2.3.16

Rumo ao Farol, de Virginia Woolf

Rumo ao Farol, escrito por Virginia Woolf

Editora: Autêntica
Páginas: 234
ISBN: 8582171986
Tradução: Tomaz Tadeu
'Ao Farol' é a história de um casamento e de uma infância. É um lamento de dor pela perda de pais fortes e amados. Virginia Woolf queria chamá-lo 'elegia' em vez de romance. O livro também diz respeito à estrutura de classe inglesa e à radical ruptura com o vitorianismo após a Primeira Guerra Mundial. Ele é a expressão da urgente necessidade de uma forma artística que pudesse registrar e adaptar-se a essa ruptura. Ele é todas essas coisas ao mesmo tempo.

Assim como Mrs. Dalloway, As Ondas, Orlando e outros romances da mesma autora, Rumo ao Farol é difícil de resumir e explicar enumerando os acontecimentos. Uma tentativa frustrada disto seria: uma família londrina e alguns conhecidos estão passando um tempo numa casa à beira-mar onde há vista para um farol. Eles pensam em ir ao farol no dia seguinte, mas tudo indica que haverá uma tempestade. O filho mais novo, dos oitos filhos do Sr. e da Sra. Ramsay, James, fica insistindo na ideia de ir ao farol. O pai, um intelectual taciturno, provoca o menino dizendo que será impossível, enquanto a mãe tenta lhe dar esperança. Junto com este casal, há Lily Briscoe, uma moça que pinta quadros e que a Sra. Ramsay espera que se case com Willian Blake, um outro visitante. As crianças mais novas vão dormir enquanto os Ramsay vão jantar com seus convidados. Entre eles também há o Sr. Tansley, um pedante, o Sr. Carmichael, um poeta, Minta e Paul Rayley que ficam noivos antes do jantar. Minta perde um broche que era herança de sua avó na praia e todos vão ajudá-la a procurar. Os anos passam, a Primeira Grande Guerra acontece e destrói esta vida antes conhecida. O tempo transforma a casa à beira-mar em ruínas. Anos depois James e Cam, uma outra filha, voltam ao Farol com seu pai. Lily Briscoe também volta e tenta pintar a paisagem, enquanto o Sr. Carmichael dorme.
Então, sob a cor havia forma. Podia ver isso com clareza, imperiosamente, quando olhava; quando pegava no pincel é que tudo mudava. Era nesse vôo momentâneo entre a paisagem e sua tela que os demônios a possuíam, levando-a à beira das lágrimas. (p.23)

Tais acontecimentos assim colocados nem parecem assuntos proveitosos para nenhuma narrativa. Entretanto, Virginia Woolf transforma o realismo do romance tradicional e propõe uma nova perspectiva de romance (ou a destruição dele) em que há uma fusão do próprio espaço com o espaço interior do personagem, o tempo se passa por meio dos pensamentos e das emoções individuais e suas reações ao mundo são mais fortes e mais importantes que desenrolar de fatos na narrativa. Assim como em Mrs. Dalloway, Rumo ao Farol faz largo uso do fluxo de consciência: a escrita tenta reproduzir o processo de articulação do pensamento individual. Mas mais que uma inovação formal, isso transforma a compreensão e a interpretação da obra. A Sra. Ramsay levanta a cabeça e olhar para seu marido, e deste olhar desperta sentimentos e julgamentos que até então estavam escondidos, até para ela mesma. Isto faz tudo ficar muito subjetivado e ambíguo, logo os fatos, que enumerados nem parecem fatos, se interpretados por meio de tais particularidades, transformam-se em grande acontecimentos, onde tudo muda. Então, o romance que nem aparenta ter história a ser contada, apresenta um clímax terrível e uma catarse profunda.

O livro se divide essencialmente em três partes: A janela, onde se concentram "os fatos" até o momento do jantar; O tempo passa, onde os personagens quase não aparecem, somente uma emprega que é praticamente uma parte do espaço e o este é o personagem principal dessa parte. É por meio do espaço que se mostra a passagem do tempo e a transformação do mundo devido à Guerra. E por fim, Ao farol, comportando a cena de volta dos personagens ao farol anos depois. O tempo passa é bem distinto das outras duas partes e também bem mais curto, contudo é a parte do meio não por acaso, mas porque sucinta a ideia central de ruína que o romance transmite, ruína das relações familiares e amorosas previamente postas, dos valores do século anterior, de uma ideia de honra, progresso e coragem e do próprio conceito de indivíduo que havia sido construído pela ideologia burguesa ao longo do século XIX. Assim como o modelo calcificado de romance é destruído no âmbito da forma, o conteúdo da obra traz como a Guerra destruiu muito do que havia nas sociedades europeias até então.


Além de incrível pelas possibilidades de compreensões que apresenta, o livro é lindo de se ler e provoca um prazer estético singular. As descrições da praia, das ondas, do farol, do espaço da casa na velhice e em ruína e do próprio quadro que está sendo pintado por Lily Briscoe são de uma delicadeza e sensibilidade agudas que entram no interior dos próprios personagens e por fim do próprio leitor. Obviamente não se trata de uma leitura super fácil, mas ela mobiliza, no palco da mente do leitor, cores e sensações belíssimas e complexas. O personagem, o espaço e o leitor se misturam e perdem suas fronteiras.
Era como se a água fluísse e fizesse com que os pensamentos estagnados em terra firme deslizassem por ela e dessem até mesmo a seus corpos uma espécie de alívio físico. Primeiro, o movimento da cor inundava a baía azul e o coração expandia-se com ele e o corpo nadava, para somente no instante seguinte ser reprimido e enregelado pela cortante escuridão das ondas inquietas (...) enquanto esperava por ela, via-se, na pálida praia em semicriculo, onda após onda derramar continuamente uma névoa suava em tons de madrepérola. (p.24)

Sobre as edições:

Eu li numa edição antiga da Biblioteca da Folha de São Paulo, hoje só disponível em sebos mas bem rara de encontrar, que tem uma capa de proteção laranja para a capa dura azul claro. A capa azul é uma característica dessa coleção, todos os livros são assim, com o título escrito em preto na lombada, sem mais nada, apenas com as capas de proteção coloridas com alguma pequena ilustração. Recentemente foi lançada uma nova edição da editora Autêntica com um belo projeto editorial. Ambas as traduções são boas e recomendáveis, a primeira traduziu o título como "Rumo ao Farol" e a segunda preferiu por "Ao Farol". Há, também, uma edição bilíngue da editora Landmark. Não posso afirmar isso precisamente para este romance, mas as traduções desta editora costumam ser bastante problemáticas. Logo, melhor ficar atento. 

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