14.6.16

Só garotos, de Patti Smith

Só garotos, escrito por Patti Smith


Editora: Companhia das Letras
Páginas: 240
ISBN: 8535917764
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza

Patti Smith se mudou para Nova York com vinte anos, no final dos anos 1960. Enquanto entrava em contato com parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera do 'verão do amor', conheceu sua primeira grande paixão - o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de AIDS, em 1989. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, este livro procura ser um retrato confessional da contracultura americana dos anos 1970. Muitas vezes sem dinheiro e sem emprego, mas com disposição, os dois viveram períodos de transformações - até mesmo quando Robert assume ser gay ou quando suas imagens consideradas ousadas começam a ser reconhecidas no mundo da arte.


Estávamos andando em direção à fonte, o epicentro da ação, quando um casal mais velho parou e ficou abertamente nos observando. Robert gostava de ser notado, e apertou minha mão com carinho."Oh, tire uma foto deles", disse a mulher para o marido distraído, "acho que são artistas"."Ora, vamos logo", ele deu os ombros. "São só garotos". 
O livro de Patti Smith é um autobiografia e uma biografia ao mesmo tempo. A autobiografia por excelência é aquele livro em que deve haver uma coincidência entre o nome do autor escrito na capa, o nome do protagonista e a identidade do narrador. Logo, um narrador mais velho que relembra sua vida desde a infância. Tudo isso se cumpre: o livro começa com a infância de Patti em Nova Jersey, suas brincadeiras de soldado com os irmãos, a mãe lhe dizendo que não poderia andar sem camisa como os irmãos homens porque era uma moça, sua adolescência no rock'n'roll e depois sua mudança para Nova York. Entretanto, na cidade grande Patti conhece Robert, aquele que vai ser seu namorado por um tempo mas seu amigo e companheiro de busca pela arte e pela carreira artística pelo resto da vida. Antes de começar a contar sua infância, nas primeiras páginas do livros, ela fala de Robert e quando o viu pela última vez. O livro acaba no mesmo ponto. E os capítulos de sua infância são alternados com a infância de Robert. Assim, o livro "Só garotos" é uma autobiografia dela, a cantora Patti Smith, mas também uma biografia de Robert Mapplethorpe, da geração beatnick, dos anos 60 e 70 e da cidade de Nova York.



A autora conta como seu grande desejo sempre foi ser poeta e não cantora. Ela escrevia poemas e desenhava. Robert era mais dado às artes plásticas, desenhava, fazia colagens, intervenções, colares e fotografias. Ambos queriam viver dedicados à arte e isso lhes custou dias e noites de fome e escassez. Viviam com muito pouco dinheiro e pouquíssimos bens pessoais, se alimentavam de comida pronta daquelas máquinas que ficam em lojas e estações de metrô, reaproveitavam tudo o que encontravam, pois não tinham dinheiro para o próprio material de arte. Viveram em diversos bairros e exploravam o espaço da cidade, os cafés, o Central Park, Brooklyn, Coney Island, Village Gate, Fifith Avenue, Twenty-third Stret, Forty-Second Street, Eighteenth Street, com seus jovens beatniks, protitutas, artistas, anarquistas, com as greves, com os ratos e tudo o que NY nos anos 70 pode suscitar na imaginação.

A ligação de Patti Smith com a literatura transborda em todas as páginas do livro. Além das referências musicais como Dylan, Stones, Edith Piaf, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Billy Holiday, Mile Davis e referências como Marcel Duchamp, Andy Warhol, o livro está repleto de referências literárias que a inspiraram como Faulkner, Goethe, Baudelaire, Louisa May Alcott, Jack Kerouac, Jean Genet, Marcel Proust, Gérard de Nerval, Oscar Wilde e sua inspiração maior, Arthur Rimbaud. Há diversas partes sobre sua paixão desmedida por Rimbaud que incluem duas viagens para Paris, uma delas somente para encontrar a inspiração de Rimbaud pelas ruas e escrever sobre ele.


Estas mil alusões artísticas e literárias complementam as descrições dos trabalhos que ela e Robert faziam. Seus impulsos artísticos estavam desde horas de trabalho desenhando e escrevendo, até a forma que se vestiam, compondo personagens para transitar pela cidade. Todas as descrições do livro esculpem a imagem de uma geração de "garotos" que se contrapunham a ordem estabelecida, que queriam ser "anti-burgueses", embora muitos deles "aburguesaram", como a própria autora diz. Uma geração afetada por doenças e pelas drogas, mas dedicada a arte.

A profusão artística em que Patti Smith se inseria, se sentar num café e ter Jimi Hendrix e Janis Joplin nas mesas ao lado, ainda que ela não fosse conhecida porque não passava de uma menina qualquer de 22 anos levaram com que, aos poucos, transformasse seus poemas em canções. Ela caminhou para música e Robert caminhou para fotografia, as capas dos seus primeiros cds foram feitas por ele.

O livro é maravilhoso e inspirador, além de ser muito bonito trazendo inúmeras fotos preto branco que ilustram a relação de Patti e Robert e o trabalho artístico dos dois. Muitas pessoas não gostam de biografias ou autobiografias por não trazerem mais nada além de informações da vida da pessoa. De alguma maneira, isso faz parte do próprio gênero literário que se propõe a contar a vida de alguém. Entretanto, o livro de Patti Smith é muito além de uma autobiografia, é um livro sobre a cidade de Nova York, sobre o poder da arte e sobre uma geração que acreditava nesse poder.

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo