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Extraordinário Luandino Vieira

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Luuanda Luandino Vieira
26.3.16

Mar de Pedras, de Daniel Barros
Editora: Thesaurus
Páginas: 253
ISBN: 9788540903654
Onde encontrar o livro: Amazon - Editora - Zamboni Books
No terceiro romance de Daniel Barros, Mar de pedras, é narrada a história de Henry Melo, fotógrafo bastante competente que vive numa vila do interior de Alagoas, e é muito querido pelos habitantes. Como de costume, Barros intercala a narrativa com a venturas amorosas de Henry, e elas acabam assumindo um papel preponderante no enredo, visto sob vários ângulos.
A exemplo de Alcides, ele se apaixona por uma mulher bem jovem, a modelo Francesca, o que lhe confere uma visão nova de sua existência quando a moça engravida. Como personagem em si, Henry Melo é muito mais desenvolvido e detalhado que André e até mesmo Alcides. Mar de pedras é uma prova de que a ficção de Daniel Barros está em contínuo progresso e desperta interesse maior a cada página.
Fernando Py 

Mar de Pedras narra a história de Henry Melo, um fotógrafo muito cotado que viaja o Brasil a trabalho. Ele mora em Alagoas, numa vila de pescadores, de frente para o mar. É muito amigo de Antônio, um pescador que é uma espécie de pai-avô para ele, e de Carolina, a neta dele. Ambos cuidam de Henry, sobretudo Carolina, responsável por manter a casa e a rotina do fotógrafo em dia. Os dois vivem negando algum sentimento amoroso entre eles, tendo um ao outro como irmão, e esta é uma situação delicada que irá se problematizar com o passar da narrativa.

Neste vilarejo também vive o padre Francisco, outro grande amigo e conselheiro de Henry. É ele que traz à tona um dos principais temas do livro: a política. Pois o prefeito é alguém muito questionável, visivelmente corrupto e cheio de descaso para com a população; para começar, nem mesmo mora no local, vindo de Maceió quase todo final de semana para, ao que parece, aproveitar a sua casa de veraneio, que fica próxima da de Henry. Diante dessa situação política, e depois de alguns agravantes (como a destruição de parte da vila por uma tempestade), Henry, o padre e os pescadores percebem o quão desfalcados estão por conta da gestão atual - e a ideia de mudar isso começa a surgir, inclusive com a vontade (parece que quase unânime) de  que Henry assuma o cargo de prefeito.

Mas como o próprio fotógrafo diz quando o assunto surge, ele viaja bastante a trabalho. Numa dessas viagens, conhece Francesca, uma modelo muito mais nova que ele, e diferente do que esperava. Ela quebra a sua expectativa, mas de início nada lhe desperta: ele é o típico mulherengo. Admite o quão bonita ela é, mas nenhum sentimento mais profundo aparece então. É apenas num segundo encontro, e com a aprovação de Carolina, que Henry começa a se apaixonar por ela, e os dois logo começam a namorar.

E, sendo mulherengo como é, Henry não deixa sua principal característica de lado. Nesse meio-tempo a mulher do prefeito, Bruna, aproxima-se dele e, sendo os dois insaciáveis, começam a ter um caso. Henry ainda possui um motivo para acrescentar à sua lista: ele quer se vingar do descaso do prefeito.

É sobretudo neste núcleo que o teor erótico se insere. Um dos gêneros do livro é este, pois há várias cenas explícitas de sexo e, inclusive, uma mentalidade bastante sensual de Henry (ele parece ser fissurado por mamilos) que está presente do início ao fim. Tenho dois grandes poréns com esse livro, e um deles se relaciona a isso, pois a diagramação (capa, sinopse, orelhas) não deixam claro que o leitor irá encontrar este tipo de literatura, pelo contrário: diversos amigos que me viram lendo o livro pensaram se tratar de uma literatura de fantasia justamente pela capa induzir o leitor a isso. Já para mencionar o outro problema que tive com o livro, falo aqui dos muitos erros de digitação e de gramática. Um ou outro todo mundo releva, mas o livro é repleto deles, praticamente a cada página, e ele foi revisado.

Um dos pontos positivos que posso ressaltar é a construção dos personagens: eles são sempre verossímeis. Concordando ou não com o final de alguns personagens, como o da Carolina, percebo que a nossa cultura foi muito bem representada no livro, inclusive a nordestina. O machismo e a corrupção está presente durante toda a história e, no principalmente no primeiro caso, até mesmo relacionado ao protagonista, que diferentemente de ser representado sempre com grandiosas qualidades, sua parte como mulherengo serve para nos transmitir a ideia contrária ao maniqueísmo irritante presente em muitas obras. Henry é mulherengo sempre, faz coisas repreensíveis, o que acrescenta para o seu psicológico e para uma construção mais real de alguém, sobretudo de um homem marcado por uma cultura patriarcal perceptível até mesmo nos menores detalhes. 

Se você gosta de literatura erótica que não permeie histórias "água-com-açúcar" apenas, este livro pode ser para você. A política fortalece o enredo e a representação da cultura alagoana é um dos pontos fortes do livro.

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18.3.16

Cenas Londrinas, escrito por Virginia Woolf


Editora: José Olympio
Páginas: 84
ISBN: 8503009080
Tradução: Myriam Campelo
'Cenas londrinas' compila seis crônicas - uma delas descoberta somente em 2005, na biblioteca da Universidade de Sussex, e nunca antes publicada em livro - nas quais Virginia Woolf confirma sua paixão por Londres. Escritos entre 1931 e 1932, são textos que, para Ivo Barroso, que assina a apresentação, conseguem 'dar ao leitor a visão de um microcosmo representativo de toda uma nacionalidade'. A obra integra a coleção Sabor Literário - cujo ícone é um cerejinha, o toque especial -que apresenta aos leitores textos inéditos ou pouco conhecidos de grandes escritores. A londrina Virginia Woolf adorava andar pelas ruas de sua cidade, observando anonimamente e admirando o 'encanto da moderna Londres' através dos olhos de grandes homens e cidadãos comuns.

Virginia Woolf é normalmente lembrada como romancista, contudo ela praticara diversos outros gêneros textuais como resenhas, ensaios, cartas, etc. Cenas Londrinas é uma obra que se coloca de imediato como problema, pois não pertence a nenhum desses gêneros fixos. Não são muito bem contos, não são muito bem crônicas, não são descrições secas, não são novelas. O mais perto possível de classificação que podemos chegar é que são realmente cenas.

Trata-se, então, de seis breves cenas que se organizam numa unidade coerente. A primeira chama-se "As docas de Londres": um narrador, que não se faz preciso na sua identidade, vai guiando o olhar do leitor ao longo do Tâmisa, observa os navios que chegam de outras partes do mundo, a mercadoria que eles contém, desvia do lixo que flutua sobre o rio, adentra as vilas operárias, circunda os pináculos das fábricas. Na primeira linha, o narrador sugere que um poeta observa o rio e o horizonte, porém este não se configura como personagem ou presença, ele se torna a forma de observar essa paisagem. Pois, o narrador aqui não tem a secura latente e descritiva de um narrador do século XIX, ele é impreciso e subjetivo nas suas descrições e escolhas de caminhos, tentando configurar uma outra forma de descrever e narrar uma paisagem. Isso converge, por sua vez, que também estamos falando de uma outra paisagem. A Londres de Virginia Woolf é bem diferente das inspiradoras paisagens rurais ou das refinadas paisagens urbanas da belle époque que havia no século XVIII e XIX. Essa Londres é suja, desorganizada onde sobressai o trabalho, o comércio, a mecanização das rotinas e as disputas de classe.

As margens do rio estão crivadas de encardidos armazéns de aparência decrépita, amontoados numa terra que se tornou pantanosa, feita de lama escorregadia. O mesmo ar de decrepitude e decadência esmaga todos. Se uma janela é quebrada, assim continua. Um incêndio que recentemente tisnou um deles fazendo-o prorromper em bolhas não parece deixá-lo mais miserável e infeliz que seus vizinhos. Por trás dos mastros e chaminés, jaz uma sinistra cidade anã de casas operárias. Há guindastes e armazéns em primeiro plano, andaimes e gasômetros enfileiram-se e margeiam uma arquitetura-esqueleto.
Após acres e acres dessa desolação, há subitamente a visão desconcertante ao se passar flutuando e ver uma casa de pedra em meio a um campo verdadeiro, com um grupo compacto de árvores verdadeiras. É possível que haja terra, que tenha havido outrora campo e colheita sob tal desolação e desordem? (p. 21-22)

Essa melancólica, mas profunda e precisa reflexão sobre o panorama da Londres moderna continua na cena seguinte "Maré da Oxford Street". Nossos olhos não estão mais ao lado do Tâmisa pleiteando uma visão ampla, agora a extensão da visão é a extensão de Oxford Street.

Lá nas docas vê-se as coisas em sua frieza, seu volume, sua enormidade. Aqui, em Oxford Street, elas se mostram refinadas e transformadas.(p.31)

Assim, já é possível observar certa coerência entre os textos, como são propositalmente diálogos entre si. Nesse segundo, somos colocados diante dos comércios, dos produtos em promoção, do consumo, dos pacotes de compras que se esbarram, das multidões de Oxford Street. O narrador, novamente misterioso, diz que mesmo que ainda sobrem ali palácios da época de Elizabeth I, esse são "moradias frágeis", "um vigoroso cutucão com a ponta do guarda-chuva pode muito bem infligir um dano irreparável ". Logo, tudo o que culturalmente ainda resta dos outros tempos, de um antiga ordem do mundo, é frágil diante da perversa cidade moderna.

Com o mesmo tom de imprecisão quanto a maneira narrativa, seguem-se as demais cenas. A terceira aborda sobre as "Casas de grandes homens", em especial de Carlyle e Keats. Como a casa diz mais sobre esses homens do que muitas biografias que podemos ler, como a condição de classe social que se vê na sua casa determina o que ele foi e o que ele escreveu.

O quarto texto, "Abadias e catedrais", propõe um contraste entre a catedral de Saint-Paul e a abadia de Westminster:

É lugar-comum, mas não se pode deixar de repetir que a catedral de St. Paul domina Londres. Ela incha como uma grandiosa bolha cinzenta à distância; enorme e ameaçadora, paira sobre nós quando nos aproximamos. Então, subitamente, desaparece. E atrás de St. Paul, sob St. Paul, em torno de St. Paul, de onde não podemos ver a catedral, como Londres encolheu! (p.51)

Nenhum contraste maior poderia haver entre a catedral de St. Paul e a abadia de Westminster. Longe de ser espaçosa e serena, a abadia é estreita e pontiaguda, gasta, inquieta e agitada. (p. 55)

Westminster vai mais longe e é o lugar escolhido para a cena seguinte, "Esta é a câmera dos comuns", em que o narrador coloca em questão as relações de poder e a ideia de espaço "dos homens".



O último texto, "Retrato de uma londrina", foi descoberto em 2005 e adicionado a edição inglesa de The London Scene já existente. A edição brasileira é posterior a inserção desse texto. Fato que é muito importante, pois este dá uma outra configuração ao conjunto da obra. Se até então tínhamos paisagens, agora, como o próprio título já diz, temos um retrato. Mrs. Crowe é o mais próximo de uma personagem que esse livro traz. Entretanto, assim como na pintura, o texto se concentra em mostrá-la nas suas ações rotineiras, na sua tipicidade londrina, nas suas tradições, no seu comportamento que pertence a uma outra época, a uma outra lógica.

A verdade é que não desejava intimidade, desejava conversa (...) A conversa que mrs. Crowe gostava e que a inspirava era uma versão glorificada do mexerico da cidade. A cidade era Londres, e o mexerico era sobre a vida de Londres (p.73)

Mrs. Crowe pertence a uma época e a uma lógica em que os retratos faziam sentido. A Londres de Mrs. Crowe não existe mais. O retrato não se encaixa nas paisagens anteriormente descritas. Mrs. Crowe seria a "típica londrina" de uma época que não é mais a da cidade observada nas docas.

Logo, o livro começa no mais largo, na vista, no panorama, e vai se estreitando. Primeiro toda Londres a partir do rio; depois uma grande rua como Oxford Street, mas um única rua; a casa de artista, espaços privados que se tornaram públicos e parte da cultura coletiva; os espaços religiosos da catedral e da abadia; o espaço de poder da Câmara dos Comuns e por fim, o espaço privado, o espaço individual mesmo que repleto dos mexericos da vida pública. Assim, o livro traz os espaços da cidade, mas não de uma maneira puramente descritiva e decorativa. O que se coloca em questão é como se configura a cidade moderna e como as instituições e as classes sociais se organizam nesse espaço urbano. Atrás do estranhamento desse narrador indefinido e pela ausência de personagem está a particularidade de Virginia Woolf
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11.3.16

O Menino Grapiúna, escrito por Jorge Amado

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 88
ISBN: 9788535916607

No sul da Bahia, o menino Jorge Amado testemunhou o nascimento de cidades, as guerras pela posse da terra, o florescimento de uma cultura e de uma mitologia. Nesse mundo rude conturbado, de muita vitalidade e quase sem lei, forjaram-se a sensibilidade e os valores do futuro escritor.
Esse processo de formação, entre jagunços, coronéis, malandros e prostitutas que serviriam de modelo a muitas de suas criações literárias, o autor evoca aqui com as cores vivas e o humor caloroso a que estão habituados seus leitores.
São personagens inesquecíveis, como o aventureiro tio Álvaro Amado, que o levava às mesas de jogatina e aos bordéis; o jagunço José Nique e o padre Cabral, que apresentou ao pequeno Jorge as Viagens de Gulliver e os livros de Charles Dickens.
Jorge Amado também adquiriu nesses primeiros anos seu inquebrantável amor pela liberdade, sobretudo quando se viu privado dela, ao ser enviado a um internato jesuíta.
Não por acaso, estas breves memórias se encerram com a fuga espetacular do internato: "Fugi no início do terceiro ano, atravessei o sertão da Bahia no rumo de Sergipe, iniciando minhas universidades". O aprendizado elementar da vida já estava completo, e é ele que Jorge resgata neste livro encantador, publicado originalmente em 1981.

Memórias romanceadas nos revelam, sob o olhar do próprio autor, a infância de Jorge Amado.
O livro curtíssimo, de linguagem simples, narrado em terceira pessoa - Jorge Amado refere a si mesmo em diversas partes como "o menino" - e em primeira pessoa, nos releva onde nasceu, viveu, suas aventuras e dificuldades desde seu nascimento à sua pré-adolescência.

Seu pai, um dos desbravadores entre tantos, mudou-se de Sergipe para a região que seria posteriormente conhecida como Zona do Cacau, vendo nascer os povoados e crescendo em meio à vadiagem, o autor nos conta alguns personagens que serviram de inspiração para os seus romances.

Que outra coisa tenho sido senão um romancista de putas e vagabundos? Se alguma beleza existe no que escrevi, provém desses despossuídos, dessas mulheres marcadas com ferro de brasa, os que estão na fímbria da morte, no último escalão do abandono. Na literatura e na vida, sinto-me cada vez mais distante dos líderes e dos heróis, mais perto daqueles que todos os regimes e todas as sociedades desprezam, repelem e condenam.

A dura realidade de um local ainda em formação no início do século XX foi essencial para a formação do menino e teve reflexos em toda a sua obra. Epidemias de varíola, a luta do cangaço com a polícia, a falta de emprego, o banditismo, a prostituição e a miséria das pessoas estiveram próximas às realidade de Jorge Amado em sua infância.

Situações cômicas, recheadas de regionalismos e crenças também fizeram parte da vida do autor. Como a vez em que seu tio Álvaro, uma das figuras que mais o inspirou, trouxe de Sergipe água milagreira de Nossa Senhora do Ó e vendeu ao povoado para curar as mais diversas doenças.

Ao final da narrativa, Jorge Amado nos conta como o internato, do qual ele fugiu, foi essencial para o seu descobrimento e irremediável paixão pela literatura e os escritores que primeiro lhe trouxeram o amor pelos livros.

No posfácio da edição, Moacyr Scliar descreve Jorge Amado como a Bahia e o Brasil. O leitor que já teve a oportunidade de ler alguma obra do baiano, com certeza concordará com a afirmação de Scliar; Jorge Amado não foi apenas um escritor, ele foi a representação popular do século XX, a memória dos vagabundos, das prostitutas e dos meninos de rua estão eternizadas em sua obra e esse livro é uma deliciosa imersão na formação de um grande escritor.
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2.3.16

Rumo ao Farol, escrito por Virginia Woolf

Editora: Autêntica
Páginas: 234
ISBN: 8582171986
Tradução: Tomaz Tadeu
'Ao Farol' é a história de um casamento e de uma infância. É um lamento de dor pela perda de pais fortes e amados. Virginia Woolf queria chamá-lo 'elegia' em vez de romance. O livro também diz respeito à estrutura de classe inglesa e à radical ruptura com o vitorianismo após a Primeira Guerra Mundial. Ele é a expressão da urgente necessidade de uma forma artística que pudesse registrar e adaptar-se a essa ruptura. Ele é todas essas coisas ao mesmo tempo.

Assim como Mrs. Dalloway, As Ondas, Orlando e outros romances da mesma autora, Rumo ao Farol é difícil de resumir e explicar enumerando os acontecimentos. Uma tentativa frustrada disto seria: uma família londrina e alguns conhecidos estão passando um tempo numa casa à beira-mar onde há vista para um farol. Eles pensam em ir ao farol no dia seguinte, mas tudo indica que haverá uma tempestade. O filho mais novo, dos oitos filhos do Sr. e da Sra. Ramsay, James, fica insistindo na ideia de ir ao farol. O pai, um intelectual taciturno, provoca o menino dizendo que será impossível, enquanto a mãe tenta lhe dar esperança. Junto com este casal, há Lily Briscoe, uma moça que pinta quadros e que a Sra. Ramsay espera que se case com Willian Blake, um outro visitante. As crianças mais novas vão dormir enquanto os Ramsay vão jantar com seus convidados. Entre eles também há o Sr. Tansley, um pedante, o Sr. Carmichael, um poeta, Minta e Paul Rayley que ficam noivos antes do jantar. Minta perde um broche que era herança de sua avó na praia e todos vão ajudá-la a procurar. Os anos passam, a Primeira Grande Guerra acontece e destrói esta vida antes conhecida. O tempo transforma a casa à beira-mar em ruínas. Anos depois James e Cam, uma outra filha, voltam ao Farol com seu pai. Lily Briscoe também volta e tenta pintar a paisagem, enquanto o Sr. Carmichael dorme.
Então, sob a cor havia forma. Podia ver isso com clareza, imperiosamente, quando olhava; quando pegava no pincel é que tudo mudava. Era nesse vôo momentâneo entre a paisagem e sua tela que os demônios a possuíam, levando-a à beira das lágrimas. (p.23)

Tais acontecimentos assim colocados nem parecem assuntos proveitosos para nenhuma narrativa. Entretanto, Virginia Woolf transforma o realismo do romance tradicional e propõe uma nova perspectiva de romance (ou a destruição dele) em que há uma fusão do próprio espaço com o espaço interior do personagem, o tempo se passa por meio dos pensamentos e das emoções individuais e suas reações ao mundo são mais fortes e mais importantes que desenrolar de fatos na narrativa. Assim como em Mrs. Dalloway, Rumo ao Farol faz largo uso do fluxo de consciência: a escrita tenta reproduzir o processo de articulação do pensamento individual. Mas mais que uma inovação formal, isso transforma a compreensão e a interpretação da obra. A Sra. Ramsay levanta a cabeça e olhar para seu marido, e deste olhar desperta sentimentos e julgamentos que até então estavam escondidos, até para ela mesma. Isto faz tudo ficar muito subjetivado e ambíguo, logo os fatos, que enumerados nem parecem fatos, se interpretados por meio de tais particularidades, transformam-se em grande acontecimentos, onde tudo muda. Então, o romance que nem aparenta ter história a ser contada, apresenta um clímax terrível e uma catarse profunda.

O livro se divide essencialmente em três partes: A janela, onde se concentram "os fatos" até o momento do jantar; O tempo passa, onde os personagens quase não aparecem, somente uma emprega que é praticamente uma parte do espaço e o este é o personagem principal dessa parte. É por meio do espaço que se mostra a passagem do tempo e a transformação do mundo devido à Guerra. E por fim, Ao farol, comportando a cena de volta dos personagens ao farol anos depois. O tempo passa é bem distinto das outras duas partes e também bem mais curto, contudo é a parte do meio não por acaso, mas porque sucinta a ideia central de ruína que o romance transmite, ruína das relações familiares e amorosas previamente postas, dos valores do século anterior, de uma ideia de honra, progresso e coragem e do próprio conceito de indivíduo que havia sido construído pela ideologia burguesa ao longo do século XIX. Assim como o modelo calcificado de romance é destruído no âmbito da forma, o conteúdo da obra traz como a Guerra destruiu muito do que havia nas sociedades europeias até então.


Além de incrível pelas possibilidades de compreensões que apresenta, o livro é lindo de se ler e provoca um prazer estético singular. As descrições da praia, das ondas, do farol, do espaço da casa na velhice e em ruína e do próprio quadro que está sendo pintado por Lily Briscoe são de uma delicadeza e sensibilidade agudas que entram no interior dos próprios personagens e por fim do próprio leitor. Obviamente não se trata de uma leitura super fácil, mas ela mobiliza, no palco da mente do leitor, cores e sensações belíssimas e complexas. O personagem, o espaço e o leitor se misturam e perdem suas fronteiras.
Era como se a água fluísse e fizesse com que os pensamentos estagnados em terra firme deslizassem por ela e dessem até mesmo a seus corpos uma espécie de alívio físico. Primeiro, o movimento da cor inundava a baía azul e o coração expandia-se com ele e o corpo nadava, para somente no instante seguinte ser reprimido e enregelado pela cortante escuridão das ondas inquietas (...) enquanto esperava por ela, via-se, na pálida praia em semicriculo, onda após onda derramar continuamente uma névoa suava em tons de madrepérola. (p.24)

Sobre as edições:

Eu li numa edição antiga da Biblioteca da Folha de São Paulo, hoje só disponível em sebos mas bem rara de encontrar, que tem uma capa de proteção laranja para a capa dura azul claro. A capa azul é uma característica dessa coleção, todos os livros são assim, com o título escrito em preto na lombada, sem mais nada, apenas com as capas de proteção coloridas com alguma pequena ilustração. Recentemente foi lançada uma nova edição da editora Autêntica com um belo projeto editorial. Ambas as traduções são boas e recomendáveis, a primeira traduziu o título como "Rumo ao Farol" e a segunda preferiu por "Ao Farol". Há, também, uma edição bilíngue da editora Landmark. Não posso afirmar isso precisamente para este romance, mas as traduções desta editora costumam ser bastante problemáticas. Logo, melhor ficar atento. 
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