11.3.16

O Menino Grapiúna, Jorge Amado

O Menino Grapiúna, escrito por Jorge Amado

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 88
ISBN: 9788535916607

No sul da Bahia, o menino Jorge Amado testemunhou o nascimento de cidades, as guerras pela posse da terra, o florescimento de uma cultura e de uma mitologia. Nesse mundo rude conturbado, de muita vitalidade e quase sem lei, forjaram-se a sensibilidade e os valores do futuro escritor.
Esse processo de formação, entre jagunços, coronéis, malandros e prostitutas que serviriam de modelo a muitas de suas criações literárias, o autor evoca aqui com as cores vivas e o humor caloroso a que estão habituados seus leitores.
São personagens inesquecíveis, como o aventureiro tio Álvaro Amado, que o levava às mesas de jogatina e aos bordéis; o jagunço José Nique e o padre Cabral, que apresentou ao pequeno Jorge as Viagens de Gulliver e os livros de Charles Dickens.
Jorge Amado também adquiriu nesses primeiros anos seu inquebrantável amor pela liberdade, sobretudo quando se viu privado dela, ao ser enviado a um internato jesuíta.
Não por acaso, estas breves memórias se encerram com a fuga espetacular do internato: "Fugi no início do terceiro ano, atravessei o sertão da Bahia no rumo de Sergipe, iniciando minhas universidades". O aprendizado elementar da vida já estava completo, e é ele que Jorge resgata neste livro encantador, publicado originalmente em 1981.

Memórias romanceadas nos revelam, sob o olhar do próprio autor, a infância de Jorge Amado.
O livro curtíssimo, de linguagem simples, narrado em terceira pessoa - Jorge Amado refere a si mesmo em diversas partes como "o menino" - e em primeira pessoa, nos releva onde nasceu, viveu, suas aventuras e dificuldades desde seu nascimento à sua pré-adolescência.

Seu pai, um dos desbravadores entre tantos, mudou-se de Sergipe para a região que seria posteriormente conhecida como Zona do Cacau, vendo nascer os povoados e crescendo em meio à vadiagem, o autor nos conta alguns personagens que serviram de inspiração para os seus romances.

Que outra coisa tenho sido senão um romancista de putas e vagabundos? Se alguma beleza existe no que escrevi, provém desses despossuídos, dessas mulheres marcadas com ferro de brasa, os que estão na fímbria da morte, no último escalão do abandono. Na literatura e na vida, sinto-me cada vez mais distante dos líderes e dos heróis, mais perto daqueles que todos os regimes e todas as sociedades desprezam, repelem e condenam.

A dura realidade de um local ainda em formação no início do século XX foi essencial para a formação do menino e teve reflexos em toda a sua obra. Epidemias de varíola, a luta do cangaço com a polícia, a falta de emprego, o banditismo, a prostituição e a miséria das pessoas estiveram próximas às realidade de Jorge Amado em sua infância.

Situações cômicas, recheadas de regionalismos e crenças também fizeram parte da vida do autor. Como a vez em que seu tio Álvaro, uma das figuras que mais o inspirou, trouxe de Sergipe água milagreira de Nossa Senhora do Ó e vendeu ao povoado para curar as mais diversas doenças.

Ao final da narrativa, Jorge Amado nos conta como o internato, do qual ele fugiu, foi essencial para o seu descobrimento e irremediável paixão pela literatura e os escritores que primeiro lhe trouxeram o amor pelos livros.

No posfácio da edição, Moacyr Scliar descreve Jorge Amado como a Bahia e o Brasil. O leitor que já teve a oportunidade de ler alguma obra do baiano, com certeza concordará com a afirmação de Scliar; Jorge Amado não foi apenas um escritor, ele foi a representação popular do século XX, a memória dos vagabundos, das prostitutas e dos meninos de rua estão eternizadas em sua obra e esse livro é uma deliciosa imersão na formação de um grande escritor.

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