1.2.16

Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva

Ainda estou aqui, escrito por Marcelo Rubens Paiva

Editora: Alfaguara
Páginas: 296
ISBN: 9788579624162
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Trinta e cinco anos depois de Feliz ano velho, a luta de uma família pela verdade. Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, passou a criá-los sozinha quando, em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas.
Nunca chorou na frente das câmeras. Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, Marcelo Rubens Paiva fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento negro da história recente brasileira para contar — e tentar entender — o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971.
“Ainda estou aqui” é um livro de memórias da família Paiva sob o olhar do único homem de cinco filhos de Eunice e Rubens Beyrodt Paiva. A família, de classe média alta, teve sua vida transformada após o desaparecimento do deputado cassado Rubens Paiva durante o período da ditadura militar, no ano de 1971.

O engenheiro civil Rubens Paiva ingressou na política em 1962 como deputado federal por São Paulo em 1962 pelo PTB e teve seu mandato cassado em 1964 com o Golpe Militar. Homens armados invadiram a casa da família no Rio de Janeiro levando o deputado e, mais tarde, a mãe e irmã mais velha da família. Rubens Paiva nunca mais foi visto pela sua família.

Buscando a reconstituição dos fatos entre relatos de testemunhas e amigos da família, o autor nos dá detalhes dos terríveis porões da ditadura, das torturas físicas e psicológicas sofridas pelos presos políticos. Os relatos são pesados e é bastante difícil vencer as páginas com essa realidade chocante da história recente do nosso país.

O caso de Rubens Paiva foi um dos que mais ganhou destaque na mídia e um fato interessante foi a postura de não rendição perante a mídia assumida pela família, que tentava passar a imagem de “família desolada pela ditadura”.

Família Paiva posa sorrindo para foto que denuncia o desaparecimento de Rubens Paiva
[Fonte]
Marcelo avança cronologicamente nas suas memórias e nos expõe a principal transformação que essa realidade terrível acarretou em sua vida. Enquanto buscavam pelas informações a respeito de seu pai, sua mãe, Eunice Paiva, até então uma pacata dona de casa de uma família rica, cujas funções se resumia a servir whisky para os amigos políticos de seu marido e entreter suas respectivas esposas, assume o controle da família e aos 41 anos ingressa na faculdade de direito sendo, posteriormente, uma das maiores advogadas dos direitos indígenas do país.

Pelo fato de não ser declarada viúva, pois oficialmente Rubens Paiva não estava morto, e não poder ter acesso aos bens do marido, Eunice precisou assumir as rédeas da situação e buscar o sustento da família e se tornou uma advogada bastante respeitada em âmbito nacional e sempre lutou pelo esclarecimento da morte do esposo.

Além de enfrentar todos os traumas causados pela ditadura com o desaparecimento do marido e pelo acidente do filho, Eunice ainda passou a sofrer de Alzheimer e tem pouco a pouco sua memória apagada. Talvez esse livro seja uma tentativa de Marcelo manter viva a memória de sua mãe, a narrativa é uma bonita homenagem a ela.

O atestado de óbito de Rubens Beyrodt Paiva foi emitido em 1996 após sancionada a Lei dos Desaparecidos pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso e apenas em 2014 a Comissão Nacional da Verdade denunciou o ex-tenente Antônio Fernando Hughes de Carvalho como assassino do ex-deputado.

Fiquei incomodada com alguns pontos do livro, apesar de entender e respeitar o sofrimento do Marcelo e sua família. Depois de ler Feliz Ano Velho, imaginei que 33 anos depois encontraria relatos de uma pessoa mais madura, tanto no quesito pessoal quanto da escrita. O que senti é que o autor tentou manter a mesma informalidade e despretensão do primeiro livro, mas tanto tempo passado essa descontração não me pareceu natural. Infelizmente esse livro, para mim, soou bastante repetitivo em relação ao “Feliz Ano Velho” em alguns relatos de seu acidente e do desaparecimento e morte do Rubens Paiva.

Outro ponto que me incomodou foi, no início do livro, as constantes reclamações do autor em relação ao trabalho que sua mãe está dando aos filhos, vítima de Alzheimer. Entendo que é um relato sincero e, ainda sim, uma homenagem à Eunice Paiva, mas mesmo assim esses relatos iniciais me incomodaram.

Apesar disso é um bom livro, pois expõe os horrores ainda pouco comentados da ditadura militar e as consequências, para o bem e para o mal, na família Rubens Paiva.

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