3.2.16

Meus documentos, de Alejandro Zambra

Meus documentos, escrito por Alejandro Zambra

Editora: Cosac Naify
Páginas: 224
ISBN: 8540509288
Tradução: Miguel Del Castillo
'Meu pai era um computador e minha mãe uma máquina de escrever', diz Alejandro Zambra nas primeiras páginas deste livro de contos, que bem pode ser lido como um romance, ou como onze novelas arquivadas na pasta Meus documentos do computador. Às vezes parece ser um mesmo personagem quem fala, que recorda suas desventuras como estudante e professor, ou que registra sua mal-humorada tentativa de largar o cigarro. Com a fina ironia e a precisão já habituais, com humor e melancolia, alento lírico e às vezes com raiva, Alejandro Zambra escreve sobre uma incessante busca pelo pai, a obsolescência de objetos e de sentimentos que pareciam eternos, o desencanto dos jovens da geração de transição chilena, a impostura como única forma de criar raízes, a legitimidade da dor - são esses alguns dos temas que cruzam este livro.

"Em março de 1988 entrei no Instituto Nacional. E logo chegaram, ao mesmo tempo, a democracia e a adolescência. A adolescência era verdadeira. A democracia, não."
A simultaneidade entre os percursos individuais e a História nacional é uma característica maior do livro de contos Meus Documentos. Publicado no Chile em 2013 pela Editora Anagrama e no Brasil em 2015 pela Cosac Naify, Meus documentos é o quarto livro de Alejandro Zambra traduzido para o português. O autor chileno publicou alguns livros de poemas em espanhol, mas só seus romances Bonsai (2012), A vida privada das árvores (2013) e Formas de voltar para casa (2014) chegaram às terras lusófonas. O mais recente livro de contos mantém a tonalidade breve, aparentemente confessional, com personagens reclusos e atordoados pelo mundo que os romances anteriores continham. Entretanto, mais do que contos sobre as relações amorosas e familiares falhadas, problemas de adolescentes, fracasso no mundo profissional e dificuldades para parar de fumar, em baixo do epiderme das questões individuais, há em todos os contos uma angústia constante perante a situação política do Chile.



Bonsai começa pelo final: na primeira linha sabemos que uma das personagens principais morre e isso é repetido várias vezes antes que, cronologicamente, o episódio realmente aconteça. Contudo, o mais importante do romance é o resto, "no final, Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura". Em A vida privada das árvores a memória conduz o romance enquanto Julián cuida de Daniela e espera Verônica chegar em casa. Uma vez mais, já de início sabemos que "enquanto Verônica não vem, não há final". Ambas narrativas centralizam personagens envolvidos emocionalmente uns com os outros ou com as coisas do mundo e como os afetos e as afinidades podem ser imprevisíveis e falhas. Já Formas de voltar para casa é um passo em direção a Meus documentos: as experiências e os traumas particulares da infância se misturam com o sobreviver a um terremoto e com o sobreviver a uma ditadura. O menino e o Chile compartilham a mesma dor em relação a falsidade da aurora que a infância supostamente deveria ter e aos pais que se abstinham e não se opuseram a Pinochet. Lidar com o passado é encontrar formas de voltar para casa. Desta mistura entre a tristeza individual e a tristeza em relação à História que se delineiam os onze contos de Meus documentos.



A antiga imagem de um escritor que tem textos deixados de lado no fundo de uma gaveta, ou no fundo de um baú como Fernando Pessoa, é substituída por textos esquecidos num fundo não-aparente de uma pasta "Meus documentos" do Windows. O primeiro conto começa com a lembrança de quando o narrador viu um computador pela primeira vez e este passa ser a engrenagem central da rememoração a infância e da adolescência.  Conforme o menino cresce, o computador fica mais moderno e a pasta "Meus documentos" ganha seus textos. "Meu pai era um computador, minha mãe, uma máquina de escrever. Eu era um caderno vazio e agora sou um livro", é assim que o narrador do primeiro conto explica o título da obra que o leitor tem em mãos. Logo, levando em conta tal explicação que o conto apresenta, mas que aponta para obra como um todo e o fato do narrador ser em primeira pessoa, supõem-se que a narrativa seja auto-biográfica, ou pelo menos, auto-ficcional. Entretanto, este é o mesmo tom que perpassa todos os contos, assim como os romances anteriormente citados e persiste mesmo quando o narrador é em terceira pessoa. A tonalidade intimista e de confissão, e a maneira como os contos se relacionam e se completam, nos faz querer encontrar um Alejandro Zambra em todos os eus, todos os Max, todos os Daniels, todos os 45, todos os fumantes, todos os chilenos, todos os Rodrigos, todos os Martíns, todas as Yasna.

