15.2.16

Outros Cantos, Maria Valéria Rezende

Outros Cantos, escrito por Maria Valéria Rezende

Editora: Alfaguara
Páginas: 152
ISBN: 9788556520012
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Numa travessia de ônibus pela noite, Maria, uma mulher que dedicou a vida à educação de base, entrelaça passado e presente para recompor uma longa jornada que nem mesmo a distância do tempo pode romper. Em uma escrita fluida, conhecemos personagens cativantes de diversos lugares do mundo e memórias que desfiam uma série de impossíveis amores, dos quais Maria guarda lembranças escondidas numa “caixinha dos patuás posta em sossego lá no fundo do baú”.


Maria, educadora, retorna após várias décadas a Olho d'Água, localizada no sertão nordestino em uma longa viagem de ônibus, onde recorda o remoto tempo em que foi pela primeira vez ao povoado com a missão de educar os homens e mulheres que viviam isolados geográfica, política e educacionalmente durante a década de 1960. A angústia do desconhecido foi substituída pela ansiedade em saber as transformações daquele remoto lugar.
Enquanto esperava a verba e os materiais prometidos pelo vereador que a enviou para aquele povoado, Maria precisa se adaptar e se integrar com os habitantes e, dessa necessidade, passa a trabalhar no tingimento de fios para confecção de redes, a única atividade desenvolvida no local, já que a pecuária está impossibilitada pela ausência de chuvas.

Mexer, sem parar, o fio e a tinta borbulhante, retirar com longas varas as meadas coloridas, fumegantes, e pô-las a secar sobre uma sucessão de cavaletes rústicos, desenlear o fio, já seco, e enrolá-lo em grandes bolas para depois urdir os liços, entremeando as cores em longas listras, transformar o povoado naquele espantoso arco-íris desencontrado, era trabalho de macho. (...) Em uma semana estava pronta a urdidura para transformar o fio bruto nas redes que me haviam embalado a infância e cuja doçura em nada denunciava o esforço sobre-humano e a dor que custavam. (p. 20)
O primeiro desafio enfrentado foi a demora de meses em receber o material didático e, consequentemente, seu salário prometidos pelos políticos locais. Quando, finalmente, esse dia chega Maria vê à frente mais desafios: o lugar é inadequado para montar uma sala de aula e como fará a alfabetização de jovens e adultos, encontra mais resistência ainda já que para aquelas rudes pessoas estudar era desculpa para não trabalhar e a esperança era a educação das crianças.

Apoiada por Fátima, mulher sábia que a acolheu já na sua chegada, Maria passa a dar aulas clandestinamente no período da manhã para as crianças e à noite para os adultos. A professora, diante da dura realidade sertaneja precisa buscar formas de trabalhar a resignação e a aceitação daquelas pessoas frente à sua triste realidade ancoradas na aceitação religiosa de que "Deus quis assim".

Calei-me, e ali fiquei, escorada na parede, um nó doloroso apertando minha cabeça e meu coração, a cortina idealista que me tapava os olhos e só me permitia ver a dor infligida pela exploração do Dono e a inclemência do sol, mais a beleza dos gestos e saberes do povo, rasgando-se mais um pouco e revelando que tudo era muito mais misturado e complicado do que eu pensava. (p. 125)

Assim como Maria levou a educação, a possibilidade de mudança para aquela gente, aquele povoado trouxe a sabedoria popular, a resistência sertaneja à menina idealista que partiu com o intuito de ensinar as letras e mostrar outros caminhos.

Como as memórias correm soltas, Maria entrelaça as histórias e relembra pouco a pouco um e outro sertanejo que, assim como ela nesse momento, retorna ao Nordeste depois de passar temporadas sofridas e tentativas de melhorias de vida em São Paulo ou no Rio de Janeiro.

O retorno a Olho d'Água traz o desejo de calmaria e sossego que 40 anos depois a professora não encontrou no Sudeste do país e esse tempo de informática e transformação para tristeza de Maria parece ter também chegado ao seu querido Nordeste.

Não quero mais correria, pressa, velocidade... Ultimamente ando irritadiça e exausta, resisto, mas sou sempre arrastada pela pressa dos outros desde que a gente passou a viver, se mover, se informar, pensar e se comunicar com o máximo de velocidade possível segundo os diários e ruidosos lançamentos de novas geringonças eletrônicas, prometendo cada vez mais velocidade. Não é só o fast-food no estômago, é o fast-food no cérebro: fast-news, fast-thinking, fast-talking, fast-answering, fast-reading. Parece um complô para me obrigar a ser cada vez mais fast em tudo, a ser avaliada e a me avaliar pela minha rapidez de resposta e de atualização. Ave! E quem pode, assim, continuar a ser gente, ter juízo e saúde? (p.72)

A escrita da autora é muito bonita e sutil, ela enxerga e descreve a beleza em coisas insuspeitas, como no ato do tingimento dos fios transcrito acima. Essa beleza se traduz na esperança da transformação social vivida pela personagem, que tem cunho autobiográfico e se entrelaça com o período que a autora, freira, trabalhou com educação social durante o período da ditadura militar.

Outro ponto interessante é a sutileza da autora em tratar esse período da história. Percebemos de forma bastante delicada os horrores e a impossibilidade de melhoria de vida da população carente durante a ditadura.

Enfim o livro é uma bela sucessão de memórias de uma dura realidade, mas nem por isso triste e sem esperança. Após décadas de ser obrigada a deixar Olho d'Água acompanhamos o fio de esperança de transformação que nutre a vida de Maria.

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