10.2.16

Por Aí, de Renan Alvarenga

Por aí, escrito por Renan Alvarenga
Editora: Chiado
Páginas: 74
ISBN: 9789895158058
Onde comprar: Chiado - Cultura
Cada passo custa uma lágrima
A alegria é lenço precioso
As renúncias são pegadas da nobreza de quem se desafiou a seguir em frente
 
Quero seguir,
Já que não há opção,
Já que estagnação é prisão
Quando as palavras te surpreendem e você se vê nelas, é sinal de que a experiência de leitura foi gratificante. Ainda mais quando o assunto é poesia, e foi exatamente isso que aconteceu quando li "Por aí", do autor nacional Renan Alvarenga, que me enviou o seu livro pela caixa postal e nem imaginava o quão feliz iria me deixar com sua escrita. Como me veio à cabeça durante a leitura do livro: um presente de 2016!

Tenho notado uma certa necessidade pessoal de ler mais dos gêneros que não são tão lidos (quanto mais abordados na internet). como contos, crônicas e... Poesia. E é muito bacana perceber que poemas podem fazer a diferença no meu dia a dia, que eles são capazes, sim, de me entreter e mudar o meu cotidiano para melhor. Pode parecer brega, mas foi uma sensação muito boa perceber que a leitura de textos que parecem fáceis (pela estrutura e pouco comprimento) é, na verdade, - ou deve ser -, desafiadora e impactante. 

Mas isso tudo só acontece na poesia se estivermos falando de uma boa escrita e de uma semântica expansiva. Estou falando do campo de significados: "Por Aí" possui 62 poemas curtos, mas com um vocabulário que possui diversas possibilidades de significação; uma palavra pode, numa segunda leitura, tratar sobre outro assunto imaginado pelo leitor durante a primeira leitura. E isso cria uma demanda por uma releitura que é quase irrepreensível. 
Agonizante
A alma do mundo,
Apagada do verde pulsar,
Inebriada em torpor, clama.
Força esvaída no último suspiro que vivemos hoje desde o início.
Sangue límpido e águas gentis sempre correrão junto às várzeas de arvoredos de cinza erguidos em fotossíntese fumarenta.
Expira
.
.
.
Morre.
(Aqui ele fala da intervenção humana no meio ambiente de forma lírica, do corpo humano submetido ao fumo, ou de ambos? Os destaques são meus.)

A identificação do leitor de um poema precisa acontecer para que ele realmente tenha êxito, já que muitas vezes ele conversa com o que é íntimo, e isso realmente aconteceu comigo ao ler "Por Aí". Mas não tive como conter a curiosidade e fui ler sobre o Renan no breve perfil que tem dele na orelha do livro. Sabendo de algumas informações do autor, pude enxergar um pouco dele em seus poemas, como a questão da religião, visivelmente presente num poema que me tocou, mesmo a religiosidade não sendo um fator marcante em minha vida. Não é algo exagerado, são apenas sentimentos que podemos notar ali no texto depois que ficamos sabendo um pouco mais da vida dele, e que eu não percebi antes disso.
Provação
Empertigo
Ajeito a postura
Lá vem chumbo!
E não tem hora
Vem de assalto
Por vezes demora
Mas vem
Ah, vem!
Na morna rotina, vê palco iluminado
É como eu disse: assalta
Ela espera
Sabe escolher o melhor momento
Quando está por um fio
A paciência...
A saúde...
O amor...
A fé.
Algo presente em alguns dos poemas é a sinestesia, que consiste na repetição de sons consonantais para marcar e dar ênfase no texto. E, lendo em voz alta os poemas, pude notar esta figura de linguagem presente sutilmente nestes três primeiros versos, que, justamente por conta dela, tornam-se bem impactantes: "Esfola-me as fibras do desprezo de tua passada indiferente/Melhor seria a pior das torturas/Em dulcíssimo manjar se converteria o mais pútrido fel". Ler poesia em voz alta vai além de uma necessidade: pode até ser uma vantagem!

A capa de "Por Aí" é bela e interessante, me fez lembrar o conto "A biblioteca de Babel", do Borges, por conta da escada em espiral que parece levar ao infinito, sempre através das mesmas formas. "Por Aí" é o nome de um dos 62 poemas, que parece resumir o que o autor busca transmitir com a sua obra: um conteúdo lírico, instigante e que aborde o mundo ao redor em contato com os nossos sentidos.

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