8.4.16

Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus


Quarto de Despejo, escrito por Carolina Maria de Jesus

Editora: Ática
Páginas: 184
ISBN: 8508043635
Quarto de Despejo é um diario. Escrito dia a dia. Caderno e mais caderno cheios pela letra de uma mulher. Recheados do cotidiano autêntico, vivido. A luta pela sobrevivência como ela é, em todos os "quartos de despejo" do mundo, à margem das grandes cidades. Quarto de Despejo é mais que isso. É reportagem, é romance, é história de um grupo humano em certa época do mundo. É a voz do povo, patética, lírica, sentimental, forte e inesquecível. 
NOTA DOS EDITORES
Esta edição respeita fielmente a linguagem da autora que muitas vezes contraria a gramática, mas que por isso mesmo traduz com realismo a forma de o povo enxergar e expressar seu mundo.

Quarto de Despejo é um soco no estômago. Reunidos os escritos em forma de diário de Carolina Maria de Jesus, pobre, negra, mãe e favelada temos um retrato social sob a ótica do oprimido.
O cenário é a extinta favela do Canindé, localizada às margens do rio Tietê, na década de 1960.

Descoberta pelo jornalista Audálio Dantas em uma visita à favela, que ficou encantado com o senso crítico da autora, Carolina teve a o oportunidade de lançar seus livros enquanto enfrentava o árduo cotidiano de catadora de papel.

...Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando.
A criticidade e lucidez de Carolina mostram a sua consciência e indignação em estar submetida dia a dia à mais miserável das condições, sua batalha diária para conseguir alguma comida para seus filhos. Pelos seus relatos muitos dos favelados não tinham essa indignação, coisa que pouco contribuía para a melhora de suas vidas. 

Não tinha gordura. Puis a carne no fogo com uns tomates que catei lá na Fábrica Peixe. Puis o café e a batata. E agua. Assim que ferveu eu puis o macarrão que os meninos cataram no lixo. Os favelados aos poucos estão convencendo-se que para viver precisam imitar os corvos.

Carolina Maria de Jesus
[Fonte]

Não é fácil vencer as poucas páginas desse livro. Partilhar da angústia, do desespero, em alguns momentos da falta de esperança de Carolina, tem um peso e um desconforto muito fácil. Encarar essa realidade tão brutal, ainda tão presente no cotidiano das favelas brasileiras, é angustiante e desconfortável.

Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo. Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas. Tão diferentes da favela. As casas com seus vasos de flores e cores variadas. Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da America do Sul está enferma. Com as suas ulceras. As favelas.

Apesar dos momentos de descrença Carolina ainda tem esperança na melhoria de sua condição. Mãe solteira, seus três filhos foram os responsáveis pela ansiedade em mudar de vida. A literatura também foi de fundamental importância para a sua vida. O repouso e a fantasia da ficção conseguiram afastá-la de sua cruel realidade e impulsioná-la a ser quem desejava.
Quando cheguei em casa era 22,30. Liguei o radio. Tomei banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.

É difícil escrever sobre esse livro sem novamente me emocionar. Certamente foi um divisor de águas em minha vida e me abriu os olhos para muitas coisas. É um livro de fundamental importância na literatura brasileira e um marco na literatura feminina no país.
Apesar dos seus erros gramaticais de sua obra Carolina é uma das maiores escritoras brasileiras, jamais se resignou às condição que sua vida lhe impunha, saber ler foi uma das maiores conquistas e nos deixou um grande retrato social sob uma perspectiva até então inédita.

Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.

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