26.7.16

Linha M, de Patti Smith

Linha M, escrito por Patti Smith


Editora: Companhia das Letras
Páginas: 216
ISBN: 8535926933
Tradução: Claudio Carina
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

O livro começa no Greenwich Village, o bairro que tanto marcou sua história. Todos os dias a artista vai ao mesmo café e, munida de seu caderno de anotações, registra suas impressões sobre o passado e o presente, a arte e a vida, o amor e a perda. Num tom que transita entre a desolação e a esperança - e amplamente ilustrado com suas icônicas polaroides -, "Linha M" é uma meditação sobre viagens, séries de detetives, literatura e café. Um livro poderoso e comovente de uma das mais multifacetadas artistas em atividade.


Só garotos, o livro de Patti Smith publicado em 2010 pela Companhia das Letras, é uma auto-biografia da jovem Patti, uma biografia de seu companheiro de vida, Robert Mapplethorpe, da geração dos anos 70 e da cidade de Nova York. Só garotos acaba quando Patti dá seus primeiros passos no mundo do rock e se muda de Nova York para Detroit. Brevemente no final do livro, o leitor conhece seu futuro marido, Fred. Linha M, por sua vez,  não está mais distante no tempo, as referências dos livros apontam para os anos 2000, os livros que Patti lê são, por exemplo, 2666 de Bolaño e vários de Murakami recentemente publicados, além dela se situar com 66 anos de idade. Logo, não se trata mais da jovem Patti Smith que passava apertos financeiros em Nova York, mas que vivia numa atmosfera artística, rebelde e underground, o que certamente a influenciou para compor  Horses, um dos álbuns mais icônicos do punk,  mas de uma artista já estabelecida e reconhecida, vivendo sua rotina de ir ao café 'Ino, alimentar os gatos e ler, sozinha em Nova York pois seus filhos já são crescidos e já saíram de casa e seu marido, Fred, já faleceu.


Só Garotos seguia a ideia da auto-biografia de começar pela infância e ir avançando linearmente pelo tempo: vemos a menina Patti e o menino Robert, a adolescência e a descoberta do rock, a juventude e a mudança de Nova Jersey para Nova York, os anos 70 se desenrolarem com Janis Joplin, Jimi Hendrix, Rolling Stones e Bob Dylan. Linha M funciona pela memória: conforme a Patti de 66 anos se encontra com os lugares ou com os objetos, a memória de suas viagens, dos filhos e do marido reascendem. Assim, como em Só Garotos, o espaço principal de Linha M é Nova York; entretanto, esse espaço é mesclado com as inúmeras viagens que ela realiza, como Berlim, Cidade do México, Tokyo, Tânger, Londres, Saint-Laurent du Maroni, Rockaway Beach, mas também com os espaços recuperados pela memória, como Detroit. Uma das imagens mais importante do livro é de um relógio sem ponteiros e esse é o tempo da narração.
A memória funciona no interior da rotina de acorda, alimentar os gatos, caminhar até o mesmo café todos os dias, se sentar numa mesma mesa no canto da janela, ler e tentar escrever. O Café 'Ino é o provável café da capa do livro, pois é ali que ela vai depois de cada viagem, de cada memória, de cada leitura e de cada decisão. Metade de Linha M se passa no Café 'Ino, a outra metade em outros cafés ou na busca de uma xícara de café.
As viagens vão se intercalando, no presente e na memória, com os momentos no Café 'Ino. Contudo, todas elas estão ligadas com a busca de fazer fotografias com uma câmera Polaroid relacionadas aos escritores e artistas que ela admira ou aos impulsos românticos nos quais eles se ligam. Se em Só garotos Patti estava rodeada dos jovens rebeldes e artistas dos anos 70, em Linha M, ainda que sozinha, ela está sempre buscando companhia em Genet, Sylvia Plath, Mikhail Bulgakov, Roberto Bolaño, Murakami, Frida Kahlo, Diego Rivera, Kurosawa, Dazai, Akutagawa, Emily Brontë e outros. Além dessas referências tão cultas, há vários momentos que a autora se dedica à séries, em especial séries policiais e histórias de detetives que ocupam seus pensamentos e suas noites, seja em Nova York, Londres ou no avião entre um lugar em outro, mas ela se questiona como também passamos a amar um personagem de uma série ou seu contexto como se também fosse parte de nós e da nossa realidade. Dessa forma, todas as referências, assim como a busca pelas fotografias e as fotos reproduzidas no interior do livro tornam-se parte do texto. Quando comprei Só Garotos na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em São Paulo, a livraria estava com uma promoção em que na compra de um livro da Patti, você ganhava reprodução de algumas Polaroids que aparecem em Linha M com trechos do livro no verso.  






Linha M é um livro sobre a solidão, a memória e a passagem do tempo que se relacionam com outros livros, sonhos, falta de sonhos, escritores, cafés, viagens e objetos perdidos. Trata-se daqueles livros que são difíceis de precisar o tema, em que não podemos resumir a história para um amigo e que no final, não sabemos se havia exatamente uma história a ser contata. O silêncio, o nada e o vazio também são importantes e fazem parte do livro. Nada disso é negativo; ao contrário, as passagens mais marcantes e inspiradoras estão nesses momentos que tudo vai em direção ao vazio ou à tentativa de compreendê-lo. Patti Smith é alguém que vale a pena tanto ouvir quanto ler.



Será que nossas coisas choram por nós? Será que carneiros elétricos sonham com Roy Batty? Será que meu casaco, todo furado, se lembra dos bons momentos do nosso companheirismo? Dormindo em ônibus de Viena a Praga, noites na ópera, caminhadas à beira-mar, o túmulo de Swinburne na Ilha de Wigth, as arcadas de Paris, as cavernas de Luray, os cafés de Buenos Aires. Experiências humanas entranhadas em seus fios. Quantos poemas sangraram d suas mangas rotas? Desviei meus olhos por um instante, atraída para um casaco mais quente e macio, mais que eu não amava. Por que será que perdemos as coisas que amamos, enquanto coisas arrogantes se agarram a nós e se tornarão a medida do nosso valr quando tivermos partido? (...) Foi então que me toquei. Talvez eu tenha absorvido meu casaco. Suponho que deva me sentir grata, considerando o seu poder, que o casaco não tenha me absorvido. Pois eu pareceria estar entre os desaparecidos, embora estivesse simplesmente jogada sobre uma cadeira, vibrante, esburacada (p.197). 

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