Os outros dez contos trazem enredos como: um amigo que quer aprender sobre futebol, um homem que foi morar na casa de uns parentes enquanto esses viajavam, um homem que tentar melhorar a relação com seu filho dando-lhe gatinhos de presente, um relacionamento frustrado, outro relacionamento frustrado e por aí vai. Mas há alguns contos, ou pedaços deles, que narram situações que poderiam envolver emoções exacerbadas como: a procura por um pai exilado, um estupro, um sequestro, uma demissão, uma viagem a Bruxelas. Contudo, tanto os acontecimentos insignificantes, quanto os acontecimentos de grandes ações são envolvidos na mesma capa de banalidade e melancolia, como se a relação do indivíduo com o mundo pudesse ser significada, ressignificada ou abalada por um coração partido ou por uma piada mal contada em inglês.

No último conto a figura central é uma mulher, o que contrasta com o resto do livro que é narrado por homens ou conta a história de um homem. Entretanto, nenhum deles, nem a mulher, nem os homens, estão numa posição de poder maior do que o outro. No conto Lembranças de um computador pessoal, o personagem principal, Max, usa de sua posição de homem para tentar sujeitar a namorada Claudia. Mas nem um ato de violência faz dele faz dele mais forte. Justamente o contrário, o torna ainda mais sensibilizado, inapto e sozinho diante do mundo.

Um outro fator que liga todas as personagens é a relação com a literatura. Zambra tem formação em literatura hispânica pela Universidade do Chile e talvez seja isso que encha seus livros de professores de literatura, leitores vorazes, escritores frustrados. Os contos, assim como os romances anteriores, estão repletos de referências musicais com uma ênfase particular e merecida na música chilena, mas nada é tão constante e tão uniformemente presente quanto as referências literárias que vão e vem entre Henry Miller, Italo Svevo, Gabriel García Márquez e Claudio Giaconi. Essa constante tem seu apogeu no conto Eu fumava muito bem em que o personagem recapitula todas suas leituras e seu prazer na literatura através do prazer que tinha em fumar.

Embora a erudição literária do autor seja evidente, os contos seriam somente relatos individuais sobre relacionamentos frustrados e pessoas desajeitadas com o mundo se não houvesse uma outra constante neles: o Chile. Mais sutil que as referências literárias, as questões políticas que tocam a Ditadura de Pinochet ou a democracia falha que se seguiu envolvem todas as personagens e todas as situações. Nem que pareça breve, só um detalhe, uma única frase no meio de um parágrafo, os contos mostram como os percursos individuais e as questões da vida privada eram e são afetadas pela identidade e pela História nacional. O homem que viajou até Bruxelas para procurar a ex-namorada e acabou "levando um segundo pé na bunda'',  termina na mesa de um bar, contanto mal uma piada em inglês e sendo alcunhado de "o homem mais chileno do mundo". Assim como em Formas de voltar para casa, a melancolia dos relacionamentos frustrados, do pai partiu, da demissão, do gatinho que fugiu são regidas por uma melancolia maior diante da situação política, social e histórica do país.

Desta maneira, Zambra está fazendo uma literatura nova e moderna, mas ao mesmo tempo continua com o caminho latino-americano de pensar a identidade nacional e de como a História e as histórias se entrelaçam. Assim como García Márquez, quando Zambra fala do Chile, este pode ser também a América Latina. E isso é um dos fatores que justificam a a potência de sua literatura. 


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