16.4.16

A Revolta da Cachaça, Antonio Callado

A Revolta da Cachaça, escrito por Antonio Callado

Editora: José Olympio
Páginas: 126
ISBN: 9788503012669
Livro cedido pela editora em parceria com o blog


Uma homenagem a Grande Otelo, a peça compõe o teatro negro de Antonio Callado ao lado de, entre outras, Pedro Mico.
Vito e Dadinha, um dramaturgo e sua esposa, ambos brancos, recebem a visita inesperada de Ambrósio, ator negro e antigo amigo do casal. O visitante leva um presente pouco comum, um tonel de cachaça para regar uma conversa cada vez mais confusa entre os três. Ambrósio tem um objetivo: convencer Vito a terminar a peça que o amigo dramaturgo lhe prometera e na qual seria protagonista. Incômoda, irônica e necessária ainda hoje pela atualidade das questões que apresenta, A revolta da cachaça aborda a situação do ator negro no Brasil. 


Revolta da Cachaça foi o período histórico que ocorreu entre 1660 e 1661 no Brasil sendo motivada pelo aumento dos impostos cobrados aos fabricantes de aguardente. A rebelião foi encabeçada por fazendeiros e escravos, e um dos homens de destaque dessa revolta foi do negro João de Angola.

Foi esse o papel prometido por Vito, dramaturgo, ao seu amigo ator negro Ambrósio. A peça que deveria se chamar "A Revolta da Cachaça" e traria Ambrósio como ator principal nunca saiu do papel e durante 12 anos Ambrósio esperou pacientemente sua peça prometida, que alçaria sua carreira dedicada a papéis secundários.

Peço, peço! Peço a peça! (se ajoelha) Me dá a peça, Vito! Não aguento mais ser copeiro, punguista e assaltante. 

Ambrósio chega de surpresa na afastada casa em Petrópolis do amigo e está determinado a deixá-la apenas quando tiver com sua peça em mãos.

Regados à cachaça trazida por Ambrósio, Vito, Dadinha e Ambrósio travam um diálogo que vai do amigável e torna-se tenso quando Ambrósio, já embriagado, expõe as situações em que precisa se submeter enquanto negro e acusa Vito de não terminar a peça por justamente não precisar ter um protagonista negro numa peça sua.

Eu vou te dizer uma coisa. Se esta cor de carvão não me atrapalhasse na minha carreira, eu estava cagando pra ela, palavra.

Ambrósio não mede palavras para ao expor sua revolta pessoal, onde precisa diariamente passar por situações incômodas ao ser negro e cutuca sem pudor a hipocrisia do amigo e sua esposa.

Essa peça, aliás, faz alusões a situações vividas pelo próprio Antonio Callado que escreveu diversas peças com protagonistas negros, mas tendo várias delas encenadas por atores brancos pintados de pretos, situação conhecida como blackface no teatro. Essa situação deixou o autor bastante incomodado e em "A Revolta da Cachaça" ele usa a metalinguagem para expor a situação vivida pelos negros no teatro.

Eu procuro sempre andar meio almofadinha, como se dizia antigamente. Crioulo tem que andar com ar de quem é troço na vida, de quem tem grana no banco e erva viva no bolso. Se ele não se enfeita e de repente pinta uma cana - quem é o primeiro a entrar no camburão? Até o negro se explicar...

A peça é cheia dessas referências vividas por Callado, proferidas pelo negro Ambrósio afim de incomodar brancos que são hipócritas em situações onde precisam por à prova seu preconceito.
Outra situação que Ambrósio questiona é o fato de Dadinha que era sua namorada na época em que ambos conheceram Vito, e que largou o negro para casar-se com o dramaturgo branco, ou seja, os negros têm sido preteridos em todas as esferas de suas vidas.

O prefácio de João Cezar de Castro Rocha e o posfácio de Eric Nepomuceno nos dão um panorama sobre a vida e obra de Antonio Callado. O autor sempre foi engajado em questões sociais e sempre lutou pelo direito dos negros no teatro, escrevendo várias peças abordando a questão, sendo essa parte da sua obra conhecida como teatro negro.

O livro, da década de 1980, faz-se ainda muito atual. Vimos que campanhas como #OscarsSoWhite denunciaram esse ano a falta de oferta de papéis e a consequente falta de indicações de atores não brancos em Hollywood.
No Brasil a situação também é semelhante. Como denuncia o ator da peça os negros ainda são limitados a papéis subalternos e secundários. A questão da representatividade tem vindo a tona com grande força e livros como esse nos prova que, infelizmente, não é recente o descaso que a questão é tratada por um grupo de pessoas.

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