18.3.16

Cenas Londrinas, de Virginia Woolf

Cenas Londrinas, escrito por Virginia Woolf


Editora: José Olympio
Páginas: 84
ISBN: 8503009080
Tradução: Myriam Campelo
'Cenas londrinas' compila seis crônicas - uma delas descoberta somente em 2005, na biblioteca da Universidade de Sussex, e nunca antes publicada em livro - nas quais Virginia Woolf confirma sua paixão por Londres. Escritos entre 1931 e 1932, são textos que, para Ivo Barroso, que assina a apresentação, conseguem 'dar ao leitor a visão de um microcosmo representativo de toda uma nacionalidade'. A obra integra a coleção Sabor Literário - cujo ícone é um cerejinha, o toque especial -que apresenta aos leitores textos inéditos ou pouco conhecidos de grandes escritores. A londrina Virginia Woolf adorava andar pelas ruas de sua cidade, observando anonimamente e admirando o 'encanto da moderna Londres' através dos olhos de grandes homens e cidadãos comuns.

Virginia Woolf é normalmente lembrada como romancista, contudo ela praticara diversos outros gêneros textuais como resenhas, ensaios, cartas, etc. Cenas Londrinas é uma obra que se coloca de imediato como problema, pois não pertence a nenhum desses gêneros fixos. Não são muito bem contos, não são muito bem crônicas, não são descrições secas, não são novelas. O mais perto possível de classificação que podemos chegar é que são realmente cenas.

Trata-se, então, de seis breves cenas que se organizam numa unidade coerente. A primeira chama-se "As docas de Londres": um narrador, que não se faz preciso na sua identidade, vai guiando o olhar do leitor ao longo do Tâmisa, observa os navios que chegam de outras partes do mundo, a mercadoria que eles contém, desvia do lixo que flutua sobre o rio, adentra as vilas operárias, circunda os pináculos das fábricas. Na primeira linha, o narrador sugere que um poeta observa o rio e o horizonte, porém este não se configura como personagem ou presença, ele se torna a forma de observar essa paisagem. Pois, o narrador aqui não tem a secura latente e descritiva de um narrador do século XIX, ele é impreciso e subjetivo nas suas descrições e escolhas de caminhos, tentando configurar uma outra forma de descrever e narrar uma paisagem. Isso converge, por sua vez, que também estamos falando de uma outra paisagem. A Londres de Virginia Woolf é bem diferente das inspiradoras paisagens rurais ou das refinadas paisagens urbanas da belle époque que havia no século XVIII e XIX. Essa Londres é suja, desorganizada onde sobressai o trabalho, o comércio, a mecanização das rotinas e as disputas de classe.

As margens do rio estão crivadas de encardidos armazéns de aparência decrépita, amontoados numa terra que se tornou pantanosa, feita de lama escorregadia. O mesmo ar de decrepitude e decadência esmaga todos. Se uma janela é quebrada, assim continua. Um incêndio que recentemente tisnou um deles fazendo-o prorromper em bolhas não parece deixá-lo mais miserável e infeliz que seus vizinhos. Por trás dos mastros e chaminés, jaz uma sinistra cidade anã de casas operárias. Há guindastes e armazéns em primeiro plano, andaimes e gasômetros enfileiram-se e margeiam uma arquitetura-esqueleto.
Após acres e acres dessa desolação, há subitamente a visão desconcertante ao se passar flutuando e ver uma casa de pedra em meio a um campo verdadeiro, com um grupo compacto de árvores verdadeiras. É possível que haja terra, que tenha havido outrora campo e colheita sob tal desolação e desordem? (p. 21-22)

Essa melancólica, mas profunda e precisa reflexão sobre o panorama da Londres moderna continua na cena seguinte "Maré da Oxford Street". Nossos olhos não estão mais ao lado do Tâmisa pleiteando uma visão ampla, agora a extensão da visão é a extensão de Oxford Street.

Lá nas docas vê-se as coisas em sua frieza, seu volume, sua enormidade. Aqui, em Oxford Street, elas se mostram refinadas e transformadas.(p.31)

Assim, já é possível observar certa coerência entre os textos, como são propositalmente diálogos entre si. Nesse segundo, somos colocados diante dos comércios, dos produtos em promoção, do consumo, dos pacotes de compras que se esbarram, das multidões de Oxford Street. O narrador, novamente misterioso, diz que mesmo que ainda sobrem ali palácios da época de Elizabeth I, esse são "moradias frágeis", "um vigoroso cutucão com a ponta do guarda-chuva pode muito bem infligir um dano irreparável ". Logo, tudo o que culturalmente ainda resta dos outros tempos, de um antiga ordem do mundo, é frágil diante da perversa cidade moderna.

Com o mesmo tom de imprecisão quanto a maneira narrativa, seguem-se as demais cenas. A terceira aborda sobre as "Casas de grandes homens", em especial de Carlyle e Keats. Como a casa diz mais sobre esses homens do que muitas biografias que podemos ler, como a condição de classe social que se vê na sua casa determina o que ele foi e o que ele escreveu.

O quarto texto, "Abadias e catedrais", propõe um contraste entre a catedral de Saint-Paul e a abadia de Westminster:

É lugar-comum, mas não se pode deixar de repetir que a catedral de St. Paul domina Londres. Ela incha como uma grandiosa bolha cinzenta à distância; enorme e ameaçadora, paira sobre nós quando nos aproximamos. Então, subitamente, desaparece. E atrás de St. Paul, sob St. Paul, em torno de St. Paul, de onde não podemos ver a catedral, como Londres encolheu! (p.51)

Nenhum contraste maior poderia haver entre a catedral de St. Paul e a abadia de Westminster. Longe de ser espaçosa e serena, a abadia é estreita e pontiaguda, gasta, inquieta e agitada. (p. 55)

Westminster vai mais longe e é o lugar escolhido para a cena seguinte, "Esta é a câmera dos comuns", em que o narrador coloca em questão as relações de poder e a ideia de espaço "dos homens".



O último texto, "Retrato de uma londrina", foi descoberto em 2005 e adicionado a edição inglesa de The London Scene já existente. A edição brasileira é posterior a inserção desse texto. Fato que é muito importante, pois este dá uma outra configuração ao conjunto da obra. Se até então tínhamos paisagens, agora, como o próprio título já diz, temos um retrato. Mrs. Crowe é o mais próximo de uma personagem que esse livro traz. Entretanto, assim como na pintura, o texto se concentra em mostrá-la nas suas ações rotineiras, na sua tipicidade londrina, nas suas tradições, no seu comportamento que pertence a uma outra época, a uma outra lógica.

A verdade é que não desejava intimidade, desejava conversa (...) A conversa que mrs. Crowe gostava e que a inspirava era uma versão glorificada do mexerico da cidade. A cidade era Londres, e o mexerico era sobre a vida de Londres (p.73)

Mrs. Crowe pertence a uma época e a uma lógica em que os retratos faziam sentido. A Londres de Mrs. Crowe não existe mais. O retrato não se encaixa nas paisagens anteriormente descritas. Mrs. Crowe seria a "típica londrina" de uma época que não é mais a da cidade observada nas docas.

Logo, o livro começa no mais largo, na vista, no panorama, e vai se estreitando. Primeiro toda Londres a partir do rio; depois uma grande rua como Oxford Street, mas um única rua; a casa de artista, espaços privados que se tornaram públicos e parte da cultura coletiva; os espaços religiosos da catedral e da abadia; o espaço de poder da Câmara dos Comuns e por fim, o espaço privado, o espaço individual mesmo que repleto dos mexericos da vida pública. Assim, o livro traz os espaços da cidade, mas não de uma maneira puramente descritiva e decorativa. O que se coloca em questão é como se configura a cidade moderna e como as instituições e as classes sociais se organizam nesse espaço urbano. Atrás do estranhamento desse narrador indefinido e pela ausência de personagem está a particularidade de Virginia Woolf

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo