17.2.16

Eugênia Grandet, de Honoré de Balzac



Eugênia Grandet, escrito por Honoré de Balzac

Editora: Estação Liberdade
Páginas: 264
ISBN: 978-85-7448-138-9
Tradução: Marina Appenzeller

Lançado em 1833, Eugénie Grandet é considerada a obra que exibe maior aprimoramento narrativo na vasta produção de Balzac. Parte integrante do imenso painel que é A comédia humana, narra a história de amor recalcado da jovem que dá título ao romance e a vida de uma pequena província francesa. Neste livro, o autor francês compõe, através de personagens fortes e a paisagem de uma paralisada e decadente sociedade, um amplo estudo ficcional sobre a futilidade pequeno-burguesa, o poder absoluto que o dinheiro exerce sobre a vida e o caráter das pessoas, a frustração amorosa e a índole humana. Entre os personagens importantes, além da própria protagonista, está seu pai, o velho Grandet, um rico comerciante de vinhos que chegara à boa fortuna graças ao dote vindo de sua esposa, a senhora Grandet. Avarento dos mais repugnantes, para quem a única finalidade da existência é a acumulação de riquezas, o velho Grandet acaba por se tornar central para esta narrativa – e não só: o vinhateiro é também um dos grandes personagens de Balzac e de toda a história da literatura. A pacata vida na província de Saumur é agitada pela chegada de Charles, sobrinho do velho Grandet, vindo de Paris, enviado que foi pelo pai, que fracassara nos negócios e cometera suicídio, deixando seu ente aos cuidados do próspero irmão. A doce e provinciana Eugénie, uma das jovens mais ricas da região, é alvo de disputa de todas as famílias que querem casar seus filhos com ela e assumir a fortuna da família. Porém, a garota se apaixona pelo belo e elegante primo. O amor, entretanto, não se concretiza. Ainda assim, a jovem herdeira guarda-o intacto em seu coração, mesmo sob todas as agruras geradas por uma paixão não correspondida. Uma vida que, antes tranqüila, é devastada pela desilusão amorosa e que mostra, sob a feição quase divina da moça, a nobreza de seu sentimento. É nesta ambiência que Balzac aproveita para depositar sua reflexão sobre a sociedade francesa do século XIX. Com descrições equilibradas e densas — como a da morada onde vivem os Grandet, uma “casa cheia de melancolia”, entrevada e doente, que é na verdade um retrato da decadência e da desolação familiar —, o escritor francês mostra aos leitores muito mais que um simples romance, e consagra, evitando uma possível apatia em que poderia cair este trabalho, o pensamento crítico sobre seu tempo. Eugénie Grandet, com sua escrita agradável e seu vigor analítico, ao lado de Ilusões Perdidas, é um dos melhores romances de Balzac. Esta edição inclui prefácio de Pierre Citron e o apêndice “Vida e obra de Balzac”.

O livro de Balzac, publicado em 1833, faz parte do conjunto da Comédia Humana, ou seja, trata-se de um dos livros que compõe essa série de noventa e três títulos escrita por Balzac para fazer um retrato da vida social burguesa na França do século XIX.

A história se passa numa cidadezinha provinciana da França, Saumur, onde vive Sr. Grandet, um homem que começou sua fortuna por meio de suborno e só se dedica a acumulação de dinheiro. Sr. Grandet explora as pessoas e os recursos da maneira mais intensa possível e economiza o máximo que pode. Assim, mesmo num momento da sua vida que já é considerado um dos homens mais ricos da região, o seu modo de vida, sua casa, suas roupas e tudo o que se liga a aparência não correspondem a grandeza de sua fortuna. 

Sr. Grandet tem uma filha, chamada Eugênia, que cresceu nessa vida mesquinha e limitada, sem conhecer as altas sociedades e sem conhecer o tamanho da fortuna da qual era herdeira. Um dia, o Sr. Grandet recebe a visita do sobrinho, Charles, que vem de Paris com uma carta do irmão do Sr. Grandet. Nessa carta, o irmão diz acabou indo a falência e para não perder a honra irá se matar no dia seguinte e pede ao irmão do interior que tome conta do filho. Quando toma conhecimento do suicídio do pai e se vê num ambiente pouco acolhedor e oposto ao luxo da sociedade parisiense da qual era frequentador, Charles fica muito deprimido e recluso. O tio não expressa nenhum respeito por ninguém e por nada, nem mesmo por um jovem que acabara de perder o pai e decide mandá-lo para as Índia Orientais o mais breve possível. 

Assim que vê o primo pela primeira vez, com todo o seu porte de burguês boêmio parisiense, Eugênia se apaixona imediatamente e passa fazer extremos esforços para consolar o primo da perda e para tornar sua estadia mais confortável, tentando burlar o rigoroso sistema de economia do pai que nem grãos de açúcar disponibiliza para o hóspede. 

Diante de tanta dedicação, Charles não poderia ser indiferente e também se apaixona pela prima, lhe dá um único beijo, jura que irá para as Índia recuperar a fortuna perdida e voltará para casar-se com ela. Contudo, sete anos se passam e Eugênia nunca recebe uma única carta de Charles. Neste período, seu pai morre, triunfante com o dinheiro que acumulou, deixando Eugênia como a maior herdeira da França. Eugênia, completamente incompetente na administração desse dinheiro, quase não altera seus hábitos de vida e continua vivendo numa privação desnecessária. Obviamente, passa ser cortejada pelos melhores partidos da região, todos interessado unicamente no seu dinheiro. 

Após sete anos de ausência, Eugênia recebe uma carta de Charles dizendo que já estava em Paris e que se casaria em breve com uma moça de fortuna que tinha conhecido e que a promessa de casamento que ambos haviam feito não passava de uma imprudência da juventude. Charles torna-se parecido com o tio, porém interessado também na posição social e na ostentação da riqueza. O primo desconhecia a fortuna da prima e aproveitou a primeira oportunidade para ficar noivo de uma moça que garantiria sua posição na alta sociedade parisiense. Eugênia fica desconsolada, mas em toda a sua falta de experiência com o mundo, acaba quitando as dívidas de Charles e facilitando o casamento deste com outra. Eugênia se casa um rapaz da região que se encarrega de administrar sua fortuna, porém o casamento jamais é consumado e Eugênia fica fadada a infelicidade.

Assim, o romance traz um cômico e admirável retrato da burguesia emergente do século XIX. O que Balzac mostra são os resultados do processo de transformação da ordem social e política do mundo, que começaram com as grandes navegações, e acabaram por criar essa camada social obcecada pela acumulação de dinheiro e que, para isso, abdica de todas as morais. Sr. Grandet é um personagem fruto do momento histórico em que foi escrito, pois antes da consolidação da ordem capitalista não havia na literatura um papel central para o dinheiro nos desenrolar da narrativa. Além disso, embora o livro leve o nome da filha e ela seja, de certa forma, a personagem principal, Eugênia padece, assim como a antiga ordem do mundo em que não era o dinheiro que comandava as relações, a moral tradicional e o amor. O grande vencedor do livro é o Sr. Grandet, mesmo que ele morra no decorrer da história, pois são os seus valores (ou a ausência deles) que permanecem no fim. E a relação amorosa esperada num romance do século XIX é totalmente frustrada, pois mesmo se ela é alimentada no início da narrativa, após a viagem à Índia, Charles adere ao modo de vida do tio e se torna tão oportunista quanto ele. Logo, não há aqui um herói comovente, romântico e valoroso como poderia se esperar. Justamente ao contrário, Balzac mostra como este conceito de herói ficou no passado, pois o mundo mudou. 

Entretanto, não se pode julgar que há em Eugênia Grandet uma divisão moralista e maniqueísta do mundo em que os bons e valorosos, como Eugênia, padecem, e os maus e gananciosos, como Charles e Sr. Grandet, ganham. Uma boa leitura mostra como a obra possui uma dimensão mais profunda como retrato social. Balzac coloca em questão as transformações morais, políticas e sociais empreendidas, sobretudo, pela Revolução Industrial e pela Revolução Francesa, mostrando seus pontos positivos e negativos com o intuito de provocar reflexões sobre elas e não, como muito se faz erroneamente, dizer que o mundo já foi muito melhor e se tornou ruim. E é justamente essa refinada crítica pincelada de humor que torna tão prazerosa a leitura de Eugênia Grandet

Sobre as edições:

Diferente de outros clássicos, como Orgulho e Preconceito de Jane Austen, Eugênia Grandet não tem mil edições disponíveis no mercado. Eu li o livro em francês em uma edição velha de biblioteca. Contudo, a edição aqui apresentada, da Estação Liberdade, parece muito boa, possui um prefácio e aparenta ter uma tradução confiável. Nos sebos é bem possível de encontrar uma edição antiga dos Imortais da Literatura Universal lançada  pela  Abril Cultural. Os frequentadores de sebos conhecem bem essa coleção de capa vermelha e escritos em dourado. Embora seja antiga, a tradução é aceitável e é bem fácil de encontrar. Há também uma edição de bolsa da Saraiva, daquelas que tem a caricatura do escritor na frente, que normalmente tem uma boa tradução e um preço bem camarada. 

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