la, mas com o passar do tempo o desejo de tentar manter uma rotina normal."Ela", como é identificada no livro, torna-se um peso morto para os familiares, que passam a tratá-la como um objeto incômodo; nem mesmo a chamam mais pelo nome.

A doente narra, da perspectiva da poltrona onde repousa em seu quarto, a mesquinhez cada vez mais intensa de sua família.
Após anos acamada e muda, sem o mínimo sinal de melhora e sem poder contar com a sua força de trabalho, a família se vê em dificuldades financeiras e decidem tomar uma atitude definitiva em relação à doente.

A primeira proposta vem do seu marido, que considera a situação insustentável, e acredita que o melhor seja enviá-la para um hospício público. A sugestão foi discutida e aceita pela mãe, que só pensa nas contas, pela irmã, que não quer que os vizinhos descubram que mantem uma louca em casa e o marido, que propôs, pretende ficar solteiro, o pai, porém, é um homem bom, apesar da sua resignação, não aceita o acordo. A família entra num consenso e "Ela" passa a habitar um quartinho dos fundos inutilizado para que o quarto que agora habita seja alugado para complementar a renda da família.

Um casal passa, então, a habitar o antigo quarto da doente, que é escondida de ambos os inquilinos a todo custo.
Por um descuido da mãe a inquilina acaba descobrindo que existe uma pessoa acamada morando no quartinho dos fundos e passa a fazer visitas diárias à doente, que tem sua vida transformada pelo casal.

A inquilina começa, aos poucos, visitar o quarto da enferma e os minutos dos primeiros dias transformam-se em longas horas de visitas, mesmo que a doente nunca responda à conversa da visitante. O inquilino passa também a fazer parte das visitas com a esposa e, ambos muito bondosos, trazem uma nova luz à vida da narradora. As conversas são sempre muito poéticas, carregadas de lirismo sobre a vida, o amor, a morte.

"O amor é cansaço, é insegurança, é desconfiança e, principalmente, uma análise secreta e permanente entre duas pessoas que se amam. Quanto mais se ama, maior é a separação entre duas criaturas por força dessa análise que um faz contra o outro. Para manter o amor, com esse nome, é necessário aplicarmos o lirismo como uma espécie de defesa que conduz os nossos sentimentos às bordas da alma, onde há conjugação do universo com a ação do homem. Fora disso resta apenas o desejo passageiro que as pessoas confundem com o amor."

Com o passar do tempo "ela" começa a falar. Frases longas, devaneios poéticos, para depois ficar muda novamente. Os inquilinos entendem a postura da doente e passam a trazer amigos para as discussões: médicos, jornalistas, advogados, escritores. Todas essas pessoas passam a frequentar o pequeno quarto da acamada num bairro suburbano.

Tentando tirar vantagem dos visitantes ilustres, a irmã acredita que os vizinhos ficarão com inveja de pessoas diplomadas frequentarem sua casa e acredita ganhar prestigio com isso. O marido, para causar ainda mais inveja na vizinhança, compra um carro para que todos possam ver como a vida da família melhorou.

E assim segue a narrativa dela, contrapondo reflexões profundas acerca da vida, da morte, de Deus e, por outro lado, cercada pela mesquinhez de sua família.

"Há muita beleza no sofrimento, e já o fato de reconhecermos o sofrimento, a desfiguração dos sentimentos humanos é um aspecto do belo no mal que a vida mostra em seus pontos extremos. Não será belo compadecer-nos da alma de um criminoso? Não será belo imaginar uma mulher trazer em seu ventre um filho, desejando para esse filho todas as melhores coisas da existência humana e depois, mais tarde, após inúmeros sacrifícios, dores e trabalhos cansativos, vê-lo um homem dirigido pelo mal sem mesmo saber as razões que o levaram a atos condenáveis? O sofrimento estremece a alma com maior violência que a felicidade."

Toda a narrativa do livro é imersa nessa atmosfera de quase realidade da acamada, que acredita não fazer mais parte dessa vida, nessa neblina que cobre sua lucidez. O livro é muito poético, os devaneios da narradora são repletos de frases bonitas, profundas embora grande parte do que ela diz não seja palpável. Enfim é um livro muito bonito, mas ao mesmo tempo é bastante angustiante estar vendo esse mundo tão difícil e opressor sob o ponto de vista de uma pessoa que já não quer fazer parte dele.
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21.8.16

Trono de Vidro, escrito por Sarah J. Maas

Editora: Galera Record
Páginas: 392
ISBN: 9788501401380
Tradução: Bruno Galiza / Lia Raposo / Rodrigo Santos e Mariana Kohnert
Nas sombrias e sujas minas de sal de Endovier, uma jovem de 18 anos está cumprindo sua sentença. Celaena é uma assassina, a melhor de Adarlan. Aprisionada e fraca, ela está quase perdendo as esperanças quando recebe uma proposta. Terá de volta sua liberdade se representar o príncipe de Adarlan em uma competição, lutando contra os mais habilidosos assassinos e larápios do reino. Endovier é uma sentença de morte, e cada duelo em Adarlan será para viver ou morrer. Mas se o preço é ser livre, ela está disposta a tudo
Em Trono de Vidro, a personagem principal não é uma princesa ou uma mocinha meio atrapalhada, é uma assassina: Celaena Sardothien. Apesar disso, ela é tão humanizada na história que não tem como não sermos cativados e torcermos por ela.

Na narrativa, o príncipe Dorian vai buscá-la em Endovier, lugar em que ela está presa há um ano trabalhando em uma mina de sal, para que ela participe de uma competição para se tornar a assassina do rei. Celaena odeia o rei, mas como essa é a única chance de ela conseguir sua liberdade, ela topa o desafio.

Ela é levada para o castelo no qual passa por treinamentos e desafios para que se torne a campeã. Além disso, acompanhamos o surgimento de laços afetivos com Chaol, o guarda responsável por ela, que inicialmente não confiava nem um pouco na assassina, e com Dorian, o príncipe.

A fantasia toda é muito bem construída, tanto o cenário quanto as personagens. Ao longo da narrativa, vamos nos aproximando de Celaena e entendendo-a melhor, assim como Dorian e Chaol. Ficamos envolvidos pela competição, pelo triângulo amoroso e por alguns mistérios que rondam o castelo.

Celaena é uma personagem forte. Apesar de passar por situações difíceis, ela deixa a insegurança de lado e usa de suas habilidades (que não são poucas) para atacar e se defender.

O único ponto que me incomodou um pouco foi que, em alguns momentos, achei a escrita um pouco enrolada, discorrendo longamente sobre um assunto que eu já tinha entendido o suficiente.

O final deixa um gosto de quero mais. Fiquei com vontade de continuar acompanhando as personagens no segundo livro da série: Coroa da Meia-noite (e nos próximos também, o quinto livro deve ser lançado nos Estados Unidos ainda este ano).
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16.8.16

A história do novo sobrenome, escrito por Elena Ferrante

Editora: Biblioteca Azul/Editora Globo
Páginas: 470
ISBN: 8525061220
Tradução: Mauricio Santana Dias
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Neste segundo romance da chamada série napolitana, veremos suas duas protagonistas, Lila e Elena, crescerem, e com elas todas as dores e as delícias de sua juventude em meio a um mundo repleto de caminhos que se abrem enquanto portas se fecham - se a sabedoria, o crescimento e o amor são possibilidades, eles ocorrem em um cenário limitado por uma disposição social por vezes cruel. Neste maravilhoso romance de formação de duas meninas, certamente o leitor vai se surpreender ainda mais com as possibilidades do universo de Elena Ferrante - esse mundo árido, tenso, delicado, profundo e, sobretudo, humano.


