10.5.16

A consciência de Zeno, de Italo Svevo

A consciência de Zeno, escrito por Italo Svevo. 

Editora: Nova Fronteira
Páginas: 400
ISBN: 852092378X
Tradução: Ivo Barroso
Pouco depois do fim da Primeira Guerra Mundial, Italo Svevo começou a elaborar A consciência de Zeno , sua obra-prima. Graças ao conhecimento que tinha das teorias psicanalíticas, o romancista desenvolveu uma análise psicológica de extrema profundidade mediante a representação interior da neurose do narrador-protagonista, e lançando mão de técnicas narrativas bem modernas, conseguiu transmitir ao leitor o poder sugestivo do pensamento e das recordações.

O romance começa com o prefácio de um médico, Dr. S, que se identifica como o médico que é citado no livro diversas vezes de forma pouco elogiosa. Ele conta que sugeriu ao seu paciente nas sessões de psicanálise que escrevesse uma autobiografia como parte do seu tratamento e que o resultado só não foi melhor porque o paciente curou-se. E o médico acrescenta "publico-as (as memórias do paciente) por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento". Esse médico chantagista e esse prefácio cômico já dão início ao tom de toda leitura de A consciência de Zeno.

Zeno é uma versão europeia de um Brás Cubas (Memórias Póstumas de Brás Cubas) e um Leonardinho (Memórias de um sargento de milícias). Totalmente mimado, incompetente para tudo, não termina nada, não toma decisões sozinhos, obedece as convenções burguesas e é bem seguro na posição de patriarca. Ele confessa seus delitos e se auto inocenta, só age em benefício próprio, quando ajuda alguém se vangloria de seu imensurável altruísmo ou deixa escapar uma segunda intenção por trás. Após o prefácio, há o preâmbulo em que ele fala sobre a atividade da escrita proposta pelo médico e em seguida se abre o primeiro capítulo, o fumo, sua doença que precisa ser tratada. Além do vício no cigarro, sua vida é cheio de promessas de últimos cigarros e ele não consegue se livrar nunca nem do cigarro, nem das constantes promessas que vai parar. O segundo capítulo é sobre sua relação com o pai. O terceiro capítulo sobre como foi seu casamento. O quarto sobre sua amante. O quinto sobre a sociedade comercial que faz com o cunhado. Assim se articulam os eixos centrais da obra e também nos quais se articulam a sociedade burguesa patriarcal do final do século XIX e do início do século XX: a doença, o pai, o casamento, a amante e o dinheiro. A segunda parte do romance, consideravelmente mais curta, parece mais um diário, se divide em três datas quando Zeno já está velho e a primeira guerra mundial já se iniciou.

Trata-se, logo, de como a experiência de guerra de 1914 que colocou em dúvida todos os valores políticos e sociais da sociedade do século anterior, pois o livro é escrito após a guerra. Existe na narrativa um questionamento constante das convenções sociais que são sempre postas como naturais. Entretanto, esse questionamento é feito com muito humor, pois Zeno não é o cara que questiona ou duvida de tais convenções, mas que se utiliza dela da maneira mais intensa, mostrando como elas eram/são problemáticas, e por vezes, violentas. Zeno têm amantes, chama os filhos de macacos, tem acessos de raiva e descontrole, tem desejo de matar algumas pessoas e mesmo assim é visto sempre como um homem ótimo e completamente adequado àquilo que um homem do seu tempo deve ser. Essa mau caráter à la Brás Cubas tem ainda muita sorte à la Leonardinho, pois tudo o que ele faz, mesmo de ruim, é acobertado, perdoado, diminuído. Outro caráter particular da obra é seu espaço, pois Zeno, assim como o próprio Svevo, nasce e mora na cidade de Trieste, que pertencia ao Império Austro-Húngaro, tinha um dialeto próprio e vira pose italiana após a guerra. No romance, Zeno mostra como troca entre o dialeto, o italiano e o alemão a depender da situação. Assim, além das convenções sociais a guerra colocou em questão relações de pertencimento identitário também.

A relação com a psicanálise é, como fica claro desde o prefácio, muito forte. O título fala da "consciência de Zeno", mas o romance caminha mais para o "inconsciente de Zeno". Então, conforme o próprio Zeno vai narrando sua vida, como roubava dinheiro do pai para comprar cigarros, como o pai o achava um avoado, como numa mesma noite pediu três moças em casamento, como ele próprio afastou a amante de si sem querer, como ele e o cunhado só faziam besteiras nos negócios e criaram prejuízos enormes, o leitor participa ativamente da interpretação de que maneira isso é real ou não, de que maneira suas atitudes eram conscientes ou inconscientes, como as relação interpessoais parecem muito mais complexas do que a maneira banal com que ele as descreve, etc. Não é um livro de realidade fixa, imutável, é um livro que precisa de um leitor ativo para duvidar das supostas "realidades" contadas por esse narrador.

Profundo nas questões que mobiliza, um final in-crí-vel, passível de inúmeras interpretações, muito cômico e bem-humorado. Svevo era muito amigo de James Joyce e, ainda que na Itália o livro tenha caído rapidamente no silêncio, fora dali o romance foi bem acolhido graças a Joyce que via em Svevo um dos grandes nomes da literatura moderna. E o Sr. Joyce tinha razão sobre muitas coisas.

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