4.1.16

Desonra, de J. M. Coetzee (África do Sul)

Desonra, escrito por J. M. Coetzee

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 256
ISBN: 9788535918946
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Sucesso de público e crítica - foi publicado em mais de vinte países e ganhou o Booker Prize, o mais importante prêmio literário da Inglaterra -, Desonra é considerado o melhor romance de J. M. Coetzee. O livro conta a história de David Lurie, um homem que cai em desgraça. Lurie é um professor de literatura que não sabe como conciliar sua formação humanista, seu desejo amoroso e as normas politicamente corretas da universidade onde dá aula. Mesmo sabendo do perigo, ele tem um caso com uma aluna. Acusado de abuso, é expulso da universidade e viaja para passar uns dias na propriedade rural da filha, Lucy.
No campo, esse homem atormentado toma contato com a brutalidade e o ressentimento da África do Sul pós-apartheid. Com personagens vivos, com um ritmo narrativo que magnetiza o leitor, Desonra investiga as relações entre as classes, os sexos, as raças, tratando dos choques entre um passado de exploração e um presente de acerto de contas, entre uma cultura humanista e uma situação social explosiva.

Sobre o que se trata

Com uma narrativa objetiva e pungente, somos apresentados a David Lurie, um professor de literatura e comunicação da Universidade da Cidade do Cabo que, aos cinquenta e dois anos, cai em desgraça e decide se retirar e visitar sua filha, que vive no campo, por alguns dias.

Um homem mulherengo, machista e que se estrega facilmente à luxúria, este é Lurie. Assim, depois de ser desligado repentinamente de um relacionamento com uma prostituta que lhe saciava, semanalmente, os desejos de que necessitava, envolve-se com uma aluna. Uma relação incômoda e errada. E ninguém teria o direito de criticar, caso não se tratasse de sua aluna, e ela não estivesse sob a sua responsabilidade profissional. Devido a complicações que envolvem a diferença de idade e a posição que ambos possuem dentro da faculdade, Melanie é levada a denunciá-lo por abuso de poder, assédio e má conduta, o que garante uma decadência moral e profissional a Lurie que, teimosamente, recusa-se a seguir as indicações de seus superiores e não age hipocritamente. Ao invés de declarar publicamente uma culpa que não existe, ele opta por se demitir e se afastar.

A história toda é infame do começo ao fim. Infame e vulgar. E não tenho o menor problema em dizer isso. (p. 57)

Para isso, decide visitar sua filha Lucy, que vive no interior da África do Sul, gerenciando uma pequena propriedade e cuidando de cães para quem precisa. Mas uma série de acontecimentos desumanos faz com que ele permaneça por mais alguns meses na casa da filha - só que, desta vez, ainda mais humilhado na zona da desonra.

Minhas impressões

Com certeza, um livro duro. Duro, seco e doloroso. Não há como não se encantar com a escrita de J. M. Coetzee, num ritmo difícil de largar, cadenciado por frases curtas e impactantes. E o impacto não se encontra apenas na técnica, como também no enredo e nas personagens.

O livro é sóbrio e aborda temas delicados, como o assédio e a violência sexuais, o envelhecimento e o status quo de um país que se desfez recentemente de um regime marcado por uma extrema e ignóbil segregação racial, o apartheid. 

As personagens são reveladas de forma nua e crua, e o discurso indireto livre as constrói magistralmente, sobretudo o protagonista, David Lurie, a ponto de me fazer questionar: Quem está dizendo isso, o narrador ou o personagem? E, até agora, estou sem respostas. Várias opiniões são transmitidas por meio do narrador, sendo que é Lurie quem pensa daquela forma; esta técnica torna a situação mais sutil, mascara a maior parte do machismo presente no protagonista, mas está lá, construindo-o. No final, o leitor não se surpreende por pensar em David Lurie como uma pessoa, de tão real. E humana. Não do tipo de protagonista que só nos apresenta qualidades. Ele é inteligente, culto e realmente possui um carinho pela filha. Mas também é preconceituoso e mulherengo, fraco em diversos sentidos. 

