17.4.16

O deserto dos meus olhos, de Leon Idris

Publicação independente
Páginas: 456
ISBN: 978-85-919724-0-1
Rupert Lang só tem lembranças do que não viveu. Nas entrelinhas do papel em que escreve diariamente, ele busca encontrar o que restou de sua identidade perdida. O leitor de seus escritos é sua única companhia, um confidente capaz de guiá-lo de volta ao que ele foi um dia. Como um romance histórico encerrado numa única mente, o caminho a ser trilhado envolve acontecimentos não registrados nos livros de História; passagens pela corte espanhola do reinado de Isabel II, pelas ruas da Praga de Johannes Kepler e pelos corredores de um templo budista construído em um penhasco na China. Aquilo que poderia ter sido vivido e aquilo que se suspeita partir da imaginação recebem igual valor, desafiando o leitor a confiar no caos e a encontrar respostas e verdades no inverossímil – ou apesar dele.
Rupert Lang é um escritor que precisa nos contar alguns acontecimentos pelos quais passou. Junto de seu fiel escudeiro, o estilista Benjamin, ele passa por aventuras repletas de significados históricos. Mas, engana-se quem começa a leitura pensando que o tempo e o espaço serão lineares  pelo contrário: somos (não somente os leitores, mas também os personagens) levados a diversos lugares e anos que não parecem estar numa linha de raciocínio que faça sentido. Na realidade, tudo isso começa de forma bem tênue até percebermos, lá pelo capítulo três, que tudo mudou de forma repentina. É nessa confusão de tempos e histórias e personagens secundários que Rupert, Benjamin e também alguns outros personagens importantes para o enredo (e que estão presentes de formas diversas em todos os ambientes narrados) serão inseridos sem explicação. É apenas com o passar das situações que apenas Rupert terá noção do todo que está ocorrendo. Aos poucos, portanto, ele descobrirá o mistério que envolve a descontinuidade de sua vida, sobretudo quando alguém extremamente importante se apresenta: o Arlequim, a representação de sua consciência.

Justamente por esta personagem tão interessante existir no enredo é que começamos a notar o teor psicológico do livro: ele não trabalha apenas com o superficial, as ações e aquilo que acontece no plano das aventuras; a maior e melhor característica dele é sobressaltar o psicológico não apenas dos personagens, mas também de quem está escrevendo. O deserto dos meus olhos não é um livro de leitura fácil, é exatamente o contrário disso, o que podemos notar até mesmo no significado do título, que está presente em uma das passagens, mas que não necessariamente explica o porquê dele­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­ – temos apenas pistas, e a interpretação é deixada por conta do leitor.­­­­­­­­­






Nas diversas situações pelas quais Rupert e Benjamin passam, o leitor é convidado a interpretar, pois está a todo momento tentando entender tudo o que se passa. É só depois da metade do livro que, começando a entender o mistério por trás de tudo, poderá analisar a existência desses protagonistas. Incluo Benjamin na categoria de personagem muito importante para o enredo, até mesmo daquela que é fundamental para a narrativa, porque até mesmo ele se questiona disso num determinado momento do livro. E, claro, por ser essencial para todo o enredo. Além dele, outra que sempre está presente é a Dolores, mesmo com sobrenomes variados (mas o seu nome fixo é um bom indício do que ela representa para Rupert), uma figura feminina extremamente importante para o escritor, o que será notado desde o início. Suas diversas facetas será apenas compreendida com o final do livro. Há, ainda, duas personagens vilãs que surgem violentamente e sempre associadas a imagens impressionantes, assustadoras eu diria, como estupro e decapitação.

Alguns temas, como o budismo, estão presentes em várias passagens do livro, e contribuem para fortificar o enredo, que é muito bem construído, assim como as personagens. Tudo servindo para o grande propósito (ou mistério), que é o que mantém o leitor curioso até as últimas páginas. Esta foi uma leitura surpreendentemente maravilhosa, que me cativou e fascinou facilmente, e que serve como exemplo de como a literatura contemporânea nacional pode conter uma escrita muito boa (porque, vale ressaltar, é uma publicação independente cuja revisão e editoração ganha de lavada da de muitas editoras) e um enredo repleto de imaginação e de questionamentos significativos.

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