21.4.16

Os moedeiros falsos, de André Gide

Os moedeiros falsos, escrito por André Gide

Editora: Estação Liberdade
Páginas: 424
ISBN: 978-85-7448-160-9
Tradução: Mário Laranjeira
“Romance de um romance que se escreve”, como diria o protagonista. Com estilo notoriamente refinado e inovações que marcaram época, Gide prescinde da cronologia e estrutura narrativa tradicionais. Para tanto, Gide concebe um herói, o escritor Edouard, que lhe é muito próximo, e o contrapõe a Bernard Profitendieu, que a seu jeito é igualmente um personagem-modelo. Os moedeiros falsos não são, para Gide, apenas os jovens que escoam dinheiro fraudulento, mas os falsários no espírito e na letra, todos os que vivem na mentira de sentimentos falsos.

Gide declarou que o único romance que escreveu efetivamente foi Os Moedeiros Falsos. Algo para se pensar, pois é difícil aceitar que Os Moedeiros Falsos fique junto dos "romanções" clássicos, como Madame Bovary, Orgulho e Preconceito, Grandes Esperanças ou Ilusões Perdidas. Essa questão é colocada pela por um dos principais personagens do livro, Édouard, que é um escritor moderno e está no dilema de como escrever um romance, como inovar a forma? Como seguir a tradição?

Outro ponto é que normalmente os romanções têm um protagonista cujo processo de formação e aprendizagem é a matéria da narrativa. Os Moedeiros Falsos têm três personagens que recebem uma atenção maior, Bernard, Olivier e Édouard. porém o título leva em conta o dilema de outro personagem, Georges, e o acontecimento mais emocionante de toda história que ocorre nas páginas finais envolve um quinto personagem. E nenhum deles passa por uma formação ou aprendizagem como passam Oliver Twist (Oliver Twist - Charles Dickens) ou Marianne Dashwood (Razão e Sensibilidade - Jane Austen).

Mais um contraste da afirmação de Gide com a realização de sua obra é que no romance tradicional o narrador normalmente é onisciente, sabe tudo o que acontece e sabe o que as personagens pensam. Quando Os Moedeiros Falsos começa o narrador até parece assim. Mas logo sua narração é interrompida pelo diário de Édouard, onde este se torna o narrador. Ali Édouard conta que está escrevendo seu romance chamado "Os Moedeiros Falsos" e no meio do seu diário há trechos desses romance. O primeiro narrador volta mas é novamente interrompido por um carta de Bernard para Olivier. O último acontecimento que esta carta conta é retomado novamente no diário de Édouard que fica em contraste com o que se segue, uma carta de Olivier para Bernard. Quando o narrador em terceira pessoa volta ele diz que não sabe explicar porque tal personagem decidiu fazer tal coisa. Ou seja, não há uma realidade objetiva do que acontece como se tem em Balzac ou Flaubert, porque o próprio narrador não dá a certeza dos acontecimentos. E essa ideia de um livro dentro do livro dentro de outro livro é o que os franceses chamam "mis en abîme", "em abismo", onde as coisas se encaixam uma dentro da outra até o infinito como as bonecas russas em que não sabemos mais qual dos romances estamos lendo.

A história começa em Paris quando Bernard decide sair de casa porque descobre não ser filho legítimo de seu pai. Inicialmente ele se refugia na casa do melhor amigo, Olivier, que é completamente apaixonado por ele. Édouard é o tio de Olivier e vem para Paris para ajudar uma amiga, Laura, que está com grandes problemas, pois engravidou do irmão de Olivier, Vincent, mas ela já era casada. Édouard parte para Suiça com Laura e Bernard para ajudar também um outro velho amigo a rever seu neto, Boris, que tem um papel bem importante no todo do romance. Enquanto isso Olivier fica na França engajado no projeto de edição de uma revista de literatura chamada, "Avant-garde", "Vanguarda". Édouard está sempre empenhado na escrita do seu romance, contudo seu projeto parece impossível e irrealizável. Nisso, há a história do amigo de Édouard que deseja reencontrar o neto, há a história deste neto e sua paixão por uma amiga, das relações de Vincent, do planos do presidente da revista que Olivier participa, do outro irmão de Olivier, Georges, que parece seguir por um caminho duvidoso, do pai de Bernard que quer revê-lo e assim por diante. Inúmeros personagens vão penetrando no enredo de forma o encaixe de todas essas situações vão levando ao leitor para o lugar da incerteza absoluta de qual poderia ser o fim de tudo isso.

Logo, vê-se que o romance (?) de Gide trabalha com a liberdade. Primeiro, a liberdade da forma do romance, tentando inová-la ou contestá-la. Em segundo lugar, com essa liberdade na construção da narrativa. E assim como a forma e o conteúdo desafiam as regras de composição e caracterização do romance, as personagens também são constituídas numa lógica de liberdade e de questionar as convenções sociais estabelecidas. Bernard vê o fato de ser um bastardo como uma liberdade; ele e Olivier estão envolvidos de maneira homoerotizda; Laura, embora casada, envolveu-se com um outro homem, enquanto seu amor era ainda de um terceiro; Sarah, irmã de Laura, julga que o erro da irmã foi casar-se, quer ser livre acima de tudo, desafia e contesta todos os padrões que lhe são sujeitados por ela ser mulher, entre outros. O livro traz uma ideia bem moderna de mundo e mostra como, já nos anos de 1920, as regras sociais estabelecidas e dadas como naturais já não faziam sentido e não completavam os indivíduos, como as tradições e as convenções não são sinônimos de civilização desenvolvida, boa e próspera, mas podem muito bem justificar a barbárie.


O livro de Gide não é complicado na leitura, nem em português, nem em francês, diferentes de outros livros da mesma época, como Ulisses de James Joyce. Os Moedeiros Falsos tem uma leitura bastante acessível e agradável e, por traz de muitos diálogos que parecem fortuitos, possui uma grandeza reflexiva e narrativa. 

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