Estupro, deus do caos e da mistura, violador da reclusão. Estuprar uma lésbica é pior que estuprar uma virgem: o golpe é maior. (p.124)

Não cheguei a me simpatizar com ele, mas que me apiedei de sua situação em vários momentos, isso sim. E a questão do envelhecimento é muito forte aqui, pois ele agora vive comparando a sua situação atual com quando era jovem e conquistava facilmente tudo o que desejava, de mulheres a respeito. Além disso, suas limitações físicas revelam as mudanças que estão ocorrendo em sua vida devido à passagem do tempo. Como com tudo nesta obra, é uma temática abordada com sobriedade, tristeza e amargor, mas de forma muito bela.

Outro assunto que perpassa o enredo é a questão de gêneros, aqui praticamente implícita, mas muito presente. O papel da mulher, ainda mais da mulher no sul da África pós-apartheid, é questionado e trabalhado durante os acontecimentos que dão vazão a inúmeros sentimentos de dor e humilhação às personagens. Como mulher, não deixei de me sentir extremamente incomodada com a situação pela qual Lucy, a filha de Lurie, passa. Como homem, J. M. Coetzee consegue transmitir este tema de forma muito eficaz à sua obra.

Desonra é um grande ensinamento sobre superação e aceitação, e seu final não traz à tona grandes acontecimentos ou epifanias, mas algo melhor: questionamentos. A história ecoa e, depois de concluída a leitura, permanece por muito tempo em nossos pensamentos.

Projeto Lendo o Mundo: África do Sul

Desonra é o livro escolhido como representante da África do Sul, e, apesar de Coetzee ter assumido a nacionalidade australiana, o autor nasceu na Cidade do Cabo em 1940 e se graduou em Inglês e em Matemática pela Universidade do Cabo em 1960 e 1961, respectivamente. Estudou Samuel Beckett no doutorado, lecionou nos EUA e teve seu visto negado por participar dos protestos contra a Guerra do Vietnam. Além de escrever ficção, é crítico literário através do inglês, do holandês, alemão e afrikaans. Ganhou duas vezes o prêmio Booker Prize, mas não compareceu em nenhuma das premiações.
"Coetzee é um homem de dedicação e autodisciplina de um monge. Não bebe, nem fuma, nem come carne. Faz imensos tours de bicicleta para manter-se em forma e passa no mínimo uma hora por dia na sua escrivaninha, sete dias por semana. Um colega que trabalhou com ele mais de uma década, afirma que viu-o rir somente uma vez. Um conhecido foi para diversos jantares nos quais Coetzee não pronunciou uma única palavra." Rian Malan, autor.
Ele é, portanto, um recluso, e há poucos exemplares de sua obra assinados por ele. O interessante é que o autor participou da fundação da Série Primeiro Capítulo da Oak Tree Press, cujo objetivo é captar dinheiro para crianças órfãs ou vítimas da Aids na África a partir de edições limitadas autografadas por escritores reconhecidos. Além do Booker Prize e de inúmeros outros tão importante quanto, Coetzee já recebeu o Nobel (2003), por cujo prêmio o presidente sul africano Mbeki o parabenizou “em nome da nação Sul-Africana e do continente da África”, mesmo com as críticas severas que ele e, significativamente, Nadine Gordimer, outra grande escritora sul africana, destinaram a Coetzee por Desonra, livro considerado “racista” pelo African National Congress.

Área: 1.221.037 km²
Capital: Cidade do Cabo
População: 53,1 milhões de habitantes (estimativa junho de 2014)
Moeda: Rand
Nome Oficial: República da África do Sul
Data Nacional: 27 de abril (Dia da Liberdade) - primeiro dia de governo de Nelson Mandela
Governo: República Presidencialista
Presidente: Jacob Zuma

Dentre os escritores sul africanos mundialmente reconhecidos, é notável que os dois maiores destaques atuais sejam brancos (Coetzee e Nadine Gordimer). Mas Vonani Bila lutou para também ser reconhecido e, apesar de ser pouco conhecido mundo a fora, dedica-se a evidenciar poetas marginalizados de seu país.

Durante décadas, a África do Sul esteve sob um regime (controlado por uma minoria branca) segregacionista que projetou a população negra num estado desumano de sofrimentos ao cercear seus direitos civis. Chamado de apartheid (que significa "separação"), durou de 1948 a 1994, e teve como principal opositor o líder político Nelson Mandela. O apartheid é um dos temas presentes em Desonra.
Fontes: x x x x

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