22.1.16

Diário de Leitura #3 - Lendo Os Miseráveis

"Ninguém poderá impedir o pensamento de voltar a uma ideia, como não podemos impedir o mar de voltar sempre a uma praia. Para o marinheiro isso se chama maré; para o culpado isso se chama remorso. Deus agita a alma como agita o oceano." (p.340)
Até que enfim terminei a primeira "grande meta" da leitura de Os Miseráveis: concluir a primeira parte, intitulada "Fantine", na qual obviamente a protagonista é esta mulher de origem incerta que cai na conversa de um galanteador e se torna mãe solteira muito nova, com apenas 22 anos. Como já contei na segunda postagem da leitura conjunta, ela passa por provações para conseguir, sozinha, sustentar sua filha, Cosette, personagem que dá nome à próxima parte do livro. Já poderíamos chamá-la de miserável antes mesmo de deixar sua filha com os Thénardier, pessoas oportunistas e cruéis que fingem cuidar de Cosette para receberem uma quantia de dinheiro por mês (que só aumenta conforme o tempo passa), mas depois da conclusão da narrativa de sua história, percebemos que ela chegou no ápice (ou poderíamos mencionar uma antítese aqui, no abismo?) da miséria. E o que antes eu pensei que fosse ser uma grande alegria, mostrou-se capaz de me fazer sentir piedade e compaixão – a história de Fantine massacrou o meu coração. É triste. Dói. E fere sem ter dó do leitor.
 

Livro Sexto - Javert
Enquanto o sr. Madeleine está tentando entrar em contato com os Thénardier para conseguir que devolvam Cosette para a mãe (e, claro, depois de quitar toda a dívida de Fantine para com eles), que está à beira da morte sendo cuidada por ele e pelas irmãs Perpétue e Simplice, Javert vai até o seu escritório para fazer uma denúncia:
"– Um oficial inferior faltou ao respeito a um magistrado de maneira mais grave. Venho, como é o meu dever, trazer o caso ao seu conhecimento." (p.312)
Acontece que o "magistrado" é o sr. Madeleine, o maire da cidade (prefeito), e o "oficial inferior" é ele próprio, Javert. O cara é tão pedante (e mala, vamos dizer a verdade com todas as palavras) que entrega a si próprio porque é o seu dever e bláblá. Mas aconteceu uma incrível reviravolta para que ele abaixe a cabeça e para que peça que Madeleine o demita: ele desconfiava da identidade de Madeleine, denunciou-o como um ex grilheta, o reincidente Jean Valjean, às autoridades, mas disseram-lhe que ele havia cometido um dos maiores erros de sua vida: Jean Valjean havia sido preso fazia alguns meses ao tentar roubar frutas de uma propriedade, e alguns grilhetas que haviam servido ao lado dele o reconheceram. Javert explica tudo isso ao sr. Madeleine, e pede para que seja demitido. O prefeito, abalado por dentro, mas agindo de maneira fria por fora, descarta a possibilidade de mexer na posição do "oficial inferior" e o manda embora.

Livro Sétimo - O caso de Champmathieu
Nesta passagem do livro, o narrador nos entrega a verdade da qual já desconfiamos: o sr. Madeleine é, sim, Jean Valjean, que conseguira, com diversos golpes de sorte, construir uma vida digna, mas sem revelar que já estivera das galés - fato que o recobriria de preconceitos por parte da sociedade, por mais que sua história fosse de redenção e bondade.

Dessa forma, ele se vê num impasse: revelar sua identidade e salvar um inocente, um miserável chamado Champmathieu, que seria destinado ao serviço forçado para sempre, ou se manter, agora ainda mais, sob o nome de Madeleine e enterrar o seu passado – na cova de outro? Nesta parte do livro, entramos em contato com a construção sensacional que Victor Hugo fez de uma consciência em crise. Jean Valjean não sabe o que fazer, pois de qualquer forma não poderá fazer o bem ao próximo. Se ele se entregar, Fantine, Cosette e uma grande parcela da população da cidade onde possui suas fábricas ficariam na miséria; se não se entregar, Champmathieu seria condenado ao trabalho perpétuo (quiçá à morte), por crimes que não cometeu, e a consciência pesaria sobre "Madeleine" eternamente.

Está para acontecer o julgamento de Champmathieu numa cidade a mais ou menos seis horas de distância da residência de Jean Valjean, e ele faz de tudo para chegar a tempo: há um acidente, sua condução quebra, seu cavalo se cansa, é preciso fazer um desvio num trecho da estrada que está interditado... Mas ele finalmente chega e consegue participar da audiência. E, ali, revela sua verdadeira identidade, deixando todos surpresos e espantados! O sétimo livro acaba com Jean Valjean se retirando da sala de audiência, dizendo que estaria à disposição das autoridades em Montreuil-sur-Mer, sua cidade, caso eles tomem alguma decisão, já que todos ficaram praticamente imóveis de tanta surpresa.

Oitavo Livro - Contragolpe
No último livro da primeira parte de Os Miseráveis, Jean Valjean volta para tentar definir o caso de Fantine, mas já sem saber o que fazer direito com a situação, pois sabe que está prestes a ser preso. Quando se reencontra com a miserável, que pensa que ele viajou para buscar sua filha, e não para se entregar, tentam de tudo para que ela se acalme e acredite que trouxeram sua filha, sim, mas que ela só veria Cosette quando se recuperasse. Quando ela está prestes a acreditar completamente na conversa de todos, Javert aparece em seu quarto para prender Jean Valjean, e entrega toda a história à infeliz que, diante do choque – Madeleine não sendo mais o prefeito e, sim, um ex grilheta, e Cosette não estando ali por perto – e da grosseria do inspetor de polícia, morre. Mas esta primeira parte do livro termina com a fuga de Jean Valjean, fato que cria diversos questionamentos na cabeça do leitor: o que acontecerá daqui por diante?

Resumo

Páginas lidas: da 306 até a 441.
Índice - Lido até o momento:  Livro sexto (Javert), Livro sétimo (O caso Champmathieu) e livro oitavo (Contragolpe) - fim da parte "Fantine".
Personagens importantes apresentados: Champmathieu e as irmãs Perpétue e Simplice.
Impressões gerais: sem muitas digressões e descrições; narrativa repleta do enredo; diálogos e cenas incríveis, como a parte do conflito interno de Jean Valjean; uma análise da consciência humana; muita miséria e desfecho desumano para Fantine.

Citações

9 passagens marcadas, dentre frases interessantes e descrições que quero relembrar.
Que coisa mais sombria é esse infinito que todo homem leva em si mesmo, pelo qual desesperadamente mede os desejos do seu cérebro e as ações da sua vida! (p. 332)
Quando nossa alma está agitada, tudo dentro de nós fala, menos nossos lábios. As realidades da alma, por não serem visíveis e palpáveis, não deixam de ser realidades. (p. 340)
Os ramos, quando alguém se aproxima para roubar-lhes a flor, estremecem, parecendo querer ao mesmo tempo oferecer-se e fugir. Os corpos humanos também têm alguma coisa desse estremecimento quando chega o instante em que os dedos misteriosos da morte estão prestes a se apoderar de uma alma. (p. 417)

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