30.5.16

As Afinidades Eletivas, de J. W. Goethe

As Afinidades Eletivas, escrito por J. W. Goethe

Editora: Penguin Companhia
Páginas: 328
ISBN: 8563560921
Tradução: Tércio Redondo
Eduard e Charlotte formam um casal elegante e aristocrático que vive numa propriedade rural idílica, porém perigosamente próxima do fastio. Mas a relativa paz de sua existência é posta à prova quando a presença de dois visitantes - o Capitão e Ottilie - faz despertarem reservas magmáticas de atração sexual e amor proibido. Com o título inspirado pelo princípio da química a respeito de certos elementos que são atraídos para outros, e com uma temática calcada na própria biografia sentimental (e conflituosa) de Goethe, este romance é um dos triunfos supremos do romantismo. Permanece, mais de duzentos anos depois de sua publicação original, como um estudo profundo sobre amor e destino. Esta edição, com uma nova tradução fluente e elegante de Tércio Redondo, e introdução do britânico R. J. Hollingdale, um dos maiores especialistas em literatura e filosofia alemãs, permite conhecer (ou revisitar) a obra que é uma das pedras fundamentais do romance do século XIX.

O romance de J. W. Goethe traz como núcleo central o casal Eduard e Charlotte. O narrador conta que eram apaixonados um pelo outro, mas ambos eram casados com outras pessoas. O destino e a fortuna acabou deixando-os viúvos em períodos próximos, possibilitando, assim, que se casassem. Cultivavam uma relação bastante harmoniosa quando Eduard consulta a esposa sobre a possibilidade de trazer um amigo, o capitão, para morar com eles por um tempo, pois o este amigo se encontrava numa situação complicada e ele gostaria muito de ajudá-lo. Charlotte reluta um pouco para aceitar, entretanto ela recebe uma carta do pensionato onde se encontravam sua filha (do outro casamento) e a filha de uma amiga que ela cuidava que dizia que esta última estava com alguns problemas. Charlotte julga conveniente que a menina, Otille, venham morar com eles por um tempo. Assim, como ambas partes buscavam a mesma coisa, Charlotte e Eduard concordam mutuamente receber o capitão e Otille em seu castelo.



A edição alemã de As Afinidades Eletivas
Otille se revelou uma menina doce e prestativa, além de uma aprendiz empenhada. O capitão, por sua vez, mostrou-se o melhor dos hóspedes, pois começou usar seus inúmeros talentos para ajudar Charlotte nas obras de melhoramento do jardim. Quando tocavam música juntos, Charlotte no piano era muito melhor do que Eduard na flauta, porém ela fazia o papel de um bom maestro e boa dona de casa, acompanhando o ritmo do marido mesmo que fosse fora do compasso. Já quando vai tocar com Otille, esta parecia ter absorvido os mesmo erros de execução de Eduard, logo ficavam perfeitos tocando juntos. E o mesmo acontecia com o capitão e Charlotte; ele era tão bom no violino quanto ela no piano e juntos eram maravilhosos músicos. Esta é uma das belezas do livro do Goethe, a relação dos personagens com a música e com a natureza é paralela a suas relações com o amor. Isso denuncia então que Eduard acaba se apaixonando por Otille e Charlotte pelo capitão. Os dois amores são recíprocos. Mas como poderiam corresponder se Eduard e Charlotte estavam presos ao casamento?

Cada personagem lida com a situação de forma diferente. Enquanto Eduard se entrega ao amor romântico e quer se valer de todos os meios da época para anular o casamento, Charlotte pensa que o amor deve ser contido porque não há maneiras de sair de tal situação. E é em torno dessa questão que a toda a narrativa se desenvolve: é possível anular o casamento? É possível permitir o amor? Quem vencerá? O casamento ou o amor?

Diferente do famoso Os sofrimentos do jovem Werther em que a atmosfera meio sombria, as exagerações, os sentimentos, a angústia estão colocados desde início, e diferente de Fausto em que a primeira cena já se passa num quarto escuro de trabalho onde Fausto começa a se lamentar, "Ai de mim! Da filosofia/ Medicina, jurisprudência, e mísero eu! da teologia,/O estudo fiz, com máxima insistência./Pobre simplório, aqui estou/ E sábio como dantes sou", em As Afinidades Eletivas a atmosfera é leve, harmoniosa e livre de rebuscamentos. Os sofrimentos do jovem Werther é um livro da fase pré-romântica de Goethe e As Afinidades Eletivas é um livro da fase neoclássica. Logo, aparentemente o desequilíbrio de um livro e a harmonia de outro estão explicados pelos diferentes caminhos estéticos que o autor buscou. A atmosfera equilibrada e o próprio tom da narrativa que faz lembrar a tranquilidade de um jardim combinam com a fluidez do texto, que nada lembra o texto difícil e enigmático de Fausto. Contudo, essa harmonia é colocada em questão na própria narrativa e os mesmos problemas de Werther, a civilização, por exemplo, voltam para As Afinidades Eletivas mas de outra maneira.


Além de ser bem agradável de ler e possuir personagens cativante, ou pelo menos marcantes, esse romance possui um final extraordinário, surpreendente de se ler, pois desafia toda a dicção que o livro assumira até ali. Além disso, o final, como todos os finais de Goethe, suscita inúmeras possibilidades de reflexão sobre a natureza, sobre o ser humano e sobre a civilização. 

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