5.6.16

Grito, de Godofredo de Oliveira Neto


Grito, escrito por Godofredo de Oliveira Neto

Editora: Record
Páginas: 160
ISBN: 9788501107015
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Construído de forma que a performance e a teatralidade ocupem um lugar central, Grito é o epílogo da octogenária Eugênia e sua relação com o jovem e ambicioso Fausto. Em 21 atos, a narrativa é marcada pelo embate entre as esferas do real e do imaginário. Godofredo de Oliveira Neto experimenta formatos e problematiza a linguagem, conduzindo a partir da perspectiva da ex-atriz de teatro uma trama que transita entre o mundo da criação e da encenação.
O cenário é o bairro de Copacabana, Rio de Janeiro, e a narradora é a octogenária Eugênia, atriz de teatro aposentada que relata em 21 atos a forma que encontrou de continuar tendo a arte como o ponto central de sua vida mesmo afastada dos palcos.
Fausto traz alegria diariamente para este apartamentozinho pequeno onde vivo com os meus personagens passados e presentes, imaginados e recriados todas as noites depois de um cálice de vinho por recomendação do médico.
Seu palco imaginário é a sala de seu vizinho de prédio, Fausto, um jovem de 19 anos, aspirante a ator e, segundo Eugênia, dono de uma beleza ímpar. 

Fausto e Eugênia vivem uma relação de cumplicidade e paixão ao teatro. Os ensaios dão a Eugênia novamente um sentido para sua existência, enquanto Fausto absorve todo o conhecimento e experiência que a atriz com seu gabarito podem oferecer.

A partir dos estreitamentos dos laços a relação passa da cumplicidade à posse por parte de Eugênia e transcendem a condição de mestre e aprendiz. A idosa acredita que ela basta à vida de Fausto e que pode suprir todas as suas necessidades. Passa a não aceitar qualquer relação, seja amorosa, profissional ou de amizade, na vida do jovem e usa da internet para investigar os passos do jovem ator e interferir caso ache necessário.
Penso que os amigos criados por Fausto no ambiente efêmero de trabalho vêm com o propósito de preencher a solidão. Vizinhos já ouviram sua voz grandiloquente representando outra pessoa, como se estivesse conversando com amigos. No fundo, ele só tem a mim como amiga e cúmplice de sua arte.
O relato de Eugênia transita entre a realidade e a fantasia, entre suas encenações e sua pacata vida de aposentada e leva o leitor a questionar a veracidade do que a atriz narra. Será aquele trecho parte de alguma peça ou algo que realmente aconteceu na vida de Eugênia e Fausto? Essa dúvida permeia toda a narrativa, que é pungente assim como a intensidade desse relacionamento.

O livro é audacioso e nos leva a um final totalmente inesperado, tão imersos ficamos ao ler os relatos da atriz. Além disso, todo o romance é composto por referências à arte, ao teatro e aos livros e ao final dele sentimos a necessidade de ler tudo o que levou Eugênia àquele trágico final.
"O amor é mera lascívia do sangue e simples complacência do desejo." O Hildebrando, meu falecido marido, costumava repetir essa frase, mas dita pelo Fausto a exclamação ganha uma dramaticidade impressionante. O espaço do trezentos e dezoito vira poesia,
O teatro também é a base para a construção dos personagens. Além da clara referência a Fausto de Goethe, obra que Eugênia já leu e releu à exaustão, também temos referência ao Dr. Fausto de Thomas Mann e, sobretudo, Otelo de Shakespeare.

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo