11.4.16

Festa no Covil, de Juan Pablo Villalobos

Festa no Covil, escrito por Juan Pablo Villalobos

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 96
ISBN: 8535920269
Tradução: Andreai Moroni

Em 'Festa no covil', a vida íntima de um poderoso chefe do narcotráfico - Yolcault, ou 'El Rey' - é narrada pelo filho. Garoto de idade indefinida, curioso e inteligente, o pequeno herói, que vive trancado num 'palácio' sem saber a verdade sobre o pai, reconta sem filtros morais o que presencia ou conhece pela boca dos empregados ou pela televisão. Seu passatempo é investigar secretamente os mistérios que entrevê, colecionar chapéus e palavras difíceis e pesquisar sobre samurais, reis da França e animais em extinção, sempre com o auxílio de seu preceptor - um escritor fracassado egresso da esquerda. Esse pequeno príncipe, tão mimado quanto privado de infância, tem um desejo obsessivo - completar seu minizoológico particular com o raríssimo hipopótamo anão da Libéria. Reveses nos negócios paternos e a conveniência de o grupo abandonar o México por um tempo acabam tornando realidade o safári para capturar o tal hipopótamo em risco de extinção.

O título e a capa laranja brilhante fazem parecer livro de criança. O que se esperar de um livro que tem um título tão esquisito quanto Festa no Covil com caveiras desenhadas na capa? Aquelas comédias pouco engraçadas cheias de vampiros? Não. Espere um livro fantástico!

Festa no Covil é geralmente classificado como narcoliteratura, ou seja, uma literatura ligada ao retrato de situações e contextos do narcotráfico, nesse caso, do narcotráfico mexicano. Logo, a aparência de livro de criança já cai por terra, afinal é impossível misturar narcotráfico e criança. Errado! O narrador de Festa no Covil é uma criança, um menino que é filho de um grande e importante traficante mexicano. Entretanto, crianças narrando situações sérias não é novidade para ninguém, visto o mundialmente amado O menino do pijama listrado com a criança e sua inocência no meio da brutalidade do nazismo. Esse menino mexicano não tem nada do menino europeu de O menino do pijama listrado. Ele é sério, extremamente inteligente, sabem que as pessoas entram dentro da sua casa e não saem mais, que o pai cala as pessoas que não o respeitam, não chora pela mãe porque isso é coisa de maricas, ele tem uma lista fixa de palavras para fazer um julgamento de qualquer coisa, coleciona chapéus, quer ser um samurai, admira os franceses por eles cortarem a cabeça dos reis e tem em casa um próprio zoológico com animais ferozes que comem os restos daqueles que o pai cala. Ele não trata o pai por "pai", mas pelo seu nome, tem a cabeça raspada como o pai, repete os palavrões e o julgamentos que o pai faz dos outros. Nas primeiras linhas o livro quebra com o estereótipo da criança inocente e pura que temos calcado no imaginário coletivo, pois esse menino fala como um adulto, completamente naturalizado e sem nenhum estranhamento do contexto violento em que vive.

Felizmente, não se trata aqui também de um livro moralista. Não tem uma lição de moral de como o narcotráfico é ruim e seus envolvidos são culpados e violentos a ponto de corromper uma pobre criança inocente. O pai do menino, apesar de rigidez e dos duros padrões que mantém com o menino, é o que se chamaria de um pai atencioso, que faz e dá tudo o que menino precisa e quer. Quando o menino decide não falar mais com o pai, este se angustia com o distanciamento do filho e de não poder mais dar o que ele precisa. Sua atenção e preocupações com o filho são tão intensas que ele vai até Libéria buscar o que o menino mais quer: um hipopótamo anão da Libéria.

Desta maneira, a criança não é a criança senso comum, assim como o narcotráfico não tem o julgamento do senso comum. Essa desconstrução fica mais complexa, pois mesmo a postura do menino e seu modo de se expressar lembrar o de um adulto, os desejos impossíveis como o hipopótamo anão, a mania de repetir palavras, o desejo de ser um samurai, o hábito de colecionar chapéus e de achar que só pode fazer alguma coisa se estiver usando um chapéu adequado são comportamentos típicos de criança, mas ficam nuançadas por esse contexto bizarro de ser um filho de um traficante milionário.

O menino vive fechado numa mansão que ele chama de "palácio", seu maior contato com o mundo fora da casa se faz pela tevê, meio pelo qual ele escuta muitas vezes o nome do pai. Ele não convive com nenhuma outra criança e sua sociabilização se dá com os empregados da casa, os seguranças do pai e com seu preceptor. Esse é um personagem muito importante, um escritor fracassado com ideias de esquerda, que se indigna com aquele mundo de poder e violência, mas que também se indigna com qualquer forma de injustiça e vê que a violência não é só o narcotráfico que transgride a lei, mas também a exploração capitalista que a lei encoberta.

O livro todo trabalha nessa lógica de desconstrução, desfazendo julgamentos de senso comum e maniqueístas. O que Juan Pablo Villalobos traz, por meio dessa mistura de conversa de gente grande e história de criança, é uma perspectiva mais dialética sobre os problemas políticos e sociais ligados à identidade do México e da América Latina.

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