9.1.16

Diário de Leitura #1 - Lendo Os Miseráveis

Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século – a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância – não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis. (p. 27)
Há muito tempo que tenho a minha edição bonitona da Cosac Naify de Os miseráveis, mas a minha vontade de ler esta obra tão famosa existe há muito mais tempo. Porém, a extensão e a psicológica "falta de tempo" sempre me fizeram adiar a leitura. Até que uma leitura conjunta surtiu o efeito esperado de uma campanha como essa: a de estimular leitores e darem um empurrãozinho naquelas pessoas que, como eu, agarravam-se a desculpas comuns para não realizar a leitura de um dos maiores clássicos da literatura mundial.

Tudo começou quando, no primeiro dia de férias, eu pensei que seria bacana ler algum calhamaço nas férias, e logo Os Miseráveis me veio à cabeça. Mas, eu tenho tantos projetos de leitura em andamento, inclusive um calhamaço deixado para trás (Desventuras em Série, Nárnia e Moby Dick), que decidi, naquele momento, dar continuidade ao já começado e deixar Os Miseráveis para as próximas férias. Só que entrei em contato com a leitura em conjunto #LendoOsMiseráveis que a Fran, do Livro & Café, e a Jennifer, do Subindo no Telhado, planejaram e publicaram (saiba mais aqui). Era o que faltava para eu deixar em estado latente por mais algum tempo os outros projetos e me lançar com tudo nessa que promete ser uma das melhores leituras da minha vida.

Só que, por ser um livro muito importante e muito longo, nada mais justo do que registrar a minha experiência de leitura, certo? Até porque a meta é de 150 páginas por semana, então ficarei quatro meses inteiros acompanhada de Victor Hugo... É uma leitura demorada e, como minha memória é ridícula, registrar todo esse processo revela-se até mesmo necessário para depois eu relembrar de tudo isso.


E o post de hoje, além de uma apresentação, traz as minhas impressões de como foi a primeira semana junto de Os Miseráveis. Resumindo: maravilhosa! Eu tinha um certo receio por se tratar de uma obra tão amada e aclamada, porque nas férias passadas eu li Anna Kariênina e não gostei tanto assim da leitura. Meu medo era me tornar indiferente quanto a esta obra também, mas não é isso o que aconteceu. Aliás, acho difícil isso acontecer e alguém não gostar do que Victor Hugo escreveu aqui, posso até arriscar e dizer que acho difícil este livro não tocar o leitor.

Além de um breve texto introdutório que esta minha edição apresenta, somos apresentados a quatro personagens que considero os mais importantes destas primeiras 200 páginas que li: o bispo de Digne, Charles Myriel, sua irmã srta. Baptistine, sua criada sra. Magloire e Jean Valjean, um ladrão recém libertado do serviço obrigatório nas galés francesas.
Jean Valjean era de caráter pensativo, sem ser triste, o que próprio das naturezas afetuosas. No conjunto, portanto, nada havia de mais calmo e de mais insignificante, ao menos na aparência, do que Jean Valjean. (p. 143)
São quase 100 páginas para a construção do núcleo que envolve o bispo, sobretudo para nos apresentar esta personagem que, apesar de não ser tão presente na obra (pelo que sei da história, ele só aparece no início, não acompanhando o enredo inteiro), ele é muito importante para ela, pois determina a conduta de Jean Valjean, um dos protagonistas do livro. O bispo é o único que aceita receber o ex-prisioneiro em sua casa, pois, com fome e exausto de tanto andar, Valjean é negado em todas as hospedarias, bares e casas de Digne por possuir um passaporte amarelo, que significa que ele foi um criminoso. Só que Victor Hugo nos conta o porquê dele ter tentado roubar um pão: sua família estava em apuros, na miséria, visto que ele não conseguia encontrar emprego. Por conta disso, e por quatro tentativas de fuga, ele fica 19 anos preso, sob trabalhos forçados. E isso o transforma; sua índole boa se esvai e dá lugar a um animal ferido que, para a sua sobrevivência, faz coisas más, como roubar a única pessoa que lhe deu abrigo, comida, hospitalidade e confiança: o bispo. Sabemos que este é uma pessoa humilde e que vive uma vida pacata, tendo somente talheres de prata e castiçais como luxo. E é justamente os talheres que Jean Valjean tentará roubar deste homem que lhe salvou do frio e da morte. Mas, tendo a chance de puni-lo e incriminá-lo, o bispo lhe dá uma lição de moral: além dos talheres, dá os castiçais de presente à Valjean também, dizendo-lhe que, a partir daquele dia, era seu dever fazer o bem. A bondade de Myriel frente a alguém que o prejudicou e menosprezou a hospitalidade surpreende o leitor e o próprio Valjean que, dessa forma, passa por um conflito interno e se questiona sobre sua boa índole - e sobre seu lado ruim.


É notável que o maniqueísmo se insere muito fortemente no livro, principalmente com a figura de Myriel. A sua atitude de fazer o bem até mesmo para um criminoso que se mostrou indiferente à sua hospitalidade é significativa. Por enquanto eu não me incomodei com isso, pois eu costumo me incomodar com personagens totalmente bons ou totalmente maus (parecem que, dessa forma, eles não conseguem ser humanos), mas isso porque o Victor Hugo é incrível ao construir seus personagens. Apesar de ficar páginas e mais páginas nos contando sobre a vida e a personalidade dos principais, eu não me cansei e tudo parece estar na medida certa. E essa medida certa é, sim, longa. São muitas descrições, muita narração do que aconteceu com os personagens, e a forma como ele constrói isso é lindo demais. Os personagens são criados e parecem reais. Apesar de todo o maniqueísmo, acreditamos na existência deles. Até agora, um caso de extremos de características: o maniqueísmo, que não gosto, e a maestria em construir personagens, que eu amei!

O cenário histórico também faz toda a diferença e é de encher os olhos de qualquer leitor que gosta de romance histórico, ou que simplesmente gosta de História. Engana-se quem pensa que Os Miseráveis se passa durante a Revolução Francesa. Pelo contrário, a história aqui narrada por Hugo acontece anos depois, principalmente em 1815, mas as consequências de 1789 (o ano da Revolução) são importantíssimas para o enredo, pois ele está repleto de seus acontecimentos. Saber minimamente sobre a Revolução e as décadas seguintes ajuda, e muito, a entender o que se lê aqui.

E o último capítulo que li se chama "1817" e faz parte do terceiro livro, "Durante o ano de 1817". Neste capítulo, Hugo nos apresenta diveeersas citações e referências culturais e históricas, comprovando o caráter histórico do romance. Foi o único capítulo cansativo lido até o momento, pois não conheço as referências e as notas de rodapés são gigantescas (vide foto).

Resumo

Páginas lidas: 200

Índice - Lido até o momento: primeiro e segundo livros ("Um justo" e "A queda") e primeiro capítulo do terceiro ("Durante o ano de 1817")


Personagens importantes apresentados: Bispo de Digne (Charles Myriel), srta. Baptistine, sra. Magloire e Jean Valjean.

Impressões: muitas descrições, mas não cansativas; quase 100 páginas somente sobre o bispo; poucos personagens; o último capítulo lido é cheio de referências históricas e culturais, com notas de rodapé gigantes; personagens construídos com maestria; presença muito forte do maniqueísmo.

Citações

27 passagens marcadas, dentre frases interessantes e descrições que quero relembrar.


– Meu Deus, sobrinho! No que está pensando agora? - Estava meditando sobre algo interessante que li, acho, em Santo Agostinho: Pondes vossa esperança justamente no que não vai acontecer. (p. 44)
A morte pertence somente à Deus. Com que direito os homens ousam tocar coisa tão desconhecida? (p. 51)
Ele sabia que crer é bom. Procurava aconselhar e acalmar o homem desesperado apontando-lhe o homem resignado; sabia transformar a dor que contempla uma tumba na dor que contempla uma estrela. (p. 52)
Com uma única palavra, denominava as duas ocupações: tudo para ele era jardinar. – O espírito é um jardim – costumava dizer. (p. 53)
Isso é coisa inventada pelas amas de leite. Bicho-papão para as crianças e Jeová para os adultos. Absolutamente: nosso futuro é a noite. Depois da sepultura só existe a igualdade do nada. Tenha sido eu Sardanápalo ou Vicente de Paulo, não importa; tudo se reduz ao mesmo nada. Essa é a verdade. Por isso, viva o superior a tudo. (p. 71)
– Quero dizer que o homem tem um tirano, a ignorância. (p. 82)
Senhor, a inocência já é realeza suficiente. À inocência não importam os títulos. (p. 84)
Vivemos numa sociedade sombria. Ter êxito, eis o ensinamento destilado gota a gota pela corrupção que avança. (p. 99)
Fora cinco ou seis exceções notáveis que constituem o brilho de todo um século, a admiração contemporânea é simples miopia. O que é simplesmente dourado passa por ouro puro. Ser o primeiro a chegar não constitui honra, a não ser que se chegue a ser alguma coisa. É o vulgar e velho Narciso adorando a própria imagem, aplaudindo a vulgaridade. (p. 100)
Jean Valjean, que Victor Hugo chamou primeiramente de Jean Tréjean ou Vlajean, é personagem inspirado em Pierre Maurin, condenado igualmente pelo roubo de um pão; libetado, foi acolhido pelo Bispo de Digne, Bienvenu de Miollis, em idênticas circunstâncias às aqui narradas a respeito de Jean Valjean. Pierre Maurin morreu valentemente em Waterloo. (p. 145, nota de rodapé)
Partiu depois para Toulon. Aí chegou após uma viagem de 27 dias, numa carroça, com a corrente ao pescoço. Em Toulon, vestiram-no com um macacão vermelho. Desvaneceu-se tudo o que havia constituído a sua vida, até o seu nome. Seu número era 24.601. (p. 146)
Jean Valjean entrara para as galés soluçando e gemendo; saiu completamente impassível. Entrou cheio de desespero, saiu sombrio e taciturno. (p. 149)
De sofrimento em sofrimento, chegara à convicção de que a vida era uma guerra, e que nessa guerra ele era o vencido. (p. 151)
Liberdade não é estar solto. Sai-se das galés, mas a condenação continua. (p. 161)
O mundo moral não tem um espetáculo mais majestoso que este: uma consciência perturbada e inquieta, a ponto de praticar uma ação má, contemplando o sono de um justo (p. 168)
Não há dúvida de que o sofrimento educa a inteligência. (p. 180)

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