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Ensaio sobre a cegueira Saramago

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Uma duas Eliane Brum

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Extraordinário Luandino Vieira

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Luuanda Luandino Vieira
31.7.16

Os meninos da rua Paulo, escrito por Ferenc Molnár

Editora: Cosac Naify
Páginas: 264
ISBN: 9788575034316
Tradução: Paulo Rónai
A história dos meninos que travam batalhas de vida ou morte nas ruas de Budapeste, no final do século XIX, ainda fascina leitores de várias gerações. Publicado em 1907, este livro projetou mundialmente o húngaro Ferenc Molnár, pelo espírito de amizade e heroísmo presente na obra. Maravilhosamente traduzida por Paulo Rónai, com posfácio e notas de Nelson Ascher e ilustrações originais de Tibor Gergely, é leitura obrigatória para professores, bibliotecários, estudantes e ex-estudantes. Um clássico da literatura juvenil.
Que delícia de leitura! Já começo dizendo que me encantei pela história (que me lembrou outras como "Os Batutinhas") de um grupo de meninos com cerca de 14 anos que se reunia para brincar em um terreno baldio da rua até que o outro grupo de meninos, com quem eles tinham certa rivalidade, resolveu que queria aquele espaço para eles e houve uma "guerra" para ver quem seria o dono do espaço.

O livro é infanto-juvenil, a história tem um linguagem simples, mas é mais profunda do que imaginamos quando começamos a ler. A narrativa e os personagens são muito bem construídos! Apesar de tantos nomes difíceis de ler e de memorizar, aos poucos, acabamos reconhecendo as crianças, vamos lembrando quais as características e as personalidades que marcam cada um. Começamos a "fazer parte do grupo" e a perceber o sentimento de amizade e união que permeia a história.

Esse clássico da literatura húngara nos leva a ser crianças novamente ao mostrar o quão fascinante esse universo pode ser, como coisas aparentemente simples são levadas tão a sério por meninos que brincam de bolinhas de gude, mas também fazem eleições democráticas e discutem leis e cargos com tamanha seriedade. 
"A disciplina militar e as tensões que dela decorrem, a lealdade e a traição, o heroísmo e a covardia, a rivalidade, a inveja e a nobreza: todos esses elementos são tratados na obra com a mesma seriedade com que seriam abordados num livro para adultos."
Outro aspecto que chamou minha atenção na leitura é o quanto a história é visual, parecia que eu estava assistindo a um filme enquanto lia. 

Vale ainda destacar o material que faz parte do conteúdo do livro e que é de excelente qualidade: o prefácio do tradutor Paulo Rónai, o posfácio de Nelson Ascher, a biobibliografia e as notas de rodapé que auxiliam no vocabulário, dizem como se pronuncia os nomes dos personagens e trazem informações. Além disso, há um ebook gratuito na Amazon que é um guia de leitura do livro, destinado principalmente a professores, que traz um conteúdo tão rico que faz com que nossa leitura se torne ainda mais profunda. 
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26.7.16

Linha M, escrito por Patti Smith


Editora: Companhia das Letras
Páginas: 216
ISBN: 8535926933
Tradução: Claudio Carina
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

O livro começa no Greenwich Village, o bairro que tanto marcou sua história. Todos os dias a artista vai ao mesmo café e, munida de seu caderno de anotações, registra suas impressões sobre o passado e o presente, a arte e a vida, o amor e a perda. Num tom que transita entre a desolação e a esperança - e amplamente ilustrado com suas icônicas polaroides -, "Linha M" é uma meditação sobre viagens, séries de detetives, literatura e café. Um livro poderoso e comovente de uma das mais multifacetadas artistas em atividade.


Só garotos, o livro de Patti Smith publicado em 2010 pela Companhia das Letras, é uma auto-biografia da jovem Patti, uma biografia de seu companheiro de vida, Robert Mapplethorpe, da geração dos anos 70 e da cidade de Nova York. Só garotos acaba quando Patti dá seus primeiros passos no mundo do rock e se muda de Nova York para Detroit. Brevemente no final do livro, o leitor conhece seu futuro marido, Fred. Linha M, por sua vez,  não está mais distante no tempo, as referências dos livros apontam para os anos 2000, os livros que Patti lê são, por exemplo, 2666 de Bolaño e vários de Murakami recentemente publicados, além dela se situar com 66 anos de idade. Logo, não se trata mais da jovem Patti Smith que passava apertos financeiros em Nova York, mas que vivia numa atmosfera artística, rebelde e underground, o que certamente a influenciou para compor  Horses, um dos álbuns mais icônicos do punk,  mas de uma artista já estabelecida e reconhecida, vivendo sua rotina de ir ao café 'Ino, alimentar os gatos e ler, sozinha em Nova York pois seus filhos já são crescidos e já saíram de casa e seu marido, Fred, já faleceu.


Só Garotos seguia a ideia da auto-biografia de começar pela infância e ir avançando linearmente pelo tempo: vemos a menina Patti e o menino Robert, a adolescência e a descoberta do rock, a juventude e a mudança de Nova Jersey para Nova York, os anos 70 se desenrolarem com Janis Joplin, Jimi Hendrix, Rolling Stones e Bob Dylan. Linha M funciona pela memória: conforme a Patti de 66 anos se encontra com os lugares ou com os objetos, a memória de suas viagens, dos filhos e do marido reascendem. Assim, como em Só Garotos, o espaço principal de Linha M é Nova York; entretanto, esse espaço é mesclado com as inúmeras viagens que ela realiza, como Berlim, Cidade do México, Tokyo, Tânger, Londres, Saint-Laurent du Maroni, Rockaway Beach, mas também com os espaços recuperados pela memória, como Detroit. Uma das imagens mais importante do livro é de um relógio sem ponteiros e esse é o tempo da narração.
A memória funciona no interior da rotina de acorda, alimentar os gatos, caminhar até o mesmo café todos os dias, se sentar numa mesma mesa no canto da janela, ler e tentar escrever. O Café 'Ino é o provável café da capa do livro, pois é ali que ela vai depois de cada viagem, de cada memória, de cada leitura e de cada decisão. Metade de Linha M se passa no Café 'Ino, a outra metade em outros cafés ou na busca de uma xícara de café.
As viagens vão se intercalando, no presente e na memória, com os momentos no Café 'Ino. Contudo, todas elas estão ligadas com a busca de fazer fotografias com uma câmera Polaroid relacionadas aos escritores e artistas que ela admira ou aos impulsos românticos nos quais eles se ligam. Se em Só garotos Patti estava rodeada dos jovens rebeldes e artistas dos anos 70, em Linha M, ainda que sozinha, ela está sempre buscando companhia em Genet, Sylvia Plath, Mikhail Bulgakov, Roberto Bolaño, Murakami, Frida Kahlo, Diego Rivera, Kurosawa, Dazai, Akutagawa, Emily Brontë e outros. Além dessas referências tão cultas, há vários momentos que a autora se dedica à séries, em especial séries policiais e histórias de detetives que ocupam seus pensamentos e suas noites, seja em Nova York, Londres ou no avião entre um lugar em outro, mas ela se questiona como também passamos a amar um personagem de uma série ou seu contexto como se também fosse parte de nós e da nossa realidade. Dessa forma, todas as referências, assim como a busca pelas fotografias e as fotos reproduzidas no interior do livro tornam-se parte do texto. Quando comprei Só Garotos na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em São Paulo, a livraria estava com uma promoção em que na compra de um livro da Patti, você ganhava reprodução de algumas Polaroids que aparecem em Linha M com trechos do livro no verso.  






Linha M é um livro sobre a solidão, a memória e a passagem do tempo que se relacionam com outros livros, sonhos, falta de sonhos, escritores, cafés, viagens e objetos perdidos. Trata-se daqueles livros que são difíceis de precisar o tema, em que não podemos resumir a história para um amigo e que no final, não sabemos se havia exatamente uma história a ser contata. O silêncio, o nada e o vazio também são importantes e fazem parte do livro. Nada disso é negativo; ao contrário, as passagens mais marcantes e inspiradoras estão nesses momentos que tudo vai em direção ao vazio ou à tentativa de compreendê-lo. Patti Smith é alguém que vale a pena tanto ouvir quanto ler.



Será que nossas coisas choram por nós? Será que carneiros elétricos sonham com Roy Batty? Será que meu casaco, todo furado, se lembra dos bons momentos do nosso companheirismo? Dormindo em ônibus de Viena a Praga, noites na ópera, caminhadas à beira-mar, o túmulo de Swinburne na Ilha de Wigth, as arcadas de Paris, as cavernas de Luray, os cafés de Buenos Aires. Experiências humanas entranhadas em seus fios. Quantos poemas sangraram d suas mangas rotas? Desviei meus olhos por um instante, atraída para um casaco mais quente e macio, mais que eu não amava. Por que será que perdemos as coisas que amamos, enquanto coisas arrogantes se agarram a nós e se tornarão a medida do nosso valr quando tivermos partido? (...) Foi então que me toquei. Talvez eu tenha absorvido meu casaco. Suponho que deva me sentir grata, considerando o seu poder, que o casaco não tenha me absorvido. Pois eu pareceria estar entre os desaparecidos, embora estivesse simplesmente jogada sobre uma cadeira, vibrante, esburacada (p.197). 
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20.7.16

Anexos, escrito por Rainbow Rowell

Editora: Novo Século
Páginas: 368
ISBN: 9788542804515
Tradução: Marcia Men
"Oi, eu sou o cara que lê seus e-mails, e, sabe, eu amo você..." Beth Fremont e Jennifer Scribner-Snyder sabem que alguém está monitorando seus e-mails de trabalho. (Todo mundo na redação sabe. É política da empresa.) Mas elas não conseguem levar isso tão a sério, e continuam trocando e-mails intermináveis e infinitamente hilariantes, discutindo cada aspecto de suas vidas. Enquanto isso, Lincoln O'Neill não consegue acreditar que este é agora o seu trabalho – ler os e-mails de outras pessoas. Quando ele se candidatou para ser "agente de segurança da internet", se imaginou construindo firewalls e desmascarando hackers – e não escrevendo um relatório toda vez que uma mensagem esportiva vinha acompanhada de uma piada suja. Quando Lincoln se depara com as mensagens de Beth e Jennifer, ele sabe que deveria denunciá-las. Mas ele não consegue deixar de se divertir e se cativar por suas histórias. No momento em que Lincoln percebe que está se apaixonado por Beth, é tarde demais para se apresentar. Afinal, o que ele diria...?
Em Anexos temos uma história na qual as personagens não interagem diretamente entre si, apenas por emails. 

Beth e Jennifer trabalham na redação de um jornal e são grandes amigas, mas só o que sabemos delas é o que elas contam nos emails que trocam durante o trabalho. Lincoln também as conhece desse jeito, mas nós o conhecemos melhor, acompanhamos o relacionamento dele com sua família, o quanto se sente fracassado por ter esse trabalho sendo que sempre foi tão estudioso, descobrimos que ele teve uma grande decepção amorosa da qual ainda não se recuperou e que ele ainda vive com a mãe superprotetora. Lincoln nos passa a imagem que tem de si mesmo: um perdedor, o que foge da imagem de "príncipe encantado" perfeito a qual estamos acostumadas.

A história é bem leve e tranquila de ler. Gostei principalmente da forma como a amizade de Beth e Jennifer é retratada. Conversavam desde assuntos banais a dilemas mais sérios de suas vidas. Concordavam e discordavam. Uma relação muito real.

Já o Lincoln não me conquistou. Esse papel de estar sempre descontente, sem tomar nenhuma atitude para mudar me incomodou, visualizava ele sempre andando de ombros caídos chutando pedrinhas pela rua.

Outro aspecto que me incomodou um pouco foi a falta de proximidade com as personagens. Esse recurso da autora de nos apresentá-las por email me manteve afastada delas, e acabou me fazendo falta conhecê-las mais a fundo.

Li esse livro porque a Rainbow Rowell é a autora de um dos meus livros preferidos, Eleanor e Park, e por isso fui com muita expectativa de amar essa leitura também, o que acabou não acontecendo. Isso não quer dizer que o livro seja ruim, porque é um romance divertido, que foi me conquistando, principalmente mais perto do final, mas só não atingiu minhas expectativas que estavam altas demais.
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11.7.16

A parede branca do meu quarto, de Marina Oliveira

Editora: Thesaurus
Páginas: 384
ISBN: 9788540903968
Encontre a autora: Facebook - Twitter - Instagram Blog
Após ter um vídeo postado no Youtube sobre o surto psicótico que teve durante uma prova, Mariana Vilar virou uma celebridade da internet. Infelizmente, isso não trouxe nenhuma vantagem para a vida dela: foi expulsa do colégio antigo, perdeu o contato com o melhor amigo e, agora, ainda tem que aguentar as pessoas perguntando a todo tempo se a conhecem de algum lugar.
Chega a hora de cursar o terceiro ano do Ensino Médio, não vai ser fácil. Novo colégio, rodeado de pessoas diferentes. Os desafios surgem e as inquietudes aumentam. Mariana começa a perceber que as experiências e desejos que guiavam o seu comportamento antes, de repente não fazem mais sentido. Entender as mudanças que vão desde belos momentos afetivos até estranhas festas da elite brasiliense será uma questão de sobrevivência.
E quanto à parede branca do título? Ah, meu caro leitor, só posso garantir que ela nunca mais será a mesma.

Se você pensa que Mariana Vilar é uma garota comum, está redondamente enganado. Ela está fora dos padrões, a começar pelo seu QI excepcional, o que a torna uma garota inteligente. Porém, ela não apenas é inteligente, como também muito dedicada e alguém que coloca os estudos em primeiro lugar na sua vida - antes mesmo das amizades. Só podemos fazer o adendo quanto à família, que não precisa nem ser colocado em primeiro, segundo, terceiro lugar etc. É, antes de tudo, o seu porto seguro. Mariana é totalmente peculiar, e estressada por natureza. Vive em conflito com o seu irmão mais novo e, depois que teve um surto durante a prova PAS no seu segundo ano do ensino médio, tudo ficou ainda pior: foi convidada a se retirar de sua antiga escola, não aceita sequer que falem no nome de seu ex-melhor amigo Ian, sua avó Fatinha está com a saúde cada vez mais debilitada e seu pai sumiu há uns anos e nem ao menos ajuda financeiramente a sua mãe. 

Na realidade, todos esses foram motivos para o que aconteceu durante a prova que garantirá a sua vaga na universidade de seus sonhos, a UnB. Porém, alguém gravou o que aconteceu e colocou no Youtube, criando automaticamente um viral - e uma nova "quase" famosa: a psicótica do PAS, Mariana Vilar. É com essa carga sobre suas costas que ela precisa passar pelo seu primeiro dia no colégio novo (sendo, é claro, alvo de curiosidade e piadas), onde conhece Lara e Maurício, seus dois vizinhos de carteira que, num primeiro momento, parecem mais irritá-la do que serem os melhores amigos que, ainda bem, serão.

Minhas impressões

Fazia um tempo que eu não lia YA (Young Adult = jovem adulto, a nomenclatura para a literatura jovem) e A parede branca do meu quarto veio em boa hora: justamente quando eu senti que precisava de um livro para me distrair e me fazer cair de amores. E foi o que aconteceu, pois Marina (Marina, não Mariana, fácil de confundir rs) me fez retornar aos meus 16 anos quando eu praticamente só lia YA, torcer pelo romance e ficar extremamente curiosa pelo desfecho da história (por mais que eu soubesse que tudo daria certo e que aquele casal realmente terminaria junto). Ela colocou numa história nacional tudo aquilo que admiramos na literatura jovem gringa, que pode ser medido pelo ânimo que desperta no leitor.

Posso dizer que é um dos YAs que mais gostei de ter lido, e o fato de ser nacional só torna tudo muito especial. Enfatizo bastante isso não apenas porque eu gosto de indicar livros nacionais bons, mas porque percebo que há uma certa hegemonia (ou preferência, como quiser) da literatura internacional do gênero aqui mesmo no nosso país, então encontrar um exemplo de que não precisamos nos voltar para fora a fim de ler uma história bem escrita e desenvolvida me alegrou bastante.

Porque, sim, é uma história bem desenvolvida dentro do que ela propõe e no universo do seu gênero. Os personagens são bem desenvolvidos, sobretudo os principais. Talvez o Maurício tenha ficado um tanto quanto apagado pelo papel que ele tem na história, pois o livro é em primeira pessoa e a Mariana pode ser um pouco distante das pessoas quando quer. Gostei muito de como o tema da família, da amizade e do amor estão sempre em harmonia, sem que um se torne o principal. Mas eu diria que isso acontece para dar espaço ao que realmente o livro aborda: a questão da mudança, do crescimento pessoal, das transformações. Toda a história pela qual a Mariana passa no seu terceiro ano do ensino médio nos é contada de uma forma que nos faz enxergar como ela era no início e no final - e a mudança é nítida. Saber da trajetória (o enredo em si) é o que pode trazer à tona a discussão do amadurecimento, e esse é um ponto chave do livro, o qual me fez gostar ainda mais dele!

No Youtube

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Filhas de Eva, escrito por Martha Mendonça

Editora: Record
Páginas: 128
ISBN:  9788501107527
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Uma das cabeças por trás do site Sensacionalista, Martha Mendonça tem faro apurado para identificar as figuras mais curiosas e pena afiada para transformá-las na mais prazerosa literatura. Assim como é impossível um escândalo escapar do tabloide virtual de humor mais lido do país, nada foge ao olhar de Martha, arguta observadora e bem-humorada ficcionista do cotidiano das mulheres – características já comprovadas, ao extrair do trivial e do corriqueiro pequenas pérolas literárias, em Canalha: substantivo feminino e 40: um romance feminino. Nos contos deste Filhas de Eva, a autora lança um novo olhar sobre o turbilhão de sentimentos que cabe dentro das mulheres – ou sobre como um mesmo sentimento pode habitar cada uma de maneira tão ímpar. Seja pela forma ou pelo conteúdo de suas narrativas, Martha revela a força e os extremos exacerbados de suas personagens. Com seu estilo original e leve, esmiúça as relações e a intimidade do universo feminino, misturando crítica e humor em histórias deliciosas.

O livro "Filhas de Eva" é composto por contos que tem mulheres como protagonistas. Pobres, ricas, jovens, velhas, mulheres diferentes em muitos aspectos mas ainda carregando o elo comum: o de ser mulher. O conto que dá abertura ao livro, intitulado "Eva", nos dá um panorama sobre a temática que encontraremos nos outros contos.

Assim, já formada e deformada pela falta de infância, aprendi logo que eu era culpada. Pelo que houve e pelo que não houve; pelos barulhos e pelos silêncios; pela beleza e pela feiura; pelo passado e pelo futuro. Pelo desejo. [Eva] 

O título de cada conto nos revela uma característica da personagem que conheceremos: "Amante", "Compulsiva", "Apressada", "Obcecada" e "Doméstica" são alguns deles e encontraremos histórias dramáticas, engraçadas, tristes e felizes, a maioria tendo como tema principal os relacionamentos.
À primeira vista pode parecer uma temática clichê para um livro sobre mulheres, mas a autora consegue fugir do lugar comum trazendo personagens próximas da realidade, sem idealizações.

Há dias que foram feitos para se morrer em vida. Dias para mover os músculos um mínimo possível. Olhar o horizonte com o olhar perdido e esquecer a comida não mastigada ainda na boca. Dias para mexer os dedos do pé devagarinho, apertar as mãos fechadas com força e prolongar as piscadelas dos olhos. (...) Há dias em que o que é bom se esvai e o que era ruim fica estranhamente incontornável. [Apressada]

O livro, apesar de alguns contos mais pesados, é em geral leve, fácil e bastante fluido. É bastante fácil de se identificar em algumas situações vividas pelas personagens, é tudo muito verossímil e palpável.
Minha leitura foi feita num dia só, não conseguia largar o livro e me questionando o que viria no conto seguinte: uma menina jovem e feliz, uma mulher solitária... Enfim recomendo para quem gostaria de algo mais rápido e fácil. (O livro, aliás, me tirou de uma grande ressaca literária).

Sábado. Pouco mais de nove horas da manhã. O potencial de uma manhã de sábado é um dos maiores motivos para a felicidade do ser humano. O domingo, não: a manhã de domingo já exala cheiro de contagem regressiva para a volta ao real, ao sufocante e anunciado desastre que é a vida das pessoas comuns. Mas era sábado. De manhã. Se tudo em volta desabasse, já seria um motivo para ser feliz. Pelo menos até meio-dia. [Desperta]


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8.7.16

Ratos e homens, escrito por John Steinbeck



Editora: L&PM POCKET
Páginas: 144
ISBN: 852541378X
Tradução: Ana Ban

George e Lennie são dois amigos bem diferentes entre si. George é baixo e franzino, porém astuto, e Lennie é grandalhão, uma verdadeira fortaleza humana, mas com a inteligência de uma criança. Só o que os une é a amizade e a posição de marginalizados pelo sistema, o fato de serem homens sem nada na vida, sequer família, que trabalham fazendo bicos em fazendas da Califórnia durante a recessão econômica americana da década de 30. Ganham pouco mais do que comida e moradia. No caminho, encontram outros sujeitos pobres e explorados, mas também situações que colocam em risco a sua miserável e humilde existência. Em 'Ratos e homens', Steinbeck levou à maestria sua capacidade de compor personagens tão cativantes quanto realistas e de, ao contar uma história específica, falar de sentimentos comuns a todos seres humanos, como a solidão e a ânsia por uma vida digna.

John Steinbeck foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1962 e seu romance mais famoso é "As vinhas da ira" que ganhou o Prêmio Pulitzer de Literatura e foi adaptado para o cinema. Trata-se de um autor norte-americano, nascido na Califórnia no início do século XX e de uma literatura empenhada na crítica dos problemas sociais de formação dos Estados Unidos, especialmente visíveis nessa região do país.


O livrinho "Of mice and men", traduzido pela L&PM POCKET como "Ratos e homens", mas que já recebeu outras tradução como "Sobre ratos e homens", é um livrinho em relação ao tamanho, mas um livrão em relação ao poder do texto. Uma short story que tem como personagens principais Lennie e George. O primeiro é enorme, incrivelmente forte mas tem atitudes, o emocional e a inocência de uma criança; já o segundo é pequeno mas astuto. Lennnie e George trabalham e caminham juntos pelas fazendas da Califórnia, com o sonho de economizar um dinheiro, comprar um pedaço de terra, cuidar de suas próprias plantações e seus próprios animais, poderem parar o trabalho quando quiserem e não serem mais explorados no trabalho, trabalhariam somente para o própria existência. Entretanto, para se manterem num emprego e juntarem o dinheiro duas dificuldades se impõem: uma para George de não gastar as economias com bebidas, mulheres e jogos, a segunda para Lennie de não se meter em confusão e fazer com que os dois sejam expulsos das fazendas. Lennie é, antes de qualquer coisa, bom e sensível, mas acaba fazendo coisas erradas e mal aos outros sem nunca ter a intenção, devido ao seu desajeito, sua força e seu medo de ser abandonado por George e de não realizar esse sonho. 

Eles vão trabalhar numa fazenda onde conhecem Candy, um velho sensível que se junta a eles no sonho da busca de um pedaço de terra; Slim, que parece justo e correto; Carlson, insensível e metido em confusões; Crooks, um homem inteligente mas condenado a solidão e a uma posição inferior pelo fato de ser negro; Curley, o filho do dono da fazenda, um rapaz metido, impertinente e violento; a esposa de Curley, uma mulher solitária e infeliz, vista como um problema para os outros personagens de simples fato de ser mulher. Todos esses personagens compõem o cenário de uma fazenda hostil, injusta e opressora, fatores que afetam fortemente a alta sensibilidade de Lennie. A inocência deste e o sonho que ele e George carregam e alimentam entra em tensão com o ambiente opressor que não aceita a liberdade e a igualdade.

O texto de Steinbeck foi transformado em peça de teatro e encenado em São Paulo no famoso Teatro Arena há 60 anos. Seu diretor era o idealizador do Teatro do Oprimido, Augusto Boal e, agora em 2016, o texto foi de novo retomado nos palcos por Kiko Marques. A peça esteve em cartaz por alguns teatros da capital paulista, como no Sesc e no teatro da Faap, e ela consegue transformar em imagens a grandeza da impactante história de Steinbeck. O final da peça e o final do livro apresentam algumas pequenas diferenças de enredo, mas ambos são incríveis e arrematam a extrema qualidade da obra.   


A tradução desta edição opta por marcar na linguagem uma variação oral e regional. Provavelmente o texto original adote um inglês típico da região e das pessoas que trabalham em fazendas no interior. Assim, o texto em português ficou como se fosse uma reprodução da oralidade das variações linguísticas do interior do Brasil, destoando bastante da modalidade escrita padrão, mas usando a própria escrita do texto para compor as particularidades dessa história. 
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