28.1.16

Cinzas do norte, de Milton Hatoum

Cinzas do norte, escrito por Milton Hatoum.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 231
ISBN: 9788535917222
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Cinzas do Norte, terceiro romance de Milton Hatoum, é o relato de uma longa revolta e do esforço de compreendê-la. Na Manaus dos anos 1950 e 1960, dois meninos travam uma amizade que atravessará toda a vida. De um lado, Olavo, de apelido Lavo, o narrador, menino órfão, criado por dois tios mal-e-mal remediados, que cresce à sombra da família Mattoso; de outro, Raimundo Mattoso, ou Mundo, filho de Alícia, mãe jovem e mercurial, e do aristocrático Trajano.
No centro das ambições de Trajano está a Vila Amazônia, palacete junto a Parintins, sede de uma plantação de juta e pesadelo máximo de Mundo. A fim de realizar suas inclinações artísticas, ou quem sabe para investigar suas angústias mais profundas, o jovem engalfinha-se numa luta contra o pai, a província, a moral dominante e, para culminar, os militares que tomam o poder em 1964 e dão início à vertiginosa destruição de Manaus. Nessa luta que se transforma em fuga rebelde, o rapaz amplia o universo romanesco, que alcança a Berlim e a Londres irrequietas da década de 1970, de onde manda sinais de vida para o amigo Lavo, agora advogado, mas ainda preso à cidade natal.
Outros fios completam o tecido ficcional de Cinzas do Norte: uma carta que o tio Ranulfo envia a Mundo, uma outra que este deixa como legado para o amigo de infância. São versões e revelações que se cruzam ou desencontram, sem jamais chegar a esgotar o enigma de uma vida singular ou a diminuir a dor da derrota final, às mãos da doença, da solidão e da violência. Neste livro, Hatoum escreve uma "história moral" de sua geração.

Sobre o que se trata

Cinzas do Norte possui acontecimentos presenciados por Olavo (Lavo), sobretudo nas décadas de 50 e 60, um órfão manauara de família humilde que possui um amigo, o Raimundo (Mundo), que tanto o intriga. Não apenas por ter personalidade forte, ser de família rica e conturbada, como também porque as famílias de ambos estão ligadas por Alícia, mãe de Mundo, que foi grande amiga da mãe de Lavo e sempre apaixonada por Ranulfo, o seu tio.

O narrador conhece Mundo no colégio, onde percebeu que o amigo tem problemas em seguir a educação formal; Raimundo é, na verdade, um grande fã de arte, e entrou em conflito com os superiores ao retratá-los de forma irônica. Todo o jeito de ser do menino desagrada profundamente o pai, Jano, um empreendedor influente de Manaus, que faz de tudo para que o filho seja o seu grande herdeiro e se interesse por seus negócios. Mas o desprezo do filho por tudo o que o pai faz gera uma relação extremamente conflituosa, e disso surgem cenas domésticas dramáticas e extremas.




Lavo é um personagem importante enquanto narrador porque é próximo do protagonista de duas formas: é seu amigo e possuem pessoas em comum intimamente ligadas, sobretudo o triângulo amoroso formado por Alícia - Ranulfo - Jano. Ele é um observador atento e curioso da vida do amigo, e transmite para o leitor os momentos e fatos mais importantes dela, como quando Mundo foi estudar no colégio militar em plena ditadura, quando conheceu e desenvolveu uma amizade com o artista Arana e a sua passagem pela Europa. A história culmina no mistério que Lavo cria desde o início da narrativa, o qual alimenta aos poucos, construindo-o tão bem que a leitura cativa e a surpresa se dá apenas na última página.

Minhas impressões

Fazia um certo tempo que eu não lia um dramalhão familiar, e eis que Hatoum escreve com maestria sentimentos fortes e tocantes. Como disse Tolstói em Anna Kariênina, "todas as famílias felizes se parecem, casa família infeliz é infeliz à sua maneira", e ambas as famílias envolvidas nesta obra possuem infelicidades peculiares, pois são desestruturadas e caóticas num nível surpreendente. Apesar disso, não tem como não reconhecer traços existentes em quase todas as famílias; são crises conhecidas, mas que o autor soube transpor para o palco como cenas principais de um enredo envolvente. E o que envolve o leitor são os laços artificiais - e sobretudo os reais - que são narrados e aos poucos revelados ao leitor. Sabemos que há muitas coisas a serem explicadas quanto ao núcleo de personagens e ao passado deles, e queremos descobrir isso.

A narrativa de Lavo demorou para me cativar por completo. Desde o começo, ela capturou minha curiosidade, pois o enredo misterioso realmente envolve o leitor. Mas, depois de me acostumar com esta primeira leitura de uma obra de Hatoum, e com o ritmo narrativo do livro, não consegui parar de pensar na história de Mundo. A narrativa de Lavo, que se concentra sobretudo no presente, é entrecortada por capítulos nos quais o narrador é diferente; são como cartas de Ranulfo a Raimundo, e sempre muito surpreendentes, sinceras e contendo flashbacks. E, apesar do narrador estar contando uma história que aconteceu há vinte anos, ele não a entrega ao leitor tão facilmente; ele o faz lenta e gradualmente, da forma como ele mesmo presenciou e descobriu tudo. Portanto, uma confusão inicial é compreensível.
O trajeto demorava horas, mas ela se recusava a ir de canoa: não sabia nadar, tinha medo de morrer afogada no igarapé dos Cornos. Reclamava também do isolamento, da falta de luz elétrica, dos bichos que rondavam a casa, dos ouriços que caíam das castanheiras e quebravam com estalos assustadores as telhas de barro. Minha tia queria derrubar as árvores, o irmão não deixava: davam sombra e frutos e atraíam os animais que ele caçava. Ranulfo armava uma rede nos troncos, pendurava uma lamparina num galho e ficava lendo durante a noite; quando não chovia, amanhecia ali mesmo, ao relento, o livro aberto no peito nu, as folhas secas cobrindo parte do corpo. Os livros de tio Ran! Vinham de muito longe, do Sul, e ficavam empilhados no quartinho dele, lá nos fundos da chácara, nossa morada. (...) Lembro que, em plena tarde de um dia de semana, Ramira o encontrou lendo e fazendo anotações a lápis numa tira de papel de seda branco. Perguntou por que ele lia e escrevia em vez de ir atrás de trabalho.
"Estou trabalhando, mana", disse tio Ran. "Trabalho com a imaginação dos outros e com a minha."
Ela estranhou a frase, que algum tempo depois eu entenderia como uma das definições de literatura. (p. 17-18)
Uma das características mais bacanas do livro, sobretudo para quem não conhece a região Norte (como é o meu caso), é que Hatoum faz um retrato tão bacana e satisfatório de Manaus e dos manauaras que este é um livro excelente para quem só pode (ou simplesmente quer) viajar para a capital do Amazonas através das letras. A cidade é o foco da história, poderíamos dizer, e isso se evidencia quando notamos que, apesar de tratar sobre momentos na Europa e também no Rio de Janeiro, o retrato de tais lugares não são tão fortes (ou não existem, praticamente) quanto o do Norte. Além de se referir à região geográfica tão central no enredo, o título do romance é bastante metafórico e liga-se ao destino de diversos personagens com fins trágicos e incompletos, e também ao próprio processo de construção e desconstrução da cidade. Com a leitura, portanto, ficamos sabendo de costumes, da cultura, do ambiente... E isso é muito rico para a literatura nacional!






Um outro aspecto importante da obra é a construção dos personagens. Além de Mundo, que é o foco das narrativas de Lavo, o tio Ran é um tipo marcante na leitura; malandro, não gosta de trabalhar, vive às custas da irmã e do sobrinho, ele possui uma personalidade forte, apesar de seus defeitos. É difícil não gostar dele, ainda mais porque sua odisseia amorosa nos é transmitida de forma bem tocante. O leitor possui acesso a seus sentimentos e, de certa forma, identifica-se com ele. Lavo já é diferente; apesar de ser o narrador, ou justamente por isso e por ser um personagem nada egocêntrico, ele se tornou alguém um pouco apagado da história para mim. Talvez por ser intencional, já que seu objetivo é contar a história do seu amigo, ser a testemunha dela. Ele é apenas o canal de comunicação utilizado para transmitir os fatos e informações. Mas como é uma pessoa e possui vida própria, temos acesso às suas impressões e aos seus sentimentos, sendo o contexto geral limitado por eles. Um narrador em primeiro pessoa sempre merece maior atenção quando analisado, e Lavo nos mostra que, apesar de não querer ser o foco, ele é muito parcial, sim.

Uma narrativa forte, instigante e que, apesar de inicialmente confusa, nos faz querer saber mais; mais sobre os personagens, sobre o drama e os mistérios e mais sobre Manaus e seus costumes. Uma obra rica em diversos aspectos, que nos transporta para sua história por inteiro. Depois, ela continua ecoando em nossas memórias.

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo