16.1.16

Diário de leitura #2 - Lendo Os Miseráveis

"A que se reduz toda essa história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava.
Para quem? Para a miséria." (p. 289)
A experiência de leitura de Os Miseráveis vem se mostrando uma surpresa extremamente agradável de 2016; amo estar na companhia do Victor Hugo e de seus personagens. Sua escrita é fluida e muito cativante, e ainda afirmo: mesmo com suas descrições e páginas e mais páginas apenas para tratar sobre algo da história – algo que, para inúmeros autores (até mesmo bons, excelentes autores), poderia ser descrito mais objetivamente. Mas não me importo, defendo a prolixidade de Hugo até o momento em que ele começar a me irritar, e pode ser que somente depois que me irritar profundamente, não apenas me irritar. Porque sua escrita é como se sentir em casa! Sinto como se é aquilo que eu deveria estar fazendo naquele momento (e muitas vezes desejo a leitura em horários inadequados ou impossíveis, como ao dormir).
 

Como disse na primeira postagem da leitura conjunta #LendoOsMiseráveis, eu estava adiantada e optei por comentar sobre tudo o que li naquela semana. Mas agora percebo que será melhor falar apenas sobre a meta da semana – se cumprida –, pois assim mantenho uma regularidade e mais organização nos meus registros!

Pois bem, na semana passada eu li até a parte em que Victor Hugo nos apresenta a inúmeros fatos desconhecidos sobre o ano de 1817 e, consequentemente, a muitas e muitas notas de rodapé. Cansativas - mas ainda não foram irritantes! É com essa descrição longa que ele nos introduz a oito novos personagens e, dentre eles, a dois muito importantes. São eles: Félix Tholomyès, Listolier, Fameuil, Blachevelle, Favourite, Dahlia, Zéphine e Fantine. Quatro casais. Quatro homens desonestos. Três mulheres superficiais. Uma mulher corajosa. Eles nos são apresentados da seguinte maneira: 
"Eis, confusamente, o que acontecia em 1817, coisas de que hoje já não nos lembramos. A história negligencia quase todas essas particularidades, e não poderia fazer de outro modo; a infinidade dos detalhes a sufocaria. Contudo, esses pormenores, erradamente chamados de pequenos – não existem pequenos fatos na história, como não existem pequenas folhas na vegetação – são úteis. As feições dos anos é que compõem a fisionomia dos séculos.
Justamente nesse ano de 1817, quatro rapazes de Paris pregaram uma 'boa peça'." (p.199)
A "boa peça" da qual já nos previne Hugo nos é contada apenas depois de explicar o relacionamento de cada um, e de sabermos que Fantine, que aliás é a personagem que dá nome à parte de Os Miseráveis que estamos lendo, é a única das quatro mulheres que realmente se apaixonou pelo namorado. As outras permanecem por puro interesse. Até que são abandonadas.
"Fantine era uma dessas criaturas que desabrocham, por assim dizer, do fundo do povo. Saída das mais espessas e insondáveis sombras da sociedade, tinha na fronte o símbolo do anonimato e do desconhecimento. Nascera em Montreuil-sur-Mer. Filha de quem? Quem o poderia dizer? Ninguém lhe conheceu o pai nem a mãe. Chamava-se Fantine. Por que Fantine? Era o único nome que tinha. À época de seu nascimento havia ainda o Diretório. Portanto, nada de sobrenomes, porque não tinha família; nada de nomes de batismo, porque a Igreja não estava presente. Foi-lhe dado o nome que agradou ao primeiro transeunte que a encontrou pequenina, andando descalça pelas ruas." (p. 202)
Mas Fantine é abandonada com uma tripla infelicidade: além do abandono, ama Tholomyès e, como se não bastasse isso, engravidou dele. A partir deste momento, sabemos o que aconteceu com Fantine quando teve que criar Cosette, sua filha amada, sozinha e numa sociedade preconceituosa, oportunista e extremamente conservadora

Para conseguir sobreviver e sustentar a filha, a qual lhe impedia de conseguir um emprego, pois não havia ninguém que cuidasse da pequena, e muito menos alguém que lhe desse um emprego sabendo que é mãe solteira, deixa Cosette sob os cuidados de um casal dono de uma hospedaria, que fecharam o acordo de criá-la por receber um "salário" para isso. E esta quantia cobrada só aumenta com o passar dos meses, fato que eles jusrtificam ao criarem falsas situações (como doenças e luxos inexistentes da criança) apenas para lucrarem e receberem às custas de Fantine.


Mas Fantine trabalhava na fábrica do bondoso, mas ausente, sr. Madeleine, o prefeito da cidadezinha para a qual voltou, sua cidade natal. Aqui, somos apresentados a este personagem misterioso que, apesar de praticar o bem "não importa a quem", é envolto num passado que não é entregue de primeira ao leitor. Por isso ser misterioso. Estava tudo tranquilo na vida de Fantine, seu emprego lhe proporcionava o sustento e também enviar o dinheiro combinado para os cuidados de sua filha, até que descobriram sobre Cosette e o preconceito dominou a situação: Fantine foi expulsa do emprego injustamente e sem o conhecimento de seu patrão (a supervisora possuía plenos poderes dentro da fábrica destinada às mulheres e na qual Madeleine não entrava), e, para conseguir o dinheiro necessário à sua sobrevivência (e à de sua filha), passa por situações extremas, humilhantes e degradantes – de arrancar seus dentes bons da frente à se prostituir.
"Tomava [o sr. Madeleine] as refeições sempre sozinho, tendo um livro aberto na frente, e lia enquanto se alimentava. Possuía uma pequena biblioteca de livros escolhidos. Gostava dos livros; os livros são amigos frios e seguros." (p. 258)
No final da meta de páginas lida, Fantine acaba sendo vítima de um conflito com um cidadão de posses, que a assedia na rua e lhe atinge nas costas com uma bola de neve. Este episódio, além de lhe garantir uma doença pelo frio pelo qual passou, ainda é o responsável por quase levá-la à prisão. Isso porque somos apresentados a mais um personagem importantíssimo: Javert, o inspetor da polícia, responsável pela manutenção do status quo público, pela ordem, por evitar conflitos nas ruas da cidade. E como houve um conflito, já que Fantine se irritou com aquele que a assediou e atingiu, indo para cima do rapaz com tapas e golpes, Javert tenta prendê-la (também injustamente), já que deixou impune o responsável pelo caos somente por ser um cidadão de posses.
"Quando Javert ria, o que era muito raro e terrível, seus lábios muito finos separavam-se, deixando ver não só os dentes, mas também as gengivas, produzindo ao redor do nariz uma dobra achatada e selvagem que lhe dava o ar de um focinho próprio de animais ferozes. Javert, quando sério, era um cão; quando ria, transformava-se num tigre. Quanto ao mais, cabeça pequena e queixo volumoso; os cabelos caídos sobre as sobrancelhas escondiam-lhe a fronte; entre os dois olhos, uma ruga permanente como se fora uma estrela de cólera; olhar obscuro, boca afetada e temível, um ar de comando feroz. 
(...)
E, com isso tudo, levava uma vida de privações, de isolamento, de abnegação, de castidade, sem uma distração sequer. Era o dever implacável, a polícia compreendida como os espartanos compreendiam Esparta; sentinela impiedosa, honestidade cruel, um espião de mármore." (p. 268-269)
Javert é outro personagem muito bem construído: a descrição de seu físico e de sua personalidade é impressionante, e fiel à proposta do autor – ele é verossímil do começo ao fim –, pelo menos por enquanto eu posso afirmar isso. Ele promete ser um grande vilão, principalmente porque se incomoda muito com Madeleine, o mocinho da história.

E o quinto livro termina (a meta a ser atingida) com o sr. Madeleine salvando Fantine da prisão, numa cena comovente e tocante, mesmo quando ela o incrimina por tudo o que lhe aconteceu depois de ter sido expulsa de sua fábrica (o que, de novo, ele desconhecia).

Resumo

Páginas lidas: 126 (não li as 150 da semana, mas como estava adiantada, permaneço no cronograma, yey!)
Índice - Lido até o momento:  do terceiro ao quinto livro.



Personagens importantes apresentados: Fantine, Javert, Cosette e, secundários que têm muita importância para o rumo dos acontecimentos, o casal que cuida da Cosette, os Thénardier, e Tholomyès.
Impressões gerais: personagens verossímeis; história instigante e misteriosa; miséria sendo exposta de forma mais veemente e tocante; poucas descrições cansativas; Victor Hugo consegue ir direto ao ponto em diversas passagens.

Citações

20 passagens marcadas, dentre frases interessantes e descrições que quero relembrar.
 "Já disseram que errar é próprio do homem; pois eu digo que errar é próprio do amor." (p. 222)
"Aí está; com um pouquinho de trabalho, essa urtiga tornar-se-ia útil; desprezam-na, e ela se torna nociva. Então a destroem. Quantos homens se assemelham à urtiga! – E acrescentou, depois de uma pausa: – Meus amigos, guardem bem isto: não existem homens maus ou ervas más. O que há é maus cultivadores." (p. 260)

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo