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Ensaio sobre a cegueira Saramago

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Uma duas Eliane Brum

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ao farol virgínia woolf

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mulheres de cinzas mia couto

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Extraordinário Luandino Vieira

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Luuanda Luandino Vieira
27.2.16

Editora: Novos Talentos
Páginas: 184
ISBN: 9788542806298
Onde comprar: Saraiva
Marcos e Willian, pai e filho, tentam se reconciliar após anos de desentendimento. Em paralelo, Eva, mulher de Willian, quer a todo custo engravidar, o que frustra o casal. A partir da visão do interior de cada um, esses personagens terão de reconfigurar o modo de pensar para enfrentar os seus conflitos. Nessa fase tão conturbada para todos, reflexões acompanham cada segundo da trajetória deles.
Narrada de forma surpreendente, provocativa e crítica, esta obra não tem a pretensão de apresentar soluções para os problemas enfrentados, mas, sim, mostrar as armadilhas de nosso fluxo de consciência, para compreendermos que as soluções dos problemas dependem, muitas vezes, da forma como se lida com as ilusões, ou, ao contrário, como se enxerga verdadeiramente a realidade.
Willian possui uma vida tranquila e confortável, uma boa casa, uma esposa amável e um perfil profissional em ascensão. Seu modo de ver o mundo parece leve e transparecer uma positividade saudável, porém ele possui algumas angústias que não vêm à tona até mesmo em seus pensamentos; há desavenças e impedimentos que ele não admite bloquear, de certa maneira, na sua mente. Isso porque não possui um bom relacionamento com o seu pai desde que uma grande briga na empresa que criaram juntos rompeu a amizade dos dois, levando Willian a se demitir e abandonar a empresa sob os cuidados unicamente do pai, Marcos. E a infertilidade de Eva, sua esposa, é outro grande assunto que parece incutir certa dose de impotência em sua vida, que de alguma maneira o faz se sentir amargurado.

Ele bloqueia a decisão de transbordar seus sentimentos e revelar para a sua consciência e o seu exterior (esposa, pais, chefe) que algumas coisas não estão saindo exatamente como ele queria, e que isso o machuca.  Até que se vê indo visitar o pai, num impulso incitado por Eva e por um acidente de moto que feriu Marcos. A situação o leva à uma sequência de atividades preparadas pelo pai para os empregados da empresa, a qual tem por finalidade revelar algo grandioso - seja interiormente, ou mesmo exteriormente. E o desenrolar dos acontecimentos revelam camadas e mais camadas de potenciais vivências. Com elas, um turbilhão de reflexões que levará o leitor a questionar a conduta de Willian e das pessoas com quem ele convive, como também a se perguntar sobre o seu próprio modo de encarar a vida e as ações (próprias ou alheias).


Com um quê nada negativo de autoajuda (afirmado pelo professor que escreveu o prefácio do livro, Roque Weschenfelder, e confirmado pelo próprio autor), o livro nos leva a dimensões imprevistas. Estou confusa sobre o enredo e, sobretudo, sobre o final, e tenho a certeza de que nunca terei respostas para as inúmeras perguntas que encontrei lendo Uma vez você, uma vez eu. A intenção do autor era exatamente essa: a de tirar o leitor do piloto automático e fazê-lo pensar, refletir. É um livro que tende para a autoajuda por conta disso: os diálogos longos contém reflexões e máximas que, às vezes clichês, às vezes uma experiência enriquecedora, fazem com que nosso cérebro trabalhe mais durante a leitura.

E, ao contrário do que isso pode sugerir, a leitura é fluida e agradável, porque acolhe. E o plot twist empregado pelo autor durante a escrita do livro é de gerar um novelo de perguntas sem repostas positivo, pois é muito bacana a forma que o Diego Martello encontrou para quebrar a expectativa; é dessa forma que ele consegue concluir a sua intenção com a criação deste livro, a de colocar o leitor para refletir. Porem, meu único problema com o livro surge dessa mesma escrita: um pouco engessada por usar um português muito formal, um exemplo do que entendi como um aspecto inorgânico do livro - a presença nítida do autor no texto, o qual possui alguns erros que passaram despercebidos pelas revisões.

É um livro que indico para quem gosta de sair da atitude passiva que o leitor de hoje parece cada vez mais tomar para si, e para aqueles que procuram reviravoltas imprevisíveis capazes de abrir diversos caminhos para interpretações. 

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17.2.16



Eugênia Grandet, escrito por Honoré de Balzac

Editora: Estação Liberdade
Páginas: 264
ISBN: 978-85-7448-138-9
Tradução: Marina Appenzeller

Lançado em 1833, Eugénie Grandet é considerada a obra que exibe maior aprimoramento narrativo na vasta produção de Balzac. Parte integrante do imenso painel que é A comédia humana, narra a história de amor recalcado da jovem que dá título ao romance e a vida de uma pequena província francesa. Neste livro, o autor francês compõe, através de personagens fortes e a paisagem de uma paralisada e decadente sociedade, um amplo estudo ficcional sobre a futilidade pequeno-burguesa, o poder absoluto que o dinheiro exerce sobre a vida e o caráter das pessoas, a frustração amorosa e a índole humana. Entre os personagens importantes, além da própria protagonista, está seu pai, o velho Grandet, um rico comerciante de vinhos que chegara à boa fortuna graças ao dote vindo de sua esposa, a senhora Grandet. Avarento dos mais repugnantes, para quem a única finalidade da existência é a acumulação de riquezas, o velho Grandet acaba por se tornar central para esta narrativa – e não só: o vinhateiro é também um dos grandes personagens de Balzac e de toda a história da literatura. A pacata vida na província de Saumur é agitada pela chegada de Charles, sobrinho do velho Grandet, vindo de Paris, enviado que foi pelo pai, que fracassara nos negócios e cometera suicídio, deixando seu ente aos cuidados do próspero irmão. A doce e provinciana Eugénie, uma das jovens mais ricas da região, é alvo de disputa de todas as famílias que querem casar seus filhos com ela e assumir a fortuna da família. Porém, a garota se apaixona pelo belo e elegante primo. O amor, entretanto, não se concretiza. Ainda assim, a jovem herdeira guarda-o intacto em seu coração, mesmo sob todas as agruras geradas por uma paixão não correspondida. Uma vida que, antes tranqüila, é devastada pela desilusão amorosa e que mostra, sob a feição quase divina da moça, a nobreza de seu sentimento. É nesta ambiência que Balzac aproveita para depositar sua reflexão sobre a sociedade francesa do século XIX. Com descrições equilibradas e densas — como a da morada onde vivem os Grandet, uma “casa cheia de melancolia”, entrevada e doente, que é na verdade um retrato da decadência e da desolação familiar —, o escritor francês mostra aos leitores muito mais que um simples romance, e consagra, evitando uma possível apatia em que poderia cair este trabalho, o pensamento crítico sobre seu tempo. Eugénie Grandet, com sua escrita agradável e seu vigor analítico, ao lado de Ilusões Perdidas, é um dos melhores romances de Balzac. Esta edição inclui prefácio de Pierre Citron e o apêndice “Vida e obra de Balzac”.

O livro de Balzac, publicado em 1833, faz parte do conjunto da Comédia Humana, ou seja, trata-se de um dos livros que compõe essa série de noventa e três títulos escrita por Balzac para fazer um retrato da vida social burguesa na França do século XIX.

A história se passa numa cidadezinha provinciana da França, Saumur, onde vive Sr. Grandet, um homem que começou sua fortuna por meio de suborno e só se dedica a acumulação de dinheiro. Sr. Grandet explora as pessoas e os recursos da maneira mais intensa possível e economiza o máximo que pode. Assim, mesmo num momento da sua vida que já é considerado um dos homens mais ricos da região, o seu modo de vida, sua casa, suas roupas e tudo o que se liga a aparência não correspondem a grandeza de sua fortuna. 

Sr. Grandet tem uma filha, chamada Eugênia, que cresceu nessa vida mesquinha e limitada, sem conhecer as altas sociedades e sem conhecer o tamanho da fortuna da qual era herdeira. Um dia, o Sr. Grandet recebe a visita do sobrinho, Charles, que vem de Paris com uma carta do irmão do Sr. Grandet. Nessa carta, o irmão diz acabou indo a falência e para não perder a honra irá se matar no dia seguinte e pede ao irmão do interior que tome conta do filho. Quando toma conhecimento do suicídio do pai e se vê num ambiente pouco acolhedor e oposto ao luxo da sociedade parisiense da qual era frequentador, Charles fica muito deprimido e recluso. O tio não expressa nenhum respeito por ninguém e por nada, nem mesmo por um jovem que acabara de perder o pai e decide mandá-lo para as Índia Orientais o mais breve possível. 

Assim que vê o primo pela primeira vez, com todo o seu porte de burguês boêmio parisiense, Eugênia se apaixona imediatamente e passa fazer extremos esforços para consolar o primo da perda e para tornar sua estadia mais confortável, tentando burlar o rigoroso sistema de economia do pai que nem grãos de açúcar disponibiliza para o hóspede. 

Diante de tanta dedicação, Charles não poderia ser indiferente e também se apaixona pela prima, lhe dá um único beijo, jura que irá para as Índia recuperar a fortuna perdida e voltará para casar-se com ela. Contudo, sete anos se passam e Eugênia nunca recebe uma única carta de Charles. Neste período, seu pai morre, triunfante com o dinheiro que acumulou, deixando Eugênia como a maior herdeira da França. Eugênia, completamente incompetente na administração desse dinheiro, quase não altera seus hábitos de vida e continua vivendo numa privação desnecessária. Obviamente, passa ser cortejada pelos melhores partidos da região, todos interessado unicamente no seu dinheiro. 

Após sete anos de ausência, Eugênia recebe uma carta de Charles dizendo que já estava em Paris e que se casaria em breve com uma moça de fortuna que tinha conhecido e que a promessa de casamento que ambos haviam feito não passava de uma imprudência da juventude. Charles torna-se parecido com o tio, porém interessado também na posição social e na ostentação da riqueza. O primo desconhecia a fortuna da prima e aproveitou a primeira oportunidade para ficar noivo de uma moça que garantiria sua posição na alta sociedade parisiense. Eugênia fica desconsolada, mas em toda a sua falta de experiência com o mundo, acaba quitando as dívidas de Charles e facilitando o casamento deste com outra. Eugênia se casa um rapaz da região que se encarrega de administrar sua fortuna, porém o casamento jamais é consumado e Eugênia fica fadada a infelicidade.

Assim, o romance traz um cômico e admirável retrato da burguesia emergente do século XIX. O que Balzac mostra são os resultados do processo de transformação da ordem social e política do mundo, que começaram com as grandes navegações, e acabaram por criar essa camada social obcecada pela acumulação de dinheiro e que, para isso, abdica de todas as morais. Sr. Grandet é um personagem fruto do momento histórico em que foi escrito, pois antes da consolidação da ordem capitalista não havia na literatura um papel central para o dinheiro nos desenrolar da narrativa. Além disso, embora o livro leve o nome da filha e ela seja, de certa forma, a personagem principal, Eugênia padece, assim como a antiga ordem do mundo em que não era o dinheiro que comandava as relações, a moral tradicional e o amor. O grande vencedor do livro é o Sr. Grandet, mesmo que ele morra no decorrer da história, pois são os seus valores (ou a ausência deles) que permanecem no fim. E a relação amorosa esperada num romance do século XIX é totalmente frustrada, pois mesmo se ela é alimentada no início da narrativa, após a viagem à Índia, Charles adere ao modo de vida do tio e se torna tão oportunista quanto ele. Logo, não há aqui um herói comovente, romântico e valoroso como poderia se esperar. Justamente ao contrário, Balzac mostra como este conceito de herói ficou no passado, pois o mundo mudou. 

Entretanto, não se pode julgar que há em Eugênia Grandet uma divisão moralista e maniqueísta do mundo em que os bons e valorosos, como Eugênia, padecem, e os maus e gananciosos, como Charles e Sr. Grandet, ganham. Uma boa leitura mostra como a obra possui uma dimensão mais profunda como retrato social. Balzac coloca em questão as transformações morais, políticas e sociais empreendidas, sobretudo, pela Revolução Industrial e pela Revolução Francesa, mostrando seus pontos positivos e negativos com o intuito de provocar reflexões sobre elas e não, como muito se faz erroneamente, dizer que o mundo já foi muito melhor e se tornou ruim. E é justamente essa refinada crítica pincelada de humor que torna tão prazerosa a leitura de Eugênia Grandet

Sobre as edições:

Diferente de outros clássicos, como Orgulho e Preconceito de Jane Austen, Eugênia Grandet não tem mil edições disponíveis no mercado. Eu li o livro em francês em uma edição velha de biblioteca. Contudo, a edição aqui apresentada, da Estação Liberdade, parece muito boa, possui um prefácio e aparenta ter uma tradução confiável. Nos sebos é bem possível de encontrar uma edição antiga dos Imortais da Literatura Universal lançada  pela  Abril Cultural. Os frequentadores de sebos conhecem bem essa coleção de capa vermelha e escritos em dourado. Embora seja antiga, a tradução é aceitável e é bem fácil de encontrar. Há também uma edição de bolsa da Saraiva, daquelas que tem a caricatura do escritor na frente, que normalmente tem uma boa tradução e um preço bem camarada. 
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15.2.16

Outros Cantos, escrito por Maria Valéria Rezende

Editora: Alfaguara
Páginas: 152
ISBN: 9788556520012
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Numa travessia de ônibus pela noite, Maria, uma mulher que dedicou a vida à educação de base, entrelaça passado e presente para recompor uma longa jornada que nem mesmo a distância do tempo pode romper. Em uma escrita fluida, conhecemos personagens cativantes de diversos lugares do mundo e memórias que desfiam uma série de impossíveis amores, dos quais Maria guarda lembranças escondidas numa “caixinha dos patuás posta em sossego lá no fundo do baú”.


Maria, educadora, retorna após várias décadas a Olho d'Água, localizada no sertão nordestino em uma longa viagem de ônibus, onde recorda o remoto tempo em que foi pela primeira vez ao povoado com a missão de educar os homens e mulheres que viviam isolados geográfica, política e educacionalmente durante a década de 1960. A angústia do desconhecido foi substituída pela ansiedade em saber as transformações daquele remoto lugar.
Enquanto esperava a verba e os materiais prometidos pelo vereador que a enviou para aquele povoado, Maria precisa se adaptar e se integrar com os habitantes e, dessa necessidade, passa a trabalhar no tingimento de fios para confecção de redes, a única atividade desenvolvida no local, já que a pecuária está impossibilitada pela ausência de chuvas.

Mexer, sem parar, o fio e a tinta borbulhante, retirar com longas varas as meadas coloridas, fumegantes, e pô-las a secar sobre uma sucessão de cavaletes rústicos, desenlear o fio, já seco, e enrolá-lo em grandes bolas para depois urdir os liços, entremeando as cores em longas listras, transformar o povoado naquele espantoso arco-íris desencontrado, era trabalho de macho. (...) Em uma semana estava pronta a urdidura para transformar o fio bruto nas redes que me haviam embalado a infância e cuja doçura em nada denunciava o esforço sobre-humano e a dor que custavam. (p. 20)
O primeiro desafio enfrentado foi a demora de meses em receber o material didático e, consequentemente, seu salário prometidos pelos políticos locais. Quando, finalmente, esse dia chega Maria vê à frente mais desafios: o lugar é inadequado para montar uma sala de aula e como fará a alfabetização de jovens e adultos, encontra mais resistência ainda já que para aquelas rudes pessoas estudar era desculpa para não trabalhar e a esperança era a educação das crianças.

Apoiada por Fátima, mulher sábia que a acolheu já na sua chegada, Maria passa a dar aulas clandestinamente no período da manhã para as crianças e à noite para os adultos. A professora, diante da dura realidade sertaneja precisa buscar formas de trabalhar a resignação e a aceitação daquelas pessoas frente à sua triste realidade ancoradas na aceitação religiosa de que "Deus quis assim".

Calei-me, e ali fiquei, escorada na parede, um nó doloroso apertando minha cabeça e meu coração, a cortina idealista que me tapava os olhos e só me permitia ver a dor infligida pela exploração do Dono e a inclemência do sol, mais a beleza dos gestos e saberes do povo, rasgando-se mais um pouco e revelando que tudo era muito mais misturado e complicado do que eu pensava. (p. 125)

Assim como Maria levou a educação, a possibilidade de mudança para aquela gente, aquele povoado trouxe a sabedoria popular, a resistência sertaneja à menina idealista que partiu com o intuito de ensinar as letras e mostrar outros caminhos.

Como as memórias correm soltas, Maria entrelaça as histórias e relembra pouco a pouco um e outro sertanejo que, assim como ela nesse momento, retorna ao Nordeste depois de passar temporadas sofridas e tentativas de melhorias de vida em São Paulo ou no Rio de Janeiro.

O retorno a Olho d'Água traz o desejo de calmaria e sossego que 40 anos depois a professora não encontrou no Sudeste do país e esse tempo de informática e transformação para tristeza de Maria parece ter também chegado ao seu querido Nordeste.

