resenha 1

resenha 1
Ensaio sobre a cegueira Saramago

resenha 2

resenha 2
Uma duas Eliane Brum

resenha 3

resenha 3
ao farol virgínia woolf

resenha 4

resenha 4
mulheres de cinzas mia couto

resenha 5

resenha 5
Extraordinário Luandino Vieira

resenha 6

resenha 6
Luuanda Luandino Vieira
31.1.16

Barba ensopada de sangue, escrito por Daniel Galera.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 424
ISBN: 9788535921878
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Neste quarto romance de Daniel Galera, um professor de educação física busca refúgio em Garopaba, um pequeno balneário de Santa Catarina, após a morte do pai. O protagonista (cujo nome não conhecemos) se afasta da relação conturbada com os outros membros da família e mergulha em um isolamento geográfico e psicológico. Ao mesmo tempo, ele empreende a busca pela verdade no caso da morte do avô, o misterioso Gaudério, que teria sido assassinado décadas antes na mesma Garopaba, na época apenas uma vila de pescadores.
Sempre acompanhado por Beta, cadela do falecido pai, o professor esquadrinha as lacunas do pouco que lhe é revelado, a contragosto, pelos moradores mais antigos da cidade. Portador de uma condição neurológica congênita que o obriga a interagir com as outras pessoas de modo peculiar, o professor estabelece relações com alguns moradores: uma garçonete e seu filho pequeno, os alunos da natação, um budista histriônico, a secretária de uma agência turística de passeios. Aos poucos, ele vai reunindo as peças que talvez lhe permitam entender melhor a própria história.
É também com lacunas e peças aparentemente díspares que Galera constrói sua narrativa. Dotado de um senso impecável de ritmo, ele alterna descrições ricas em sutileza e detalhamento com diálogos ágeis e de rara verossimilhança, que dão vida a um elenco de personagens inesquecíveis.
Barba ensopada de sangue resgata e leva às últimas consequências temas e conflitos das obras anteriores do autor, tais como: a construção da identidade e, nesse processo, as dificuldades que enfrentamos para entender e reconhecer os outros; a necessidade inconfessa de uma reparação talvez inviável; a busca pela unidade entre mente e corpo; o consolo afetivo que o contato com a natureza e os animais é capaz de nos proporcionar; os diversos tipos de violência que podem irromper em meio a uma existência domesticada.
Barba Ensopada de Sangue (um título muito interessante, diga-se de passagem) é um romance que fez muito sucesso, falou-se muito sobre ele, o que é raro de acontecer quando se trata de um livro nacional. E, sinceramente, fico feliz pelo hype que esse texto teve.

Muito me impressionou, na época de sua publicação, o sucesso do romance, independentemente da qualidade ou coisa do tipo. Textos como o do paulista (mas gaúcho de coração) Daniel Galera não costumam se tornar best-sellers por aqui. Não é fantástico, não é romântico-água-com-açúcar, não é autoajuda, não é religioso (absolutamente nada contra esses gêneros, só estou levando em consideração que eles sempre encabeçam as listas de mais vendidos). É um texto denso, muito descritivo, lento, ou seja, vai na contramão do que costuma vender.

O enredo é relativamente simples: um professor de educação física, depois do suicídio do pai, vai para Garopaba, uma cidade litorânea onde supostamente seu avô foi morto, para descobrir mais sobre esse seu antepassado e respirar novos ares. Lá, ele começa a desvendar mistérios sobre sua família e conhecer a si mesmo. Não há muito mais o que falar sobre o enredo, até porque algumas coisas mais interessantes estão mais para o fim do livro, e não quero estragar a experiência de ninguém, mesmo que eu ache que o que é contado é inferior à forma como é contado (não que a estória seja ruim, pelo contrário).

Galera é um escritor muito técnico, que sabe dar ritmo às suas frases e muita vida a seus diálogos, e isso faz a leitura ser muito prazerosa, consegue disfarçar a lentidão do enredo e o excesso nas descrições, que muitas vezes não são necessárias. Na verdade, há passagens inteiras bastante descartáveis, que não avançam a narrativa, não apresentam reflexões nem informações novas. E é mesmo surpreendente que o editor do texto tenha deixado isso passar direto, principalmente se levarmos em consideração que é uma publicação da Companhia das Letras, editora bastante perfeccionista. 

Mas voltemos à questão das frases e dos diálogos. O autor usa a língua com maestria, com palavras muito bem selecionadas, do ponto de vista morfológico e semântico. É perceptível que houve muito trabalho na escolha de cada uma delas. E, em relação à sintaxe, ele não inventa muito, mostra que dá pra escrever de forma bonita sem precisar de inversões desnecessárias. O grande feito sintático dele, e que o diferencia, é usar a pontuação em seu favor, muitas vezes ignorando completamente as dicas dos manuais de gramática para conseguir efeitos que deixam o texto mais fluido e mais próximo de um relato oral. A mesma coisa acontece nos diálogos, que conseguem passar de verdade a sensação de oralidade. Para isso, o autor abre mão de elementos como travessão, aspas etc. e dá voz aos personagens sem aviso, sem pausa. Faz ótimo uso também de marcas da fala dos gaúchos e catarinenses. Cheguei mesmo a perceber que estava lendo os diálogos com sotaque gaúcho. Outra coisa que me agradou muito foi o uso econômico de incisos e verbos dicendi, o que ajudou demais a dar a fluidez incrível que os diálogos do livro têm.

O texto também é cheio de simbolismo, desde o suicídio anunciado do pai do protagonista, o fato de ele não ser nomeado, até sua prosopagnosia, doença que impede que se lembre de rostos, incluindo o próprio rosto. Para reconhecer alguém, o protagonista sem nome precisa se atentar a outros fatores, precisa conhecer de fato as pessoas. É algo interessante para se pensar. Se você se olha no espelho e não se reconhece, pode dizer quem é você? Não, somente se você conhece a si muito bem. Então a jornada do protagonista para descobrir mais sobre seu avô é, na verdade, uma jornada para descobrir a si mesmo, reconhecer-se.   
continue lendo »
30.1.16

Um garotinho de nove anos, uma pessoa atrás das grades, um agressor de setenta e oito anos, uma religiosa fervorosa, um aluno sem timidez, um possível assassino... O que todos esses tipos possuem em comum? A narrativa do amor.

São vinte e oito crônicas, vinte e oito casos nos quais o tema é o mesmo: o sentimento amor. Mas em cada um há uma peculiaridade que demonstra uma abrangência de situações. O mais interessante é notar a voz narrativa que desabafa, conta, desenha, confessa, enfim, transmite ao interlocutor uma carga sentimental transbordante. Todos os narradores precisam dizer algo, seja para pedir desculpas, para brigar, para reclamar, para pedir, para finalmente revelar seus sentimentos. A surpresa está exatamente em notá-los, e dar atenção a eles. 

Inclusive quando a identificação cedo ou tarde acontece, pois quem nunca mandou um bilhetinho de amor?


A diversidade de Sentimentalmente burro atinge a abordagem cronológica também: somos apresentados tanto a casos contemporâneos, como também a um rapaz do século XIX que escreve para a sua amada. Em ambas as situações, há a correspondência inclusive do vocabulário, tornando a verossimilhança uma das características do livro.

Apesar de serem crônicas que abarcam vários tipos de casos amorosos, senti falta da homossexualidade em pelo menos uma delas, sobretudo porque é um tema em evidência e muito importante atualmente. Provavelmente, a identificação de um público geral seria mais completa caso isso existisse no livro, mas isso já é uma perspectiva pessoal. Um outro aspecto negativo são alguns poucos erros de digitação fáceis de serem excluídos do livro, pois não se trata de erros gramaticais e algo que incomode o leitor; sou muito exigente quanto a isso, mas não cheguei a me incomodar.


Quem gosta de relatos curtos e interessantes e da temática amorosa provavelmente irá se cativar bastante por estes casos tão diferentes. Para comprar e ler o e-book, basta clicar aqui. Conheça também o site de Sentimentalmente burro.

No Youtube

continue lendo »
28.1.16

Cinzas do norte, escrito por Milton Hatoum.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 231
ISBN: 9788535917222
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Cinzas do Norte, terceiro romance de Milton Hatoum, é o relato de uma longa revolta e do esforço de compreendê-la. Na Manaus dos anos 1950 e 1960, dois meninos travam uma amizade que atravessará toda a vida. De um lado, Olavo, de apelido Lavo, o narrador, menino órfão, criado por dois tios mal-e-mal remediados, que cresce à sombra da família Mattoso; de outro, Raimundo Mattoso, ou Mundo, filho de Alícia, mãe jovem e mercurial, e do aristocrático Trajano.
No centro das ambições de Trajano está a Vila Amazônia, palacete junto a Parintins, sede de uma plantação de juta e pesadelo máximo de Mundo. A fim de realizar suas inclinações artísticas, ou quem sabe para investigar suas angústias mais profundas, o jovem engalfinha-se numa luta contra o pai, a província, a moral dominante e, para culminar, os militares que tomam o poder em 1964 e dão início à vertiginosa destruição de Manaus. Nessa luta que se transforma em fuga rebelde, o rapaz amplia o universo romanesco, que alcança a Berlim e a Londres irrequietas da década de 1970, de onde manda sinais de vida para o amigo Lavo, agora advogado, mas ainda preso à cidade natal.
Outros fios completam o tecido ficcional de Cinzas do Norte: uma carta que o tio Ranulfo envia a Mundo, uma outra que este deixa como legado para o amigo de infância. São versões e revelações que se cruzam ou desencontram, sem jamais chegar a esgotar o enigma de uma vida singular ou a diminuir a dor da derrota final, às mãos da doença, da solidão e da violência. Neste livro, Hatoum escreve uma "história moral" de sua geração.

Sobre o que se trata

Cinzas do Norte possui acontecimentos presenciados por Olavo (Lavo), sobretudo nas décadas de 50 e 60, um órfão manauara de família humilde que possui um amigo, o Raimundo (Mundo), que tanto o intriga. Não apenas por ter personalidade forte, ser de família rica e conturbada, como também porque as famílias de ambos estão ligadas por Alícia, mãe de Mundo, que foi grande amiga da mãe de Lavo e sempre apaixonada por Ranulfo, o seu tio.

O narrador conhece Mundo no colégio, onde percebeu que o amigo tem problemas em seguir a educação formal; Raimundo é, na verdade, um grande fã de arte, e entrou em conflito com os superiores ao retratá-los de forma irônica. Todo o jeito de ser do menino desagrada profundamente o pai, Jano, um empreendedor influente de Manaus, que faz de tudo para que o filho seja o seu grande herdeiro e se interesse por seus negócios. Mas o desprezo do filho por tudo o que o pai faz gera uma relação extremamente conflituosa, e disso surgem cenas domésticas dramáticas e extremas.




Lavo é um personagem importante enquanto narrador porque é próximo do protagonista de duas formas: é seu amigo e possuem pessoas em comum intimamente ligadas, sobretudo o triângulo amoroso formado por Alícia - Ranulfo - Jano. Ele é um observador atento e curioso da vida do amigo, e transmite para o leitor os momentos e fatos mais importantes dela, como quando Mundo foi estudar no colégio militar em plena ditadura, quando conheceu e desenvolveu uma amizade com o artista Arana e a sua passagem pela Europa. A história culmina no mistério que Lavo cria desde o início da narrativa, o qual alimenta aos poucos, construindo-o tão bem que a leitura cativa e a surpresa se dá apenas na última página.

Minhas impressões

Fazia um certo tempo que eu não lia um dramalhão familiar, e eis que Hatoum escreve com maestria sentimentos fortes e tocantes. Como disse Tolstói em Anna Kariênina, "todas as famílias felizes se parecem, casa família infeliz é infeliz à sua maneira", e ambas as famílias envolvidas nesta obra possuem infelicidades peculiares, pois são desestruturadas e caóticas num nível surpreendente. Apesar disso, não tem como não reconhecer traços existentes em quase todas as famílias; são crises conhecidas, mas que o autor soube transpor para o palco como cenas principais de um enredo envolvente. E o que envolve o leitor são os laços artificiais - e sobretudo os reais - que são narrados e aos poucos revelados ao leitor. Sabemos que há muitas coisas a serem explicadas quanto ao núcleo de personagens e ao passado deles, e queremos descobrir isso.

A narrativa de Lavo demorou para me cativar por completo. Desde o começo, ela capturou minha curiosidade, pois o enredo misterioso realmente envolve o leitor. Mas, depois de me acostumar com esta primeira leitura de uma obra de Hatoum, e com o ritmo narrativo do livro, não consegui parar de pensar na história de Mundo. A narrativa de Lavo, que se concentra sobretudo no presente, é entrecortada por capítulos nos quais o narrador é diferente; são como cartas de Ranulfo a Raimundo, e sempre muito surpreendentes, sinceras e contendo flashbacks. E, apesar do narrador estar contando uma história que aconteceu há vinte anos, ele não a entrega ao leitor tão facilmente; ele o faz lenta e gradualmente, da forma como ele mesmo presenciou e descobriu tudo. Portanto, uma confusão inicial é compreensível.
O trajeto demorava horas, mas ela se recusava a ir de canoa: não sabia nadar, tinha medo de morrer afogada no igarapé dos Cornos. Reclamava também do isolamento, da falta de luz elétrica, dos bichos que rondavam a casa, dos ouriços que caíam das castanheiras e quebravam com estalos assustadores as telhas de barro. Minha tia queria derrubar as árvores, o irmão não deixava: davam sombra e frutos e atraíam os animais que ele caçava. Ranulfo armava uma rede nos troncos, pendurava uma lamparina num galho e ficava lendo durante a noite; quando não chovia, amanhecia ali mesmo, ao relento, o livro aberto no peito nu, as folhas secas cobrindo parte do corpo. Os livros de tio Ran! Vinham de muito longe, do Sul, e ficavam empilhados no quartinho dele, lá nos fundos da chácara, nossa morada. (...) Lembro que, em plena tarde de um dia de semana, Ramira o encontrou lendo e fazendo anotações a lápis numa tira de papel de seda branco. Perguntou por que ele lia e escrevia em vez de ir atrás de trabalho.
"Estou trabalhando, mana", disse tio Ran. "Trabalho com a imaginação dos outros e com a minha."
Ela estranhou a frase, que algum tempo depois eu entenderia como uma das definições de literatura. (p. 17-18)
Uma das características mais bacanas do livro, sobretudo para quem não conhece a região Norte (como é o meu caso), é que Hatoum faz um retrato tão bacana e satisfatório de Manaus e dos manauaras que este é um livro excelente para quem só pode (ou simplesmente quer) viajar para a capital do Amazonas através das letras. A cidade é o foco da história, poderíamos dizer, e isso se evidencia quando notamos que, apesar de tratar sobre momentos na Europa e também no Rio de Janeiro, o retrato de tais lugares não são tão fortes (ou não existem, praticamente) quanto o do Norte. Além de se referir à região geográfica tão central no enredo, o título do romance é bastante metafórico e liga-se ao destino de diversos personagens com fins trágicos e incompletos, e também ao próprio processo de construção e desconstrução da cidade. Com a leitura, portanto, ficamos sabendo de costumes, da cultura, do ambiente... E isso é muito rico para a literatura nacional!






Um outro aspecto importante da obra é a construção dos personagens. Além de Mundo, que é o foco das narrativas de Lavo, o tio Ran é um tipo marcante na leitura; malandro, não gosta de trabalhar, vive às custas da irmã e do sobrinho, ele possui uma personalidade forte, apesar de seus defeitos. É difícil não gostar dele, ainda mais porque sua odisseia amorosa nos é transmitida de forma bem tocante. O leitor possui acesso a seus sentimentos e, de certa forma, identifica-se com ele. Lavo já é diferente; apesar de ser o narrador, ou justamente por isso e por ser um personagem nada egocêntrico, ele se tornou alguém um pouco apagado da história para mim. Talvez por ser intencional, já que seu objetivo é contar a história do seu amigo, ser a testemunha dela. Ele é apenas o canal de comunicação utilizado para transmitir os fatos e informações. Mas como é uma pessoa e possui vida própria, temos acesso às suas impressões e aos seus sentimentos, sendo o contexto geral limitado por eles. Um narrador em primeiro pessoa sempre merece maior atenção quando analisado, e Lavo nos mostra que, apesar de não querer ser o foco, ele é muito parcial, sim.

Uma narrativa forte, instigante e que, apesar de inicialmente confusa, nos faz querer saber mais; mais sobre os personagens, sobre o drama e os mistérios e mais sobre Manaus e seus costumes. Uma obra rica em diversos aspectos, que nos transporta para sua história por inteiro. Depois, ela continua ecoando em nossas memórias.
continue lendo »
22.1.16

"Ninguém poderá impedir o pensamento de voltar a uma ideia, como não podemos impedir o mar de voltar sempre a uma praia. Para o marinheiro isso se chama maré; para o culpado isso se chama remorso. Deus agita a alma como agita o oceano." (p.340)
Até que enfim terminei a primeira "grande meta" da leitura de Os Miseráveis: concluir a primeira parte, intitulada "Fantine", na qual obviamente a protagonista é esta mulher de origem incerta que cai na conversa de um galanteador e se torna mãe solteira muito nova, com apenas 22 anos. Como já contei na segunda postagem da leitura conjunta, ela passa por provações para conseguir, sozinha, sustentar sua filha, Cosette, personagem que dá nome à próxima parte do livro. Já poderíamos chamá-la de miserável antes mesmo de deixar sua filha com os Thénardier, pessoas oportunistas e cruéis que fingem cuidar de Cosette para receberem uma quantia de dinheiro por mês (que só aumenta conforme o tempo passa), mas depois da conclusão da narrativa de sua história, percebemos que ela chegou no ápice (ou poderíamos mencionar uma antítese aqui, no abismo?) da miséria. E o que antes eu pensei que fosse ser uma grande alegria, mostrou-se capaz de me fazer sentir piedade e compaixão – a história de Fantine massacrou o meu coração. É triste. Dói. E fere sem ter dó do leitor.
 

Livro Sexto - Javert
Enquanto o sr. Madeleine está tentando entrar em contato com os Thénardier para conseguir que devolvam Cosette para a mãe (e, claro, depois de quitar toda a dívida de Fantine para com eles), que está à beira da morte sendo cuidada por ele e pelas irmãs Perpétue e Simplice, Javert vai até o seu escritório para fazer uma denúncia:
"– Um oficial inferior faltou ao respeito a um magistrado de maneira mais grave. Venho, como é o meu dever, trazer o caso ao seu conhecimento." (p.312)
Acontece que o "magistrado" é o sr. Madeleine, o maire da cidade (prefeito), e o "oficial inferior" é ele próprio, Javert. O cara é tão pedante (e mala, vamos dizer a verdade com todas as palavras) que entrega a si próprio porque é o seu dever e bláblá. Mas aconteceu uma incrível reviravolta para que ele abaixe a cabeça e para que peça que Madeleine o demita: ele desconfiava da identidade de Madeleine, denunciou-o como um ex grilheta, o reincidente Jean Valjean, às autoridades, mas disseram-lhe que ele havia cometido um dos maiores erros de sua vida: Jean Valjean havia sido preso fazia alguns meses ao tentar roubar frutas de uma propriedade, e alguns grilhetas que haviam servido ao lado dele o reconheceram. Javert explica tudo isso ao sr. Madeleine, e pede para que seja demitido. O prefeito, abalado por dentro, mas agindo de maneira fria por fora, descarta a possibilidade de mexer na posição do "oficial inferior" e o manda embora.

Livro Sétimo - O caso de Champmathieu
Nesta passagem do livro, o narrador nos entrega a verdade da qual já desconfiamos: o sr. Madeleine é, sim, Jean Valjean, que conseguira, com diversos golpes de sorte, construir uma vida digna, mas sem revelar que já estivera das galés - fato que o recobriria de preconceitos por parte da sociedade, por mais que sua história fosse de redenção e bondade.

Dessa forma, ele se vê num impasse: revelar sua identidade e salvar um inocente, um miserável chamado Champmathieu, que seria destinado ao serviço forçado para sempre, ou se manter, agora ainda mais, sob o nome de Madeleine e enterrar o seu passado – na cova de outro? Nesta parte do livro, entramos em contato com a construção sensacional que Victor Hugo fez de uma consciência em crise. Jean Valjean não sabe o que fazer, pois de qualquer forma não poderá fazer o bem ao próximo. Se ele se entregar, Fantine, Cosette e uma grande parcela da população da cidade onde possui suas fábricas ficariam na miséria; se não se entregar, Champmathieu seria condenado ao trabalho perpétuo (quiçá à morte), por crimes que não cometeu, e a consciência pesaria sobre "Madeleine" eternamente.

Está para acontecer o julgamento de Champmathieu numa cidade a mais ou menos seis horas de distância da residência de Jean Valjean, e ele faz de tudo para chegar a tempo: há um acidente, sua condução quebra, seu cavalo se cansa, é preciso fazer um desvio num trecho da estrada que está interditado... Mas ele finalmente chega e consegue participar da audiência. E, ali, revela sua verdadeira identidade, deixando todos surpresos e espantados! O sétimo livro acaba com Jean Valjean se retirando da sala de audiência, dizendo que estaria à disposição das autoridades em Montreuil-sur-Mer, sua cidade, caso eles tomem alguma decisão, já que todos ficaram praticamente imóveis de tanta surpresa.

Oitavo Livro - Contragolpe
No último livro da primeira parte de Os Miseráveis, Jean Valjean volta para tentar definir o caso de Fantine, mas já sem saber o que fazer direito com a situação, pois sabe que está prestes a ser preso. Quando se reencontra com a miserável, que pensa que ele viajou para buscar sua filha, e não para se entregar, tentam de tudo para que ela se acalme e acredite que trouxeram sua filha, sim, mas que ela só veria Cosette quando se recuperasse. Quando ela está prestes a acreditar completamente na conversa de todos, Javert aparece em seu quarto para prender Jean Valjean, e entrega toda a história à infeliz que, diante do choque – Madeleine não sendo mais o prefeito e, sim, um ex grilheta, e Cosette não estando ali por perto – e da grosseria do inspetor de polícia, morre. Mas esta primeira parte do livro termina com a fuga de Jean Valjean, fato que cria diversos questionamentos na cabeça do leitor: o que acontecerá daqui por diante?

Resumo

Páginas lidas: da 306 até a 441.
Índice - Lido até o momento:  Livro sexto (Javert), Livro sétimo (O caso Champmathieu) e livro oitavo (Contragolpe) - fim da parte "Fantine".
Personagens importantes apresentados: Champmathieu e as irmãs Perpétue e Simplice.
Impressões gerais: sem muitas digressões e descrições; narrativa repleta do enredo; diálogos e cenas incríveis, como a parte do conflito interno de Jean Valjean; uma análise da consciência humana; muita miséria e desfecho desumano para Fantine.

Citações

9 passagens marcadas, dentre frases interessantes e descrições que quero relembrar.
Que coisa mais sombria é esse infinito que todo homem leva em si mesmo, pelo qual desesperadamente mede os desejos do seu cérebro e as ações da sua vida! (p. 332)
Quando nossa alma está agitada, tudo dentro de nós fala, menos nossos lábios. As realidades da alma, por não serem visíveis e palpáveis, não deixam de ser realidades. (p. 340)
Os ramos, quando alguém se aproxima para roubar-lhes a flor, estremecem, parecendo querer ao mesmo tempo oferecer-se e fugir. Os corpos humanos também têm alguma coisa desse estremecimento quando chega o instante em que os dedos misteriosos da morte estão prestes a se apoderar de uma alma. (p. 417)
continue lendo »
18.1.16

Mulheres de Cinzas, escrito por Mia Couto

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 344
ISBN: 9788535926620
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Primeiro livro da trilogia As Areias do Imperador, Mulheres de cinzas é um romance histórico sobre a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane (ou Gungunhane, como ficou conhecido pelos portugueses), o último dos líderes do Estado de Gaza - segundo maior império no continente comandado por um africano.
Em fins do século XIX, o sargento português Germano de Melo foi enviado ao vilarejo de Nkokolani para a batalha contra o imperador que ameaçava o domínio colonial. Ali o militar encontra Imani, uma garota de quinze anos que aprendeu a língua dos europeus e será sua intérprete. Ela pertence à tribo dos VaChopi, uma das poucas que ousou se opor à invasão de Ngungunyane. Mas, enquanto um de seus irmãos lutava pela Coroa de Portugal, o outro se unia ao exército dos guerreiros do imperador africano.
O envolvimento entre Germano e Imani passa a ser cada vez maior, malgrado todas as diferenças entre seus mundos. Porém, ela sabe que num país assombrado pela guerra dos homens, a única saída para uma mulher é passar despercebida, como se fosse feita de sombras ou de cinzas.
Ao unir sua prosa lírica característica a uma extensa pesquisa histórica, Mia Couto construiu um romance belo e vívido, narrado alternadamente entre a voz da jovem africana e as cartas escritas pelo sargento português.
O livro "Mulheres de Cinzas" primeiro volume da triologia "As Areias do Imperador" mistura ficção e História sobre Moçambique do século XIX, no período em que o país era governado por Ngungunyane, último líder do estado de Gaza.

A obra é narrada pelo ponto de vista de Imani e Germano de Melo. Imani é uma adolescente de quinze anos da tribo VaChopi, cujo nome significa "quem é?" e traz a perspectiva não apenas dos negros sobre uma guerra que não compreendem inteiramente, mas, principalmente, a angústia das mulheres nos tempos de guerra.

O ponto de vista de Germano de Melo é através de cartas endereçadas ao Conselheiro José D'Almeida e explicita o ponto de vista europeu sobre os "bárbaros" africanos.
Não sei por que me demoro tanto nestas explicações. Porque não nasci para ser pessoa. Sou uma raça, sou uma tribo, sou um sexo, sou tudo o que me impede de ser eu mesma.
Imani, que é uma das poucas pessoas do povoado que fala e entende muito bem o português, é enviada como intérprete para Germano de Melo e sua proximidade ao sargento português transforma a ambos.

Os capítulos narrados por Imani expõem de forma poética e triste a resistência VaChopi e, principalmente, sua resistência enquanto mulher. A sua própria família acredita que ela deveria se juntar ao estrangeiro e sumir da zona de conflito, pois na Moçambique do século XIX a mulher é um ser nulo que só passa a existir enquanto pessoa depois de se unir a um homem e gerar um filho. Mas diante da situação miserável em que o país se encontra, o melhor para a filha seria ir embora para Portugal.
.
As cartas enviadas por Germano ao longo da narrativa têm uma significativa transformação. De início elas são simples relatórios expondo a situação portuguesa no conflito moçambicano. Com o passar dos meses vemos um homem mais sensível e propenso às crenças africanas, sendo pouco a pouco, sensibilizado por essa menina que ele considera especial.
Olhei os homens labutando e não pude deixar de notar a falta de habilidade dos portugueses. E dei comigo a pensar: nós, os negros, sabemos mexer numa pá incomparavelmente melhor que outra qualquer raça. Nascemos com essa habilidade, a mesma que nos faz dançar quando precisamos rir, rezar ou chorar. Talvez porque há séculos somos obrigados a enterrar, nós mesmos, os nossos mortos, que são mais que as estrelas.
A questão mais pungente no livro é a situação das mulheres no ambiente hostil transformado por guerras e invasões. Elas não choram apenas os seus filhos, elas vivem o luto de todas as guerras passadas e são obrigadas a tornarem-se invisíveis, como se fossem feitas de cinzas,  para amenizar seu sofrimento e não serem ainda mais violentadas pelos homens de sua e outras terras.
É por isso que às moças solteiras se atribui o nome de lamu, palavra que significa "aquela que espera". É um modo de dizer que seremos pessoas apenas depois de sermos esposas.
É muito difícil chegar ao fim dessa leitura sem se emocionar e aprender com a jovem Imani. Suas reflexões carregadas de ensinamentos ancestrais das crenças africanas nos coloca a refletir sobre a triste situação que acometeu o continente africano, nossa parcela de culpa e egoísmo e como a situação do continente ainda hoje sofre os terríveis reflexos da invasão européia.

É um livro poético e triste e uma excelente porta de entrada na obra de Mia Couto e também na literatura africana, pois apesar de estar presente os elementos da cultura africana, que pode causar certo estranhamento a quem não está acostumado, a linguagem é mais palatável e de fácil compreensão.
continue lendo »
17.1.16

Os filhos da noite, escrito por Dannis Lehane.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 480
ISBN: 9788535923445
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
A Lei Seca fez brotar do chão uma vasta rede de destilarias subterrâneas, bares clandestinos, gângsteres e policiais corruptos. Há muito que Joe Coughlin, o filho mais novo de um proeminente capitão da polícia de Boston, deu as costas à sua criação rígida e severa. Dos pequenos delitos cometidos na infância, Joe agora desfruta com gosto de uma carreira no crime construída a soldo de um dos mais temidos mafiosos da cidade.
A vida nas sombras, porém, costuma cobrar seu preço. Numa época em que homens impiedosos, munidos de dinheiro, bebida ilegal e armas, disputam pelo controle da cidade, não se pode confiar em ninguém - nem em família, amigos ou amores. Para além do dinheiro e do poder, e até das ameaças de prisão, um destino parece inevitável a homens como Joe: a morte prematura. Mas até que esse dia chegue, ele e os amigos parecem decididos a levar a vida até suas últimas consequências.
A jornada de Joe pelos escalões do crime organizado o levará de Boston e de seus bares tomados pelo jazz ao bairro latino de Tampa, e até às ruas efervescentes de Cuba. Os filhos da noite é um épico à maneira de Scarface e Os bons companheiros, repleto de traficantes, femmes fatales, amigos leais e inimigos implacáveis, todos lutando pela sobrevivência e por seu quinhão do sonho americano. Combinando uma história de amor e uma saga de vingança, Lehane traz à vida uma época em que o pecado era motivo de celebração e o vício era uma virtude nacional.

Dannis Lehane entrou de vez na minha lista de autores favoritos. Esse, sem dúvida, é um nome obrigatório para quem gosta de literatura policial.

Quem leu minha resenha de Sobre Meninos e Lobos sabe o quanto gostei de ter conhecido esse autor, que me surpreendeu com um livro extremamente bem escrito em todos os aspectos. Então escolher outro livro do autor para ler e resenhar foi algo natural e perigoso. Natural porque sempre queremos ler mais obras de um autor que nos surpreendeu, perigoso porque sempre há uma grande chance de ele não conseguir manter o mesmo nível e nos decepcionar bastante. Bem, não é o caso aqui.  

Os Filhos da Noite é um romance muito diferente do já citado Sobre Menino e Lobos, o mais conhecido do Lehane. Esqueça detetives em busca da solução de um crime, esqueça os anos 2000. Se em um livro acompanhávamos principalmente o trabalho policial, no outro acompanhamos os bandidos. Desta vez, Lehane nos apresenta Joe Coughlin, um gangster da época da Lei Seca nos Estados Unidos. Ele começa como um simples assaltante amador até chegar a níveis mais altos na hierarquia da máfia. Com essa pequena descrição do que o livro trata, é provável que se pense logo em obras como Scarface e O Poderoso Chefão, e o livro vai por esse lado mesmo, porém sem perder sua força própria.

Não há como falar mais do enredo sem dar spoilers que poderiam prejudicar bastante a experiência de leitura, pois um dos pontos mais interessantes desse livro é a técnica de Lehane para nos fazer continuar a leitura sempre com ansiedade. Cada capítulo é muito bem construído, do tamanho certo e com desfecho que sempre guarda algo que queremos saber, o que nos faz ter uma dificuldade enorme de fechar o livro sem ir para o próximo capítulo; as situações estão sempre mudando. Por isso spoilers seriam muito prejudiciais, pois acabariam com essa sensação, que o autor tanto trabalhou para criar.

Mas voltemos à questão do livro ter força própria. Não poderia não dizer que o texto está cheio de clichês, principalmente no que diz respeito aos personagens. O jovem problemático que inicia no mundo do crime e começa a crescer na hierarquia, os parceiros valentões, o grande chefão etc. Porém os personagens são bem desenvolvidos, têm backgrounds sólidos, nos fazem querer conhecê-los mais, mesmo que sigam arquétipos.

Para quem gosta de ação, esse livro é mais do que indicado. Há ação e tensão o tempo todo, mas tudo feito de forma inteligente. As ações não se prolongam tanto, pelo menos não a ponto de o leitor começar a enjoar, pois há sempre novas situações surgindo em consequência das já passadas, o que mantém o interesse na narrativa.

E, por fim, gostaria de falar dos diálogos. O autor já é um dos que mais admiro nesse quesito. Os personagens têm voz própria, o que é raro de se ver em muitos livros hoje. E, principalmente, os incisos são muito bem aproveitados, sem secura nem exageros, o que é ainda mais raro de se ver. Muitos escritores não se atentam tanto ao ritmo dos diálogos, acham que é só escrever o que querem que os personagens digam e o que estão fazendo enquanto dizem, mas não é assim que se faz, é necessária toda uma técnica, toda uma sensibilidade, como para escrever poesia, e Lehane sabe muito bem disso, seus diálogos são ótimos.

Enfim, foi um livro do qual gostei bastante. Quero ler muitos outros do autor, que me impressiona com sua técnica mais do que com a criatividade, que não considero tão grande, pois embora seus enredos guardem surpresas, não são lá tão originais. Mas, sejamos sinceros, todos gostamos de clichês quando bem escrito, a jornada do herói está aí para provar isso. E, se há algo que Lehane sabe fazer, é escrever bem, ele transborda profissionalismo em cada frase.    
continue lendo »
16.1.16

"A que se reduz toda essa história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava.
Para quem? Para a miséria." (p. 289)
A experiência de leitura de Os Miseráveis vem se mostrando uma surpresa extremamente agradável de 2016; amo estar na companhia do Victor Hugo e de seus personagens. Sua escrita é fluida e muito cativante, e ainda afirmo: mesmo com suas descrições e páginas e mais páginas apenas para tratar sobre algo da história – algo que, para inúmeros autores (até mesmo bons, excelentes autores), poderia ser descrito mais objetivamente. Mas não me importo, defendo a prolixidade de Hugo até o momento em que ele começar a me irritar, e pode ser que somente depois que me irritar profundamente, não apenas me irritar. Porque sua escrita é como se sentir em casa! Sinto como se é aquilo que eu deveria estar fazendo naquele momento (e muitas vezes desejo a leitura em horários inadequados ou impossíveis, como ao dormir).
 

Como disse na primeira postagem da leitura conjunta #LendoOsMiseráveis, eu estava adiantada e optei por comentar sobre tudo o que li naquela semana. Mas agora percebo que será melhor falar apenas sobre a meta da semana – se cumprida –, pois assim mantenho uma regularidade e mais organização nos meus registros!

Pois bem, na semana passada eu li até a parte em que Victor Hugo nos apresenta a inúmeros fatos desconhecidos sobre o ano de 1817 e, consequentemente, a muitas e muitas notas de rodapé. Cansativas - mas ainda não foram irritantes! É com essa descrição longa que ele nos introduz a oito novos personagens e, dentre eles, a dois muito importantes. São eles: Félix Tholomyès, Listolier, Fameuil, Blachevelle, Favourite, Dahlia, Zéphine e Fantine. Quatro casais. Quatro homens desonestos. Três mulheres superficiais. Uma mulher corajosa. Eles nos são apresentados da seguinte maneira: 
"Eis, confusamente, o que acontecia em 1817, coisas de que hoje já não nos lembramos. A história negligencia quase todas essas particularidades, e não poderia fazer de outro modo; a infinidade dos detalhes a sufocaria. Contudo, esses pormenores, erradamente chamados de pequenos – não existem pequenos fatos na história, como não existem pequenas folhas na vegetação – são úteis. As feições dos anos é que compõem a fisionomia dos séculos.
Justamente nesse ano de 1817, quatro rapazes de Paris pregaram uma 'boa peça'." (p.199)
A "boa peça" da qual já nos previne Hugo nos é contada apenas depois de explicar o relacionamento de cada um, e de sabermos que Fantine, que aliás é a personagem que dá nome à parte de Os Miseráveis que estamos lendo, é a única das quatro mulheres que realmente se apaixonou pelo namorado. As outras permanecem por puro interesse. Até que são abandonadas.
"Fantine era uma dessas criaturas que desabrocham, por assim dizer, do fundo do povo. Saída das mais espessas e insondáveis sombras da sociedade, tinha na fronte o símbolo do anonimato e do desconhecimento. Nascera em Montreuil-sur-Mer. Filha de quem? Quem o poderia dizer? Ninguém lhe conheceu o pai nem a mãe. Chamava-se Fantine. Por que Fantine? Era o único nome que tinha. À época de seu nascimento havia ainda o Diretório. Portanto, nada de sobrenomes, porque não tinha família; nada de nomes de batismo, porque a Igreja não estava presente. Foi-lhe dado o nome que agradou ao primeiro transeunte que a encontrou pequenina, andando descalça pelas ruas." (p. 202)
Mas Fantine é abandonada com uma tripla infelicidade: além do abandono, ama Tholomyès e, como se não bastasse isso, engravidou dele. A partir deste momento, sabemos o que aconteceu com Fantine quando teve que criar Cosette, sua filha amada, sozinha e numa sociedade preconceituosa, oportunista e extremamente conservadora

Para conseguir sobreviver e sustentar a filha, a qual lhe impedia de conseguir um emprego, pois não havia ninguém que cuidasse da pequena, e muito menos alguém que lhe desse um emprego sabendo que é mãe solteira, deixa Cosette sob os cuidados de um casal dono de uma hospedaria, que fecharam o acordo de criá-la por receber um "salário" para isso. E esta quantia cobrada só aumenta com o passar dos meses, fato que eles jusrtificam ao criarem falsas situações (como doenças e luxos inexistentes da criança) apenas para lucrarem e receberem às custas de Fantine.


Mas Fantine trabalhava na fábrica do bondoso, mas ausente, sr. Madeleine, o prefeito da cidadezinha para a qual voltou, sua cidade natal. Aqui, somos apresentados a este personagem misterioso que, apesar de praticar o bem "não importa a quem", é envolto num passado que não é entregue de primeira ao leitor. Por isso ser misterioso. Estava tudo tranquilo na vida de Fantine, seu emprego lhe proporcionava o sustento e também enviar o dinheiro combinado para os cuidados de sua filha, até que descobriram sobre Cosette e o preconceito dominou a situação: Fantine foi expulsa do emprego injustamente e sem o conhecimento de seu patrão (a supervisora possuía plenos poderes dentro da fábrica destinada às mulheres e na qual Madeleine não entrava), e, para conseguir o dinheiro necessário à sua sobrevivência (e à de sua filha), passa por situações extremas, humilhantes e degradantes – de arrancar seus dentes bons da frente à se prostituir.
"Tomava [o sr. Madeleine] as refeições sempre sozinho, tendo um livro aberto na frente, e lia enquanto se alimentava. Possuía uma pequena biblioteca de livros escolhidos. Gostava dos livros; os livros são amigos frios e seguros." (p. 258)
No final da meta de páginas lida, Fantine acaba sendo vítima de um conflito com um cidadão de posses, que a assedia na rua e lhe atinge nas costas com uma bola de neve. Este episódio, além de lhe garantir uma doença pelo frio pelo qual passou, ainda é o responsável por quase levá-la à prisão. Isso porque somos apresentados a mais um personagem importantíssimo: Javert, o inspetor da polícia, responsável pela manutenção do status quo público, pela ordem, por evitar conflitos nas ruas da cidade. E como houve um conflito, já que Fantine se irritou com aquele que a assediou e atingiu, indo para cima do rapaz com tapas e golpes, Javert tenta prendê-la (também injustamente), já que deixou impune o responsável pelo caos somente por ser um cidadão de posses.
"Quando Javert ria, o que era muito raro e terrível, seus lábios muito finos separavam-se, deixando ver não só os dentes, mas também as gengivas, produzindo ao redor do nariz uma dobra achatada e selvagem que lhe dava o ar de um focinho próprio de animais ferozes. Javert, quando sério, era um cão; quando ria, transformava-se num tigre. Quanto ao mais, cabeça pequena e queixo volumoso; os cabelos caídos sobre as sobrancelhas escondiam-lhe a fronte; entre os dois olhos, uma ruga permanente como se fora uma estrela de cólera; olhar obscuro, boca afetada e temível, um ar de comando feroz. 
(...)
E, com isso tudo, levava uma vida de privações, de isolamento, de abnegação, de castidade, sem uma distração sequer. Era o dever implacável, a polícia compreendida como os espartanos compreendiam Esparta; sentinela impiedosa, honestidade cruel, um espião de mármore." (p. 268-269)
Javert é outro personagem muito bem construído: a descrição de seu físico e de sua personalidade é impressionante, e fiel à proposta do autor – ele é verossímil do começo ao fim –, pelo menos por enquanto eu posso afirmar isso. Ele promete ser um grande vilão, principalmente porque se incomoda muito com Madeleine, o mocinho da história.

E o quinto livro termina (a meta a ser atingida) com o sr. Madeleine salvando Fantine da prisão, numa cena comovente e tocante, mesmo quando ela o incrimina por tudo o que lhe aconteceu depois de ter sido expulsa de sua fábrica (o que, de novo, ele desconhecia).

Resumo

Páginas lidas: 126 (não li as 150 da semana, mas como estava adiantada, permaneço no cronograma, yey!)
Índice - Lido até o momento:  do terceiro ao quinto livro.



Personagens importantes apresentados: Fantine, Javert, Cosette e, secundários que têm muita importância para o rumo dos acontecimentos, o casal que cuida da Cosette, os Thénardier, e Tholomyès.
Impressões gerais: personagens verossímeis; história instigante e misteriosa; miséria sendo exposta de forma mais veemente e tocante; poucas descrições cansativas; Victor Hugo consegue ir direto ao ponto em diversas passagens.

Citações

20 passagens marcadas, dentre frases interessantes e descrições que quero relembrar.
 "Já disseram que errar é próprio do homem; pois eu digo que errar é próprio do amor." (p. 222)
"Aí está; com um pouquinho de trabalho, essa urtiga tornar-se-ia útil; desprezam-na, e ela se torna nociva. Então a destroem. Quantos homens se assemelham à urtiga! – E acrescentou, depois de uma pausa: – Meus amigos, guardem bem isto: não existem homens maus ou ervas más. O que há é maus cultivadores." (p. 260)
continue lendo »
13.1.16

O vilarejo, escrito por Raphael Montes

Editora: Suma de Letras
Páginas: 96
ISBN: 9788581053042
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome.
As histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que ao término da leitura as narrativas convergem para uma única e surpreendente conclusão.

No prefácio temos o tradutor Raphael Montes explicando a origem do livro: um dono de sebo recebeu uma grande quantidade de livros que pertenciam a uma senhora já falecida, doados por sua neta. Dentre as doações encontra-se um caderno numa língua estranha que o dono do sebo oferece a Raphael. Depois de pesquisas e intenso trabalho Raphael descobre que se trata de uma língua morta, o cimério. A tradução resultou no livro "O vilarejo".

De acordo com a classificação do demonologista Peter Binsfeld cada pecado capital relaciona-se com um demônio, sendo eles: Asmodeus (luxúria), Belzebu (gula), Mammon (ganância), Belphegor (preguiça), Satan (ira), Leviathan (inveja) e Lúcifer (soberba). Em cada um dos sete contos temos um pecado - e um demônio - guiando os acontecimentos até o inevitável e horripilante fim.


O velho estava certo. O vilarejo está sendo dizimado dia após dias. O luto sentou-se à mesa. Ninguém chora os mortos. Não podem desperdiçar energia lamentando a partida dos que não suportaram o frio e a fome.

Em um cenário de frio e aridez desoladores somos apresentados aos personagens desse vilarejo, composto por aproximadamente cem pessoas, numa época de fome e guerras. Felika, Anatole, sra. Helga e as irmãs Vália, Velma e Vonda, entre outras personagens, vivem um cenário de horror.
Crentes que uma maldição caiu sobre o povoado, as pessoas desse lugar longínquo buscam refúgio no isolamento de suas próprias casas, sem sucesso.

Em cada conto temos a história e o ponto de uma vista de uma personagem, mas tudo se relaciona ao final e sabemos como e porquê dos estranhos acontecimentos desse lugar. Por se passar de um livro curto com contos curtos acredito que o ideal não é revelar detalhes da narrativa, já que isso poderia ser feito apenas utilizando spoilers, então a melhor forma de explicar a obra é trazendo um panorama geral do seu cenário e personagens.

A fome tomou conta do povoado devido a um inverno bastante intenso, muitas pessoas tentaram sair com destino a outros vilarejos em busca de comida, lenha e outros suprimentos já escassos. Mas antes desse momento já existe o presságio de que algo estranho aconteceria no local, como a chegada de um negro caolho que desperta a curiosidade - e a ira - dos moradores e vários outros pequenos acontecimentos passam a tomar grandes proporções de forma a extinguir o pequeno vilarejo.
Até mesmo nos seres mais inocentes e, aparentemente bondosos, vemos despertar algo de maligno e sombrio.


Assassinato, tráfico de pessoas, canibalismo são elementos presentes no livro e, apesar de seu teor sobrenatural, notamos que o estopim para os crimes acontecerem são causados pela maldade própria do ser humano, algumas vezes por loucura, por maldade ou ignorância.

Apesar do tema, a leitura é bastante fluida, fácil e rápida. Não é tão pesado, apesar do tema abordado e o projeto gráfico juntamente com as ilustrações dão ao livro o toque final de morbidez.
continue lendo »
10.1.16

Retrato de uma senhora, escrito por Henry James

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 670
ISBN: 9788535909852
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.

Retrato de uma senhora, publicado pela primeira vez em 1881, é o primeiro grande romance de Henry James, e talvez sua obra máxima. Num século em que a esposa burguesa insatisfeita tornou-se um personagem literário central, e o adultério um motivo romanesco recorrente - o século da Madame Bovary, de Flaubert, e de Anna Karenina, de Tolstói -, Henry James colocou em cena uma heroína singular, cuja carência essencial é de outra ordem. Com uma narrativa que, astuciosamente, começa lenta, quase contemplativa, e aos poucos se acelera, ganhando dramaticidade, James constrói sua história como um jogo em que cada coisa se transmuta em seu oposto: liberdade em destino, afeto em traição, pureza em artimanha - e vice-versa.

Sobre o que se trata

Depois de uma perda familiar, a tia de Isabel Archer, a sra, Touchett, leva a garota consigo dos Estados Unidos para a Inglaterra, onde o seu marido, o sr. Touchett, mora com Ralph, o seu filho. Lá, somos apresentados a um cotidiano ameno, sem muitos acontecimentos, visto que se trata de uma grande propriedade interiorana, mas também devido à frágil saúde do primo de Isabel. Os acontecimentos são marcados por visitas, sobretudo do vizinho e amigo de Ralph, o lorde Warburton, um nobre rico que logo se apaixona pela garota estadunidense pobre. E o livro poderia caminhar para uma história de amor representada por extremos (rico x pobre) à la Jane Austen se a nossa protagonista não fosse teimosa, sedenta por liberdade e um tanto quanto incompreensível.  E se este não fosse o principal viés para Henry James chegar à grande reviravolta do livro, que está longe de abordar uma história de amor.

Isso porque Isabel é uma personagem que se constrói muito forte e determinada na primeira metade da obra. Toda a constituição de Retrato de uma senhora que presenciamos num primeiro momento se transforma em seu oposto da metade para o final, numa busca dura e injusta por mostrar que nem tudo o que reluz é ouro. As relações sociais são trabalhadas, expostas, criticadas e, principalmente, questionadas.

Quando chega à Inglaterra, Isabel Archer, ainda uma senhorita, ainda uma pessoa, volta-se completamente à sua vida enquanto mulher independente, à satisfação de seus desejos – ser livre, viajar e viver como bem entender. Recebe algumas propostas de casamento (as quais recusa), um dote que a torna rica (e, pressupõe-se, mais independente ainda) e viaja com a sua tia, com a qual, depois de viver do jeito que quer (basicamente viajando e vivendo do ócio, como todos os personagens do livro), vai morar na Itália, onde conhece Madame Merle e o sr. Osmond, dois personagens extremamente importantes para o enredo, o qual levará Isabel à condição de objeto enquanto senhora  e teremos um retrato de uma senhora presa a um destino totalmente oposto àquele que sonhou para si.

Minhas impressões

A primeira cena já cativa o leitor, que já possui um grande vislumbre da narrativa do livro, para mim a principal característica da obra, pois trata-se de um foco narrativo muito bem articulado, o qual utiliza e muito o discurso indireto livre, e sempre incide sobre a perspectiva de um personagem, mesmo sendo em terceira pessoa onisciente. É como se houvesse um holofote que Henry James direciona para a cabeça de quem ele quer naquele momento, para guiar o leitor para o que ele quer que se saiba da história, a qual não é dada por completo à quem lê a obra, um artifício construído com maestria para criar um mistério, uma reviravolta e muito drama quando se descobre toda a verdade. Como o foco narrativo incide sobretudo em Isabel Archer, a protagonista que se mostra ingênua e cai numa armadilha, também caminhamos para uma grande transformação no enredo – justamente porque a narrativa nos guia da forma como quer, não permitindo uma visão do todo, apenas do recorte feito pelo autor, o que esconde muitas verdades.

Verdades estas que Ralph parece perceber e entender muito antes de Isabel, pois se trata aqui de um personagem muito perspicaz e inteligente, sobre quem o foco narrativo pouco incide, já que o autor não quer que saibamos de tudo. Ele possui seus dias contados, morre cada dia mais e, por isso, observa a vida atentamente, e esta é a sua grande diversão. Observar Isabel parece lhe dar um grande prazer, e seus motivos para isso não ficam completamente claros na obra, apenas temos pistas que nos dão possibilidades  ele só é um curioso quanto à prima teimosa e ingênua, ou é um dos muitos homens que passam a amá-la?
"– Não questione tanto a sua consciência, vai acabar desafinando como quando se martela demais num piano. Guarde-a para as grandes ocasiões. Não tente formar tanto o seu caráter - é como tentar abrir à força um botão fechado e tenro de rosa. Viva como achar melhor e seu caráter cuidará de si mesmo." (p. 266)
É difícil escrever sobre este livro sem dar spoilers, e é por isso que estou sendo bem superficial ao tratar sobre o enredo (leia-se: sobre a reviravolta), porque apesar de não ligar para spoilers, confesso que este livro é bem mais surpreendente e interessante quando descobrimos sozinhos o que acontece. Mas, posso dizer que é uma coisa que muda da água para o vinho a condição dos principais personagens. E não se espera a conduta que todos têm diante de algo assim, principalmente a de Isabel, que no início era uma das minhas personagens preferidas da literatura, mas depois caiu completamente no meu conceito e me mostrou que nós podemos não saber quem somos realmente. Que querer, às vezes, não é poder, principalmente quando fazemos escolhas erradas e precipitadas, ou mesmo totalmente diferentes de nossos princípios. E que as pessoas podem não ser quem elas dizem ser.
"– Ah, as coisas são sempre diferentes do que deveriam ser – disse o velho. – Se esperar que mudem, nunca fará nada."  (p. 220)
É um livro crítico, denso e demorado de se ler. Não apenas por ter 670 páginas, mas porque o enredo é realmente lento em algumas partes, sem contar que a vida dos personagens é baseada no ócio, e pouco acontece. Quando acontece, pode ser que não seja descrito no livro, apenas citado como algo que já aconteceu entre um capítulo e outro (não posso dar exemplos sem também dar spoilers). Mas este aspecto da obra é positivo para mim, parece que o autor testa a nossa capacidade de nos manter fiéis à sua história, pois ela é muito interessante. Apenas demanda mais tempo para se ler, que é algo bem questionado hoje, já que muitos leitores optam por livros mais curtos.

Projeto Lendo o Mundo: Inglaterra

Henry James possui dupla nacionalidade: nasceu nos Estados Unidos e morreu na Inglaterra, e nesse meio-tempo conseguiu sua cidadania britânica. Portanto, poderíamos encaixar Retrato de uma senhora tanto como um livro representante da literatura estadunidense, como da inglesa. Mas, por ser ambientado principalmente na Inglaterra, e nem tanto nos Estados Unidos, preferi associá-lo à Inglaterra no projeto Lendo o Mundo.

Henry James conseguiu a sua cidadania britânica um ano antes de morrer, em 1914, apenas, mas viveu por muitos e muitos anos na Inglaterra, chegando a ficar até vinte anos sem retornar aos EUA, onde nasceu em 1843, em Nova York. Seu pai, um intelectual, proporcionou bons estudos para Henry James e seu irmão, William James, sendo que o primeiro começou a faculdade de direito em Harvard, mas abandonou para se dedicar exclusivamente à literatura. Esteve em países como Itália e Suíça e viveu um ano em Paris, onde conheceu o círculo de Flaubert (Maupassant, Zola). Em 1976, fixou-se em Londres.

Sua carreira pode ser dividida em três períodos. Retrato de um senhora é o ápice do primeiro, que começa na década de 1870, Já o segundo pode ser dividido em duas etapas: de 1885 até 1890, os anos mais experimentais, e de 1890 a 1895, os mais dramáticos, dos quais fazem parte Pelos olhos de Maisie e A volta do parafuso. Já o último período é muitas vezes considerado o mais importante da obra de Henry James, pois aborda a consciência humana. Os embaixadores é desta época.

Área: 130.395 km²
Capital: Londres
População: 54,2 milhões (estimativa 2014)
Moeda: libra esterlina
Nome Oficial:  Inglaterra
Nacionalidade: inglesa
Governo: Monarquia Parlamentarista
Divisão administrativa: regiões, condados, distritos e paróquias.

Curiosidades:
Refeição (em local barato): R$ 71,03
Fast food (combo): R$ 29,60
Água: R$ 5,32
Cerveja (garrafa): R$ 19,83
Refrigerante (lata): R$ 6,68
Pão (500g): R$ 5,71
Maço de cigarro: R$ 50,32
Taxi (corrida 1km): R$ 7,40
Gasolina (1 litro): R$ 6,65
Cinema: R$ 53,28
Aluguel Apto Centro (1 quarto): R$ 4.337,80
Energia, Gás, Água, Lixo: R$ 842,24

Os 10 livros ingleses mais populares, segundo o Goodreads:
1. Orgulho e Preconceito – Jane Austen
2. Jane Eyre – Charlotte Brontë
3. O Senhor das Anéis – J.R.R. Tolkien
4. O Morro Dos Ventos Uivantes – Emily Brontë
5. As Obras Completas – William Shakespeare
6. 1984 – George Orwell
7. O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
8. Harry Potter – J.K. Rowling
9. As Crônicas de Narnia – C.S. Lewis
10. Emma – Jane Austen
Fonte: x x x x 

No Youtube


continue lendo »
9.1.16

Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século – a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância – não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis. (p. 27)
Há muito tempo que tenho a minha edição bonitona da Cosac Naify de Os miseráveis, mas a minha vontade de ler esta obra tão famosa existe há muito mais tempo. Porém, a extensão e a psicológica "falta de tempo" sempre me fizeram adiar a leitura. Até que uma leitura conjunta surtiu o efeito esperado de uma campanha como essa: a de estimular leitores e darem um empurrãozinho naquelas pessoas que, como eu, agarravam-se a desculpas comuns para não realizar a leitura de um dos maiores clássicos da literatura mundial.

Tudo começou quando, no primeiro dia de férias, eu pensei que seria bacana ler algum calhamaço nas férias, e logo Os Miseráveis me veio à cabeça. Mas, eu tenho tantos projetos de leitura em andamento, inclusive um calhamaço deixado para trás (Desventuras em Série, Nárnia e Moby Dick), que decidi, naquele momento, dar continuidade ao já começado e deixar Os Miseráveis para as próximas férias. Só que entrei em contato com a leitura em conjunto #LendoOsMiseráveis que a Fran, do Livro & Café, e a Jennifer, do Subindo no Telhado, planejaram e publicaram (saiba mais aqui). Era o que faltava para eu deixar em estado latente por mais algum tempo os outros projetos e me lançar com tudo nessa que promete ser uma das melhores leituras da minha vida.

Só que, por ser um livro muito importante e muito longo, nada mais justo do que registrar a minha experiência de leitura, certo? Até porque a meta é de 150 páginas por semana, então ficarei quatro meses inteiros acompanhada de Victor Hugo... É uma leitura demorada e, como minha memória é ridícula, registrar todo esse processo revela-se até mesmo necessário para depois eu relembrar de tudo isso.


E o post de hoje, além de uma apresentação, traz as minhas impressões de como foi a primeira semana junto de Os Miseráveis. Resumindo: maravilhosa! Eu tinha um certo receio por se tratar de uma obra tão amada e aclamada, porque nas férias passadas eu li Anna Kariênina e não gostei tanto assim da leitura. Meu medo era me tornar indiferente quanto a esta obra também, mas não é isso o que aconteceu. Aliás, acho difícil isso acontecer e alguém não gostar do que Victor Hugo escreveu aqui, posso até arriscar e dizer que acho difícil este livro não tocar o leitor.

Além de um breve texto introdutório que