A história do novo sobrenome é a continuação de A amiga genial e ambos romances pertencem a uma série de quatro livros denominada como série napolitana. A amiga genial introduz a história de Elena e Lina, duas meninas de uma bairro periférico da cidade de Nápoles que se conhecem na escola fundamental e acabam cultivando uma relação duradoura que oscila constantemente entre amizade, amor, conflitos e disputas. O primeiro livro se inicia com Elena, a narradora, recebendo do filho de Lina a notícia que a mãe desapareceu. Este fato que se passa já na velhice das duas protagonistas desencadeia a rememoração de Elena de todo o percurso de tal amizade. A amiga genial se concentra na infância das meninas, como se aproximaram, como construíram uma amizade que velava uma constante competição na escola que conforme elas crescem se estende para outras esferas de convívio e o livro termina quando elas têm 16 anos. Ainda que adolescentes, suas experiências já começam a configurar problemas e vivências de adultos e é nesse ponto que começa A história do novo sobrenome

Assim como o primeiro livro, este segundo romance apresenta antes da história uma listagem dos inúmeros personagens, famílias e profissões que adentram o enredo. Já no interior do texto, mas ainda nas primeiras páginas, há uma breve recuperação dos principais eventos passados em A amiga genial, pois é realmente imprescindível ter em conta toda a história do primeiro livro para compreender o segundo.

Dom Achille, aquele que as crianças chamavam de ogro das fábulas, o homem que era o centro da violência e poder no bairro, pois na verdade tratava-se um agiota envolvido no mercado negro, é assassinado ainda no primeiro livro e seu lugar é ocupado por seu filho Stefano. Este parece totalmente diferente do pai, não mal-trata nem ameaça os demais moradores, se envolve positivamente com todos e parece enriquecer devido a sua boa gestão na charcuteria da família. Entretanto, a lógica do bairro é a violência e o poder só pode ser mantido através da reprodução desta. No segundo livro, a imagem positiva de Stefano é o tempo todo tensionada com a lembrança do violento pai. Dom Achille ressurge através de Stefano e a violência encontra novas maneiras de se reproduzir. Esta tensão entre os jovens e os pais, entre a lógica cristalizada do bairro e a ruptura de tais violências é o conflito de diversos personagens, inclusive das protagonistas. Lina, que sempre parecera ambiciosa e especial demais para aquela mesma vida, parece aceitá-la. Entretanto, assim como acontece com Stefano, A história do novo sobrenome não completa as expectativas, no bom Stefano parece ressurgir o mau Dom Achille, mas esses dois lados são o tempo todo tensionados. A Lina que parece resignada ao papel de subserviência das mulheres daquele ambiente tradicional entra em tensão com a lembrança da menina brilhante, terrível e inflexível de A amiga genial. Rino, o irmão de Lina, que desafiava constantemente o pai Fernando, se parece mais e mais com ele. Pasquale, o jovem comunista que criticava e questionava todo aquele ambiente, ainda que no lado político oposto é tão violento quanto os donos do bairro. Ada, a menina que lutava contra a loucura da mãe Melina, causada por um infeliz envolvimento amoroso, se coloca na mesma posição de subserviência diante de um amor falso e impossível. Nino Sarratore, a paixão de infância de Elena, o menino que enfrentava o pai, o menino cujo projeto de vida era ser o oposto do sempre mal intencionado Donato Sarratore,  mostra que não é tão superior ao pai quanto se esforça por parecer. Já Elena, a narradora, enquanto o lugar onde nasceu aponta para quem ela deve ser, suas escolhas apontam para o caminho oposto e ela sempre parece ir para esta segunda direção, sempre se afastando da imagem dos pais. Logo, sua tensão se constrói entre negar e até esnobar a família e os amigos, perder seu lugar de pertencimento, e mostrar que pode existir caminhos melhores e menos violentos, mas que ela nunca consegue pertencer verdadeiramente porque sua condição de mulher e sua origem humilde a impedem. 

O conflito central do livro se passa na praia. Em A amiga genial a paisagem da praia já havia sido importante, pois era onde se dava o momento de maior felicidade da narradora, assim como o espaço de descoberta do amor e do desejo sexual. Em A história do novo sobrenome, a praia ocupa inicialmente o mesmo centro de felicidade e de prazer da juventude, mas é transformado depois num espaço de repressão e sofrimento, especialmente causados pelo amor e pelo desejo sexual. O prazer e a dor se misturam, assim como a beleza da paisagem do mar mediterrâneo e a violência cruel do poder dos homens sobre as mulheres, dos ricos sobre os pobres e também dos afetos. Se em A amiga genial Lina e Elena presenciavam e já sofriam violências físicas e simbólicas por serem mulheres, ainda que passasse pelo filtro da infância, em A história do novo sobrenome isso é constante e central. E o livro mostra bem como esse tipo de violência não é somente uma agressão física no espaço doméstico, mas também a impossibilidade de ter as mesmas conquistas, os mesmo reconhecimentos e as mesmas possibilidades de escolhas que um homem. E nos personagens masculinos, este é um dos parâmetros principais para indicar o rompimento ou a perpetuação com a lógica dos pais, com a lógica do bairro, da violência e da tradição.

Além do título ser ressignificado e ampliado em sentido nas últimas páginas do livro, exatamente como no primeiro volume da série, A história do novo sobrenome também continua a lógica de A amiga genial no fato que as últimas linhas elevam a história ao grau máximo de tensão que não é resolvido e estende expectativas para o próximo volume. Assim, a narrativa de Elena Ferrante é viva, fluída, envolvente e sobretudo articulada em tensões e grande temas que deixam o leitor preso nas experiências de Elena e Lina. 
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2.8.16

A amiga genial,  escrito por Elena Ferrante


Editora: Biblioteca Azul/Editora Globo
Páginas: 331
ISBN: 9788525060600
Tradução: Mauricio Santana Dias

'A amiga genial' é narrado pela personagem Elena Greco e cobre da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela. As duas se unem, competem, brigam, fazem planos. Em um bairro marcado pela violência, pelos gritos e agressões dos adultos e pelo o medo constante, as meninas sonham com um futuro melhor. Ir embora, conhecer o mundo, escrever livros. Os estudos parecem a melhor opção para que as duas não terminem como suas mães entristecidas pela pobreza, cansadas, cheias de filhos. No entanto, quando as duas terminam a quinta série, a família Greco decide apoiar os estudos de Elena, enquanto os Cerrulo não investem na educação de Raffaella. As duas seguem caminhos diferentes. Elena se dedica à escola e Raffaella se une ao irmão Rino para convencer seu pai a modernizar sua loja. Com a chegada da adolescência, as duas começam a chamar a atenção dos rapazes da vizinhança. Outras preocupações tornam-se parte da rotina; ser reconhecida pela beleza, conseguir um namorado, manter-se virgem até encontrar um bom candidato a marido.

A amiga genial é intrigante desde o nome da autora impresso na capa: Elena Ferrante é o pseudônimo de alguém que permanece oculto há mais de vinte anos. Ela só concede entrevistas por e-mail, só seus editores sabem quem ela é, não recebe prêmios e diz que não pode fazer mais nada por seus livros além de escrevê-los. Seus livros foram elogiados na Itália e em outros países do mundo e, mesmo assim, a autora mantém sua verdadeira identidade escondida. Diante de um período literário em que parece dominar as auto-ficções, ou seja, uma mistura estanha de auto-biografia e ficção em que o personagem parece sempre querer lembrar o autor, até seus nomes são iguais e suas histórias de vida se assemelham, mas os escritores afirmam categoricamente que seus personagens são completamente inventados; diante do hábito que os amantes da literatura tem de procurar os escritores dentro do livros; diante da frequência de perguntas como "como suas experiências próprias se relacionam com a história?"; diante de tudo isso, Elena Ferrante vai na via oposta e põe tais hábitos do avesso: mesmo que haja um esforço para encontrar semelhanças entre a autora de A amiga genial e sua narradora e protagonista, pois ambas se chamam Elena, ambas nasceram em Nápoles, ambas têm o dom da escrita, Elena Ferrante é um pseudônimo, um nome inventado, e em vez de sua personagem se assemelhar com sua autora real, sua autora se torna ficcional como sua personagem. Se trocadilhos são permitidos, a genialidade de A amiga genial começa aí.

Trata-se de uma série de quatro livros conhecida como Tetralogia Napolitana em que A amiga genial é o primeiro e A história do novo sobrenome o segundo volume, ambos publicados no Brasil pela Biblioteca Azul/Editora Globo. Depois de superar o estranhamento por de trás da identidade da autora indicada na capa, o segundo estranhamento também vem antes do texto, pois há uma lista de personagens e pequenos resumos sobre eles como em peças de teatro. O nome do personagem e indicações como, o sapateiro, o confeiteiro, o mecânico, são frequentes em teatro mas não em romances. Entretanto, tal ficha pode ajudar no decorrer da leitura, pois a história apresenta um número bastante elevado de personagens, o que pode causar um problema para memorizar o nome e a constituição de cada família. A história se passa em Nápoles, mas não em toda Nápoles, mas num bairro. O bairro tem sua lógica própria, suas regras próprias e todos devem obedecê-las se querem pertencer ou ao menos sobreviver a esse lugar. Um episódio bizarro com Lila desperta na narradora Elena toda sua infância e adolescência vivida nesse bairro ao lado dessa aamiga. Lila ou Lina ou Raffaella Cerullo, filha do sapateiro, é uma menina terrivelmente inteligente, bastante violenta e maldosa quando quer e naturalmente genial. Lenu ou Lenuccia ou Elena Grego, a narradora, a filha do contínuo da prefeitura, é uma menina esperta, competitiva, influenciável e estudiosa que torna-se a melhor amiga de Lila, ainda que sempre descreva esta como cruel. Em A amiga genial o relato começa na infância e continua pela adolescência até os 16 anos das meninas que vão crescendo numa atmosfera de violência e reprodução da violência, em o dono do bairro, homem maldoso da infância, o ogro das fábulas vai se definindo como agiota, mafioso e contrabandista conforme as meninas tomam conhecimento do mundo. As famílias, sempre definidas pelas profissões, vivem numa relação de comunidade, pobreza compartilhada, competição, fofoca, escândalos. As meninas frequentam a mesma escola fundamental, onde se tornam amigas, mas sempre competindo entre elas. Contudo, a escola se torna um problema permanente, pois a escola coloca em dúvida quem é a amiga genial.


O livro funciona em torno do acontecimento. Sem fluxo de consciência, reflexões filosóficas ou digressões. Tudo é acontecimento, o que o torna muito envolvente. Mas a genialidade de A amiga genial, novamente se trocadilhos não são condenados, está que a violência, as tensões não estão nas coisas grandes, mas no menor, no cotidiano, no naturalizado. Tudo no livro é da ordem do menor, tudo se passa no bairrinho, com pessoas medíocres, entre duas meninas adolescentes. Entretanto é nessa vida menor, nos sapatos, no livro de poesia, no dono da charcuteria, no filho do mecânico, no andar manco que se configuram a violências, os esquemas, a ganância, as tensões sociais, a opressão e todos os dilemas da existência social e individual como o impasse entre negar o bairro e pertencer ao bairro, negar os pais ou ser quem os pais são. E quando tudo parece razoável, na última linha Elena Ferrante, ou quem quer que seja, arranca um grito de desespero do leitor, pois o mínimo detalhe eleva a tensão ao máximo e tudo se torna muito ruim, não em um piscar de olhos, mas de uma palavra para outra. A única solução para aliviar a tensão e o espanto com a história e a euforia diante da qualidade do livro é agradecer que o segundo volume já está publicado em português e começar a lê-lo.
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