18.1.16

Mulheres de Cinzas, Mia Couto

Mulheres de Cinzas, escrito por Mia Couto

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 344
ISBN: 9788535926620
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Primeiro livro da trilogia As Areias do Imperador, Mulheres de cinzas é um romance histórico sobre a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane (ou Gungunhane, como ficou conhecido pelos portugueses), o último dos líderes do Estado de Gaza - segundo maior império no continente comandado por um africano.
Em fins do século XIX, o sargento português Germano de Melo foi enviado ao vilarejo de Nkokolani para a batalha contra o imperador que ameaçava o domínio colonial. Ali o militar encontra Imani, uma garota de quinze anos que aprendeu a língua dos europeus e será sua intérprete. Ela pertence à tribo dos VaChopi, uma das poucas que ousou se opor à invasão de Ngungunyane. Mas, enquanto um de seus irmãos lutava pela Coroa de Portugal, o outro se unia ao exército dos guerreiros do imperador africano.
O envolvimento entre Germano e Imani passa a ser cada vez maior, malgrado todas as diferenças entre seus mundos. Porém, ela sabe que num país assombrado pela guerra dos homens, a única saída para uma mulher é passar despercebida, como se fosse feita de sombras ou de cinzas.
Ao unir sua prosa lírica característica a uma extensa pesquisa histórica, Mia Couto construiu um romance belo e vívido, narrado alternadamente entre a voz da jovem africana e as cartas escritas pelo sargento português.
O livro "Mulheres de Cinzas" primeiro volume da triologia "As Areias do Imperador" mistura ficção e História sobre Moçambique do século XIX, no período em que o país era governado por Ngungunyane, último líder do estado de Gaza.

A obra é narrada pelo ponto de vista de Imani e Germano de Melo. Imani é uma adolescente de quinze anos da tribo VaChopi, cujo nome significa "quem é?" e traz a perspectiva não apenas dos negros sobre uma guerra que não compreendem inteiramente, mas, principalmente, a angústia das mulheres nos tempos de guerra.

O ponto de vista de Germano de Melo é através de cartas endereçadas ao Conselheiro José D'Almeida e explicita o ponto de vista europeu sobre os "bárbaros" africanos.
Não sei por que me demoro tanto nestas explicações. Porque não nasci para ser pessoa. Sou uma raça, sou uma tribo, sou um sexo, sou tudo o que me impede de ser eu mesma.
Imani, que é uma das poucas pessoas do povoado que fala e entende muito bem o português, é enviada como intérprete para Germano de Melo e sua proximidade ao sargento português transforma a ambos.

Os capítulos narrados por Imani expõem de forma poética e triste a resistência VaChopi e, principalmente, sua resistência enquanto mulher. A sua própria família acredita que ela deveria se juntar ao estrangeiro e sumir da zona de conflito, pois na Moçambique do século XIX a mulher é um ser nulo que só passa a existir enquanto pessoa depois de se unir a um homem e gerar um filho. Mas diante da situação miserável em que o país se encontra, o melhor para a filha seria ir embora para Portugal.
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As cartas enviadas por Germano ao longo da narrativa têm uma significativa transformação. De início elas são simples relatórios expondo a situação portuguesa no conflito moçambicano. Com o passar dos meses vemos um homem mais sensível e propenso às crenças africanas, sendo pouco a pouco, sensibilizado por essa menina que ele considera especial.
Olhei os homens labutando e não pude deixar de notar a falta de habilidade dos portugueses. E dei comigo a pensar: nós, os negros, sabemos mexer numa pá incomparavelmente melhor que outra qualquer raça. Nascemos com essa habilidade, a mesma que nos faz dançar quando precisamos rir, rezar ou chorar. Talvez porque há séculos somos obrigados a enterrar, nós mesmos, os nossos mortos, que são mais que as estrelas.
A questão mais pungente no livro é a situação das mulheres no ambiente hostil transformado por guerras e invasões. Elas não choram apenas os seus filhos, elas vivem o luto de todas as guerras passadas e são obrigadas a tornarem-se invisíveis, como se fossem feitas de cinzas,  para amenizar seu sofrimento e não serem ainda mais violentadas pelos homens de sua e outras terras.
É por isso que às moças solteiras se atribui o nome de lamu, palavra que significa "aquela que espera". É um modo de dizer que seremos pessoas apenas depois de sermos esposas.
É muito difícil chegar ao fim dessa leitura sem se emocionar e aprender com a jovem Imani. Suas reflexões carregadas de ensinamentos ancestrais das crenças africanas nos coloca a refletir sobre a triste situação que acometeu o continente africano, nossa parcela de culpa e egoísmo e como a situação do continente ainda hoje sofre os terríveis reflexos da invasão européia.

É um livro poético e triste e uma excelente porta de entrada na obra de Mia Couto e também na literatura africana, pois apesar de estar presente os elementos da cultura africana, que pode causar certo estranhamento a quem não está acostumado, a linguagem é mais palatável e de fácil compreensão.

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