Não quero mais correria, pressa, velocidade... Ultimamente ando irritadiça e exausta, resisto, mas sou sempre arrastada pela pressa dos outros desde que a gente passou a viver, se mover, se informar, pensar e se comunicar com o máximo de velocidade possível segundo os diários e ruidosos lançamentos de novas geringonças eletrônicas, prometendo cada vez mais velocidade. Não é só o fast-food no estômago, é o fast-food no cérebro: fast-news, fast-thinking, fast-talking, fast-answering, fast-reading. Parece um complô para me obrigar a ser cada vez mais fast em tudo, a ser avaliada e a me avaliar pela minha rapidez de resposta e de atualização. Ave! E quem pode, assim, continuar a ser gente, ter juízo e saúde? (p.72)

A escrita da autora é muito bonita e sutil, ela enxerga e descreve a beleza em coisas insuspeitas, como no ato do tingimento dos fios transcrito acima. Essa beleza se traduz na esperança da transformação social vivida pela personagem, que tem cunho autobiográfico e se entrelaça com o período que a autora, freira, trabalhou com educação social durante o período da ditadura militar.

Outro ponto interessante é a sutileza da autora em tratar esse período da história. Percebemos de forma bastante delicada os horrores e a impossibilidade de melhoria de vida da população carente durante a ditadura.

Enfim o livro é uma bela sucessão de memórias de uma dura realidade, mas nem por isso triste e sem esperança. Após décadas de ser obrigada a deixar Olho d'Água acompanhamos o fio de esperança de transformação que nutre a vida de Maria.

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10.2.16

Por aí, escrito por Renan Alvarenga
Editora: Chiado
Páginas: 74
ISBN: 9789895158058
Onde comprar: Chiado - Cultura
Cada passo custa uma lágrima
A alegria é lenço precioso
As renúncias são pegadas da nobreza de quem se desafiou a seguir em frente
 
Quero seguir,
Já que não há opção,
Já que estagnação é prisão
Quando as palavras te surpreendem e você se vê nelas, é sinal de que a experiência de leitura foi gratificante. Ainda mais quando o assunto é poesia, e foi exatamente isso que aconteceu quando li "Por aí", do autor nacional Renan Alvarenga, que me enviou o seu livro pela caixa postal e nem imaginava o quão feliz iria me deixar com sua escrita. Como me veio à cabeça durante a leitura do livro: um presente de 2016!

Tenho notado uma certa necessidade pessoal de ler mais dos gêneros que não são tão lidos (quanto mais abordados na internet). como contos, crônicas e... Poesia. E é muito bacana perceber que poemas podem fazer a diferença no meu dia a dia, que eles são capazes, sim, de me entreter e mudar o meu cotidiano para melhor. Pode parecer brega, mas foi uma sensação muito boa perceber que a leitura de textos que parecem fáceis (pela estrutura e pouco comprimento) é, na verdade, - ou deve ser -, desafiadora e impactante. 

Mas isso tudo só acontece na poesia se estivermos falando de uma boa escrita e de uma semântica expansiva. Estou falando do campo de significados: "Por Aí" possui 62 poemas curtos, mas com um vocabulário que possui diversas possibilidades de significação; uma palavra pode, numa segunda leitura, tratar sobre outro assunto imaginado pelo leitor durante a primeira leitura. E isso cria uma demanda por uma releitura que é quase irrepreensível. 
Agonizante
A alma do mundo,
Apagada do verde pulsar,
Inebriada em torpor, clama.
Força esvaída no último suspiro que vivemos hoje desde o início.
Sangue límpido e águas gentis sempre correrão junto às várzeas de arvoredos de cinza erguidos em fotossíntese fumarenta.
Expira
.
.
.
Morre.
(Aqui ele fala da intervenção humana no meio ambiente de forma lírica, do corpo humano submetido ao fumo, ou de ambos? Os destaques são meus.)

A identificação do leitor de um poema precisa acontecer para que ele realmente tenha êxito, já que muitas vezes ele conversa com o que é íntimo, e isso realmente aconteceu comigo ao ler "Por Aí". Mas não tive como conter a curiosidade e fui ler sobre o Renan no breve perfil que tem dele na orelha do livro. Sabendo de algumas informações do autor, pude enxergar um pouco dele em seus poemas, como a questão da religião, visivelmente presente num poema que me tocou, mesmo a religiosidade não sendo um fator marcante em minha vida. Não é algo exagerado, são apenas sentimentos que podemos notar ali no texto depois que ficamos sabendo um pouco mais da vida dele, e que eu não percebi antes disso.
Provação
Empertigo
Ajeito a postura
Lá vem chumbo!
E não tem hora
Vem de assalto
Por vezes demora
Mas vem
Ah, vem!
Na morna rotina, vê palco iluminado
É como eu disse: assalta
Ela espera
Sabe escolher o melhor momento
Quando está por um fio
A paciência...
A saúde...
O amor...
A fé.
Algo presente em alguns dos poemas é a sinestesia, que consiste na repetição de sons consonantais para marcar e dar ênfase no texto. E, lendo em voz alta os poemas, pude notar esta figura de linguagem presente sutilmente nestes três primeiros versos, que, justamente por conta dela, tornam-se bem impactantes: "Esfola-me as fibras do desprezo de tua passada indiferente/Melhor seria a pior das torturas/Em dulcíssimo manjar se converteria o mais pútrido fel". Ler poesia em voz alta vai além de uma necessidade: pode até ser uma vantagem!

A capa de "Por Aí" é bela e interessante, me fez lembrar o conto "A biblioteca de Babel", do Borges, por conta da escada em espiral que parece levar ao infinito, sempre através das mesmas formas. "Por Aí" é o nome de um dos 62 poemas, que parece resumir o que o autor busca transmitir com a sua obra: um conteúdo lírico, instigante e que aborde o mundo ao redor em contato com os nossos sentidos.

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3.2.16

Meus documentos, escrito por Alejandro Zambra

Editora: Cosac Naify
Páginas: 224
ISBN: 8540509288
Tradução: Miguel Del Castillo
'Meu pai era um computador e minha mãe uma máquina de escrever', diz Alejandro Zambra nas primeiras páginas deste livro de contos, que bem pode ser lido como um romance, ou como onze novelas arquivadas na pasta Meus documentos do computador. Às vezes parece ser um mesmo personagem quem fala, que recorda suas desventuras como estudante e professor, ou que registra sua mal-humorada tentativa de largar o cigarro. Com a fina ironia e a precisão já habituais, com humor e melancolia, alento lírico e às vezes com raiva, Alejandro Zambra escreve sobre uma incessante busca pelo pai, a obsolescência de objetos e de sentimentos que pareciam eternos, o desencanto dos jovens da geração de transição chilena, a impostura como única forma de criar raízes, a legitimidade da dor - são esses alguns dos temas que cruzam este livro.

"Em março de 1988 entrei no Instituto Nacional. E logo chegaram, ao mesmo tempo, a democracia e a adolescência. A adolescência era verdadeira. A democracia, não."
A simultaneidade entre os percursos individuais e a História nacional é uma característica maior do livro de contos Meus Documentos. Publicado no Chile em 2013 pela Editora Anagrama e no Brasil em 2015 pela Cosac Naify, Meus documentos é o quarto livro de Alejandro Zambra traduzido para o português. O autor chileno publicou alguns livros de poemas em espanhol, mas só seus romances Bonsai (2012), A vida privada das árvores (2013) e Formas de voltar para casa (2014) chegaram às terras lusófonas. O mais recente livro de contos mantém a tonalidade breve, aparentemente confessional, com personagens reclusos e atordoados pelo mundo que os romances anteriores continham. Entretanto, mais do que contos sobre as relações amorosas e familiares falhadas, problemas de adolescentes, fracasso no mundo profissional e dificuldades para parar de fumar, em baixo do epiderme das questões individuais, há em todos os contos uma angústia constante perante a situação política do Chile.



Bonsai começa pelo final: na primeira linha sabemos que uma das personagens principais morre e isso é repetido várias vezes antes que, cronologicamente, o episódio realmente aconteça. Contudo, o mais importante do romance é o resto, "no final, Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura". Em A vida privada das árvores a memória conduz o romance enquanto Julián cuida de Daniela e espera Verônica chegar em casa. Uma vez mais, já de início sabemos que "enquanto Verônica não vem, não há final". Ambas narrativas centralizam personagens envolvidos emocionalmente uns com os outros ou com as coisas do mundo e como os afetos e as afinidades podem ser imprevisíveis e falhas. Já Formas de voltar para casa é um passo em direção a Meus documentos: as experiências e os traumas particulares da infância se misturam com o sobreviver a um terremoto e com o sobreviver a uma ditadura. O menino e o Chile compartilham a mesma dor em relação a falsidade da aurora que a infância supostamente deveria ter e aos pais que se abstinham e não se opuseram a Pinochet. Lidar com o passado é encontrar formas de voltar para casa. Desta mistura entre a tristeza individual e a tristeza em relação à História que se delineiam os onze contos de Meus documentos.



A antiga imagem de um escritor que tem textos deixados de lado no fundo de uma gaveta, ou no fundo de um baú como Fernando Pessoa, é substituída por textos esquecidos num fundo não-aparente de uma pasta "Meus documentos" do Windows. O primeiro conto começa com a lembrança de quando o narrador viu um computador pela primeira vez e este passa ser a engrenagem central da rememoração a infância e da adolescência.  Conforme o menino cresce, o computador fica mais moderno e a pasta "Meus documentos" ganha seus textos. "Meu pai era um computador, minha mãe, uma máquina de escrever. Eu era um caderno vazio e agora sou um livro", é assim que o narrador do primeiro conto explica o título da obra que o leitor tem em mãos. Logo, levando em conta tal explicação que o conto apresenta, mas que aponta para obra como um todo e o fato do narrador ser em primeira pessoa, supõem-se que a narrativa seja auto-biográfica, ou pelo menos, auto-ficcional. Entretanto, este é o mesmo tom que perpassa todos os contos, assim como os romances anteriormente citados e persiste mesmo quando o narrador é em terceira pessoa. A tonalidade intimista e de confissão, e a maneira como os contos se relacionam e se completam, nos faz querer encontrar um Alejandro Zambra em todos os eus, todos os Max, todos os Daniels, todos os 45, todos os fumantes, todos os chilenos, todos os Rodrigos, todos os Martíns, todas as Yasna.

Os outros dez contos trazem enredos como: um amigo que quer aprender sobre futebol, um homem que foi morar na casa de uns parentes enquanto esses viajavam, um homem que tentar melhorar a relação com seu filho dando-lhe gatinhos de presente, um relacionamento frustrado, outro relacionamento frustrado e por aí vai. Mas há alguns contos, ou pedaços deles, que narram situações que poderiam envolver emoções exacerbadas como: a procura por um pai exilado, um estupro, um sequestro, uma demissão, uma viagem a Bruxelas. Contudo, tanto os acontecimentos insignificantes, quanto os acontecimentos de grandes ações são envolvidos na mesma capa de banalidade e melancolia, como se a relação do indivíduo com o mundo pudesse ser significada, ressignificada ou abalada por um coração partido ou por uma piada mal contada em inglês.

No último conto a figura central é uma mulher, o que contrasta com o resto do livro que é narrado por homens ou conta a história de um homem. Entretanto, nenhum deles, nem a mulher, nem os homens, estão numa posição de poder maior do que o outro. No conto Lembranças de um computador pessoal, o personagem principal, Max, usa de sua posição de homem para tentar sujeitar a namorada Claudia. Mas nem um ato de violência faz dele faz dele mais forte. Justamente o contrário, o torna ainda mais sensibilizado, inapto e sozinho diante do mundo.

Um outro fator que liga todas as personagens é a relação com a literatura. Zambra tem formação em literatura hispânica pela Universidade do Chile e talvez seja isso que encha seus livros de professores de literatura, leitores vorazes, escritores frustrados. Os contos, assim como os romances anteriores, estão repletos de referências musicais com uma ênfase particular e merecida na música chilena, mas nada é tão constante e tão uniformemente presente quanto as referências literárias que vão e vem entre Henry Miller, Italo Svevo, Gabriel García Márquez e Claudio Giaconi. Essa constante tem seu apogeu no conto Eu fumava muito bem em que o personagem recapitula todas suas leituras e seu prazer na literatura através do prazer que tinha em fumar.

Embora a erudição literária do autor seja evidente, os contos seriam somente relatos individuais sobre relacionamentos frustrados e pessoas desajeitadas com o mundo se não houvesse uma outra constante neles: o Chile. Mais sutil que as referências literárias, as questões políticas que tocam a Ditadura de Pinochet ou a democracia falha que se seguiu envolvem todas as personagens e todas as situações. Nem que pareça breve, só um detalhe, uma única frase no meio de um parágrafo, os contos mostram como os percursos individuais e as questões da vida privada eram e são afetadas pela identidade e pela História nacional. O homem que viajou até Bruxelas para procurar a ex-namorada e acabou "levando um segundo pé na bunda'',  termina na mesa de um bar, contanto mal uma piada em inglês e sendo alcunhado de "o homem mais chileno do mundo". Assim como em Formas de voltar para casa, a melancolia dos relacionamentos frustrados, do pai partiu, da demissão, do gatinho que fugiu são regidas por uma melancolia maior diante da situação política, social e histórica do país.

Desta maneira, Zambra está fazendo uma literatura nova e moderna, mas ao mesmo tempo continua com o caminho latino-americano de pensar a identidade nacional e de como a História e as histórias se entrelaçam. Assim como García Márquez, quando Zambra fala do Chile, este pode ser também a América Latina. E isso é um dos fatores que justificam a a potência de sua literatura. 


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1.2.16

Ainda estou aqui, escrito por Marcelo Rubens Paiva

Editora: Alfaguara
Páginas: 296
ISBN: 9788579624162
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Trinta e cinco anos depois de Feliz ano velho, a luta de uma família pela verdade. Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, passou a criá-los sozinha quando, em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas.
Nunca chorou na frente das câmeras. Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, Marcelo Rubens Paiva fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento negro da história recente brasileira para contar — e tentar entender — o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971.
“Ainda estou aqui” é um livro de memórias da família Paiva sob o olhar do único homem de cinco filhos de Eunice e Rubens Beyrodt Paiva. A família, de classe média alta, teve sua vida transformada após o desaparecimento do deputado cassado Rubens Paiva durante o período da ditadura militar, no ano de 1971.

O engenheiro civil Rubens Paiva ingressou na política em 1962 como deputado federal por São Paulo em 1962 pelo PTB e teve seu mandato cassado em 1964 com o Golpe Militar. Homens armados invadiram a casa da família no Rio de Janeiro levando o deputado e, mais tarde, a mãe e irmã mais velha da família. Rubens Paiva nunca mais foi visto pela sua família.

Buscando a reconstituição dos fatos entre relatos de testemunhas e amigos da família, o autor nos dá detalhes dos terríveis porões da ditadura, das torturas físicas e psicológicas sofridas pelos presos políticos. Os relatos são pesados e é bastante difícil vencer as páginas com essa realidade chocante da história recente do nosso país.

O caso de Rubens Paiva foi um dos que mais ganhou destaque na mídia e um fato interessante foi a postura de não rendição perante a mídia assumida pela família, que tentava passar a imagem de “família desolada pela ditadura”.

Família Paiva posa sorrindo para foto que denuncia o desaparecimento de Rubens Paiva
[Fonte]
Marcelo avança cronologicamente nas suas memórias e nos expõe a principal transformação que essa realidade terrível acarretou em sua vida. Enquanto buscavam pelas informações a respeito de seu pai, sua mãe, Eunice Paiva, até então uma pacata dona de casa de uma família rica, cujas funções se resumia a servir whisky para os amigos políticos de seu marido e entreter suas respectivas esposas, assume o controle da família e aos 41 anos ingressa na faculdade de direito sendo, posteriormente, uma das maiores advogadas dos direitos indígenas do país.

Pelo fato de não ser declarada viúva, pois oficialmente Rubens Paiva não estava morto, e não poder ter acesso aos bens do marido, Eunice precisou assumir as rédeas da situação e buscar o sustento da família e se tornou uma advogada bastante respeitada em âmbito nacional e sempre lutou pelo esclarecimento da morte do esposo.

Além de enfrentar todos os traumas causados pela ditadura com o desaparecimento do marido e pelo acidente do filho, Eunice ainda passou a sofrer de Alzheimer e tem pouco a pouco sua memória apagada. Talvez esse livro seja uma tentativa de Marcelo manter viva a memória de sua mãe, a narrativa é uma bonita homenagem a ela.

O atestado de óbito de Rubens Beyrodt Paiva foi emitido em 1996 após sancionada a Lei dos Desaparecidos pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso e apenas em 2014 a Comissão Nacional da Verdade denunciou o ex-tenente Antônio Fernando Hughes de Carvalho como assassino do ex-deputado.

Fiquei incomodada com alguns pontos do livro, apesar de entender e respeitar o sofrimento do Marcelo e sua família. Depois de ler Feliz Ano Velho, imaginei que 33 anos depois encontraria relatos de uma pessoa mais madura, tanto no quesito pessoal quanto da escrita. O que senti é que o autor tentou manter a mesma informalidade e despretensão do primeiro livro, mas tanto tempo passado essa descontração não me pareceu natural. Infelizmente esse livro, para mim, soou bastante repetitivo em relação ao “Feliz Ano Velho” em alguns relatos de seu acidente e do desaparecimento e morte do Rubens Paiva.

Outro ponto que me incomodou foi, no início do livro, as constantes reclamações do autor em relação ao trabalho que sua mãe está dando aos filhos, vítima de Alzheimer. Entendo que é um relato sincero e, ainda sim, uma homenagem à Eunice Paiva, mas mesmo assim esses relatos iniciais me incomodaram.

Apesar disso é um bom livro, pois expõe os horrores ainda pouco comentados da ditadura militar e as consequências, para o bem e para o mal, na família Rubens Paiva.
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