31.1.16

Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera

Barba ensopada de sangue, escrito por Daniel Galera.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 424
ISBN: 9788535921878
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Neste quarto romance de Daniel Galera, um professor de educação física busca refúgio em Garopaba, um pequeno balneário de Santa Catarina, após a morte do pai. O protagonista (cujo nome não conhecemos) se afasta da relação conturbada com os outros membros da família e mergulha em um isolamento geográfico e psicológico. Ao mesmo tempo, ele empreende a busca pela verdade no caso da morte do avô, o misterioso Gaudério, que teria sido assassinado décadas antes na mesma Garopaba, na época apenas uma vila de pescadores.
Sempre acompanhado por Beta, cadela do falecido pai, o professor esquadrinha as lacunas do pouco que lhe é revelado, a contragosto, pelos moradores mais antigos da cidade. Portador de uma condição neurológica congênita que o obriga a interagir com as outras pessoas de modo peculiar, o professor estabelece relações com alguns moradores: uma garçonete e seu filho pequeno, os alunos da natação, um budista histriônico, a secretária de uma agência turística de passeios. Aos poucos, ele vai reunindo as peças que talvez lhe permitam entender melhor a própria história.
É também com lacunas e peças aparentemente díspares que Galera constrói sua narrativa. Dotado de um senso impecável de ritmo, ele alterna descrições ricas em sutileza e detalhamento com diálogos ágeis e de rara verossimilhança, que dão vida a um elenco de personagens inesquecíveis.
Barba ensopada de sangue resgata e leva às últimas consequências temas e conflitos das obras anteriores do autor, tais como: a construção da identidade e, nesse processo, as dificuldades que enfrentamos para entender e reconhecer os outros; a necessidade inconfessa de uma reparação talvez inviável; a busca pela unidade entre mente e corpo; o consolo afetivo que o contato com a natureza e os animais é capaz de nos proporcionar; os diversos tipos de violência que podem irromper em meio a uma existência domesticada.
Barba Ensopada de Sangue (um título muito interessante, diga-se de passagem) é um romance que fez muito sucesso, falou-se muito sobre ele, o que é raro de acontecer quando se trata de um livro nacional. E, sinceramente, fico feliz pelo hype que esse texto teve.

Muito me impressionou, na época de sua publicação, o sucesso do romance, independentemente da qualidade ou coisa do tipo. Textos como o do paulista (mas gaúcho de coração) Daniel Galera não costumam se tornar best-sellers por aqui. Não é fantástico, não é romântico-água-com-açúcar, não é autoajuda, não é religioso (absolutamente nada contra esses gêneros, só estou levando em consideração que eles sempre encabeçam as listas de mais vendidos). É um texto denso, muito descritivo, lento, ou seja, vai na contramão do que costuma vender.

O enredo é relativamente simples: um professor de educação física, depois do suicídio do pai, vai para Garopaba, uma cidade litorânea onde supostamente seu avô foi morto, para descobrir mais sobre esse seu antepassado e respirar novos ares. Lá, ele começa a desvendar mistérios sobre sua família e conhecer a si mesmo. Não há muito mais o que falar sobre o enredo, até porque algumas coisas mais interessantes estão mais para o fim do livro, e não quero estragar a experiência de ninguém, mesmo que eu ache que o que é contado é inferior à forma como é contado (não que a estória seja ruim, pelo contrário).

Galera é um escritor muito técnico, que sabe dar ritmo às suas frases e muita vida a seus diálogos, e isso faz a leitura ser muito prazerosa, consegue disfarçar a lentidão do enredo e o excesso nas descrições, que muitas vezes não são necessárias. Na verdade, há passagens inteiras bastante descartáveis, que não avançam a narrativa, não apresentam reflexões nem informações novas. E é mesmo surpreendente que o editor do texto tenha deixado isso passar direto, principalmente se levarmos em consideração que é uma publicação da Companhia das Letras, editora bastante perfeccionista. 

Mas voltemos à questão das frases e dos diálogos. O autor usa a língua com maestria, com palavras muito bem selecionadas, do ponto de vista morfológico e semântico. É perceptível que houve muito trabalho na escolha de cada uma delas. E, em relação à sintaxe, ele não inventa muito, mostra que dá pra escrever de forma bonita sem precisar de inversões desnecessárias. O grande feito sintático dele, e que o diferencia, é usar a pontuação em seu favor, muitas vezes ignorando completamente as dicas dos manuais de gramática para conseguir efeitos que deixam o texto mais fluido e mais próximo de um relato oral. A mesma coisa acontece nos diálogos, que conseguem passar de verdade a sensação de oralidade. Para isso, o autor abre mão de elementos como travessão, aspas etc. e dá voz aos personagens sem aviso, sem pausa. Faz ótimo uso também de marcas da fala dos gaúchos e catarinenses. Cheguei mesmo a perceber que estava lendo os diálogos com sotaque gaúcho. Outra coisa que me agradou muito foi o uso econômico de incisos e verbos dicendi, o que ajudou demais a dar a fluidez incrível que os diálogos do livro têm.

O texto também é cheio de simbolismo, desde o suicídio anunciado do pai do protagonista, o fato de ele não ser nomeado, até sua prosopagnosia, doença que impede que se lembre de rostos, incluindo o próprio rosto. Para reconhecer alguém, o protagonista sem nome precisa se atentar a outros fatores, precisa conhecer de fato as pessoas. É algo interessante para se pensar. Se você se olha no espelho e não se reconhece, pode dizer quem é você? Não, somente se você conhece a si muito bem. Então a jornada do protagonista para descobrir mais sobre seu avô é, na verdade, uma jornada para descobrir a si mesmo, reconhecer-se.   

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