10.1.16

Retrato de uma senhora, de Henry James (Inglaterra)

Retrato de uma senhora, escrito por Henry James

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 670
ISBN: 9788535909852
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.

Retrato de uma senhora, publicado pela primeira vez em 1881, é o primeiro grande romance de Henry James, e talvez sua obra máxima. Num século em que a esposa burguesa insatisfeita tornou-se um personagem literário central, e o adultério um motivo romanesco recorrente - o século da Madame Bovary, de Flaubert, e de Anna Karenina, de Tolstói -, Henry James colocou em cena uma heroína singular, cuja carência essencial é de outra ordem. Com uma narrativa que, astuciosamente, começa lenta, quase contemplativa, e aos poucos se acelera, ganhando dramaticidade, James constrói sua história como um jogo em que cada coisa se transmuta em seu oposto: liberdade em destino, afeto em traição, pureza em artimanha - e vice-versa.

Sobre o que se trata

Depois de uma perda familiar, a tia de Isabel Archer, a sra, Touchett, leva a garota consigo dos Estados Unidos para a Inglaterra, onde o seu marido, o sr. Touchett, mora com Ralph, o seu filho. Lá, somos apresentados a um cotidiano ameno, sem muitos acontecimentos, visto que se trata de uma grande propriedade interiorana, mas também devido à frágil saúde do primo de Isabel. Os acontecimentos são marcados por visitas, sobretudo do vizinho e amigo de Ralph, o lorde Warburton, um nobre rico que logo se apaixona pela garota estadunidense pobre. E o livro poderia caminhar para uma história de amor representada por extremos (rico x pobre) à la Jane Austen se a nossa protagonista não fosse teimosa, sedenta por liberdade e um tanto quanto incompreensível.  E se este não fosse o principal viés para Henry James chegar à grande reviravolta do livro, que está longe de abordar uma história de amor.

Isso porque Isabel é uma personagem que se constrói muito forte e determinada na primeira metade da obra. Toda a constituição de Retrato de uma senhora que presenciamos num primeiro momento se transforma em seu oposto da metade para o final, numa busca dura e injusta por mostrar que nem tudo o que reluz é ouro. As relações sociais são trabalhadas, expostas, criticadas e, principalmente, questionadas.

Quando chega à Inglaterra, Isabel Archer, ainda uma senhorita, ainda uma pessoa, volta-se completamente à sua vida enquanto mulher independente, à satisfação de seus desejos – ser livre, viajar e viver como bem entender. Recebe algumas propostas de casamento (as quais recusa), um dote que a torna rica (e, pressupõe-se, mais independente ainda) e viaja com a sua tia, com a qual, depois de viver do jeito que quer (basicamente viajando e vivendo do ócio, como todos os personagens do livro), vai morar na Itália, onde conhece Madame Merle e o sr. Osmond, dois personagens extremamente importantes para o enredo, o qual levará Isabel à condição de objeto enquanto senhora  e teremos um retrato de uma senhora presa a um destino totalmente oposto àquele que sonhou para si.

Minhas impressões

A primeira cena já cativa o leitor, que já possui um grande vislumbre da narrativa do livro, para mim a principal característica da obra, pois trata-se de um foco narrativo muito bem articulado, o qual utiliza e muito o discurso indireto livre, e sempre incide sobre a perspectiva de um personagem, mesmo sendo em terceira pessoa onisciente. É como se houvesse um holofote que Henry James direciona para a cabeça de quem ele quer naquele momento, para guiar o leitor para o que ele quer que se saiba da história, a qual não é dada por completo à quem lê a obra, um artifício construído com maestria para criar um mistério, uma reviravolta e muito drama quando se descobre toda a verdade. Como o foco narrativo incide sobretudo em Isabel Archer, a protagonista que se mostra ingênua e cai numa armadilha, também caminhamos para uma grande transformação no enredo – justamente porque a narrativa nos guia da forma como quer, não permitindo uma visão do todo, apenas do recorte feito pelo autor, o que esconde muitas verdades.

Verdades estas que Ralph parece perceber e entender muito antes de Isabel, pois se trata aqui de um personagem muito perspicaz e inteligente, sobre quem o foco narrativo pouco incide, já que o autor não quer que saibamos de tudo. Ele possui seus dias contados, morre cada dia mais e, por isso, observa a vida atentamente, e esta é a sua grande diversão. Observar Isabel parece lhe dar um grande prazer, e seus motivos para isso não ficam completamente claros na obra, apenas temos pistas que nos dão possibilidades  ele só é um curioso quanto à prima teimosa e ingênua, ou é um dos muitos homens que passam a amá-la?
"– Não questione tanto a sua consciência, vai acabar desafinando como quando se martela demais num piano. Guarde-a para as grandes ocasiões. Não tente formar tanto o seu caráter - é como tentar abrir à força um botão fechado e tenro de rosa. Viva como achar melhor e seu caráter cuidará de si mesmo." (p. 266)
É difícil escrever sobre este livro sem dar spoilers, e é por isso que estou sendo bem superficial ao tratar sobre o enredo (leia-se: sobre a reviravolta), porque apesar de não ligar para spoilers, confesso que este livro é bem mais surpreendente e interessante quando descobrimos sozinhos o que acontece. Mas, posso dizer que é uma coisa que muda da água para o vinho a condição dos principais personagens. E não se espera a conduta que todos têm diante de algo assim, principalmente a de Isabel, que no início era uma das minhas personagens preferidas da literatura, mas depois caiu completamente no meu conceito e me mostrou que nós podemos não saber quem somos realmente. Que querer, às vezes, não é poder, principalmente quando fazemos escolhas erradas e precipitadas, ou mesmo totalmente diferentes de nossos princípios. E que as pessoas podem não ser quem elas dizem ser.
"– Ah, as coisas são sempre diferentes do que deveriam ser – disse o velho. – Se esperar que mudem, nunca fará nada."  (p. 220)
É um livro crítico, denso e demorado de se ler. Não apenas por ter 670 páginas, mas porque o enredo é realmente lento em algumas partes, sem contar que a vida dos personagens é baseada no ócio, e pouco acontece. Quando acontece, pode ser que não seja descrito no livro, apenas citado como algo que já aconteceu entre um capítulo e outro (não posso dar exemplos sem também dar spoilers). Mas este aspecto da obra é positivo para mim, parece que o autor testa a nossa capacidade de nos manter fiéis à sua história, pois ela é muito interessante. Apenas demanda mais tempo para se ler, que é algo bem questionado hoje, já que muitos leitores optam por livros mais curtos.

Projeto Lendo o Mundo: Inglaterra

Henry James possui dupla nacionalidade: nasceu nos Estados Unidos e morreu na Inglaterra, e nesse meio-tempo conseguiu sua cidadania britânica. Portanto, poderíamos encaixar Retrato de uma senhora tanto como um livro representante da literatura estadunidense, como da inglesa. Mas, por ser ambientado principalmente na Inglaterra, e nem tanto nos Estados Unidos, preferi associá-lo à Inglaterra no projeto Lendo o Mundo.

Henry James conseguiu a sua cidadania britânica um ano antes de morrer, em 1914, apenas, mas viveu por muitos e muitos anos na Inglaterra, chegando a ficar até vinte anos sem retornar aos EUA, onde nasceu em 1843, em Nova York. Seu pai, um intelectual, proporcionou bons estudos para Henry James e seu irmão, William James, sendo que o primeiro começou a faculdade de direito em Harvard, mas abandonou para se dedicar exclusivamente à literatura. Esteve em países como Itália e Suíça e viveu um ano em Paris, onde conheceu o círculo de Flaubert (Maupassant, Zola). Em 1976, fixou-se em Londres.

Sua carreira pode ser dividida em três períodos. Retrato de um senhora é o ápice do primeiro, que começa na década de 1870, Já o segundo pode ser dividido em duas etapas: de 1885 até 1890, os anos mais experimentais, e de 1890 a 1895, os mais dramáticos, dos quais fazem parte Pelos olhos de Maisie e A volta do parafuso. Já o último período é muitas vezes considerado o mais importante da obra de Henry James, pois aborda a consciência humana. Os embaixadores é desta época.

Área: 130.395 km²
Capital: Londres
População: 54,2 milhões (estimativa 2014)
Moeda: libra esterlina
Nome Oficial:  Inglaterra
Nacionalidade: inglesa
Governo: Monarquia Parlamentarista
Divisão administrativa: regiões, condados, distritos e paróquias.

Curiosidades:
Refeição (em local barato): R$ 71,03
Fast food (combo): R$ 29,60
Água: R$ 5,32
Cerveja (garrafa): R$ 19,83
Refrigerante (lata): R$ 6,68
Pão (500g): R$ 5,71
Maço de cigarro: R$ 50,32
Taxi (corrida 1km): R$ 7,40
Gasolina (1 litro): R$ 6,65
Cinema: R$ 53,28
Aluguel Apto Centro (1 quarto): R$ 4.337,80
Energia, Gás, Água, Lixo: R$ 842,24

Os 10 livros ingleses mais populares, segundo o Goodreads:
1. Orgulho e Preconceito – Jane Austen
2. Jane Eyre – Charlotte Brontë
3. O Senhor das Anéis – J.R.R. Tolkien
4. O Morro Dos Ventos Uivantes – Emily Brontë
5. As Obras Completas – William Shakespeare
6. 1984 – George Orwell
7. O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
8. Harry Potter – J.K. Rowling
9. As Crônicas de Narnia – C.S. Lewis
10. Emma – Jane Austen
Fonte: x x x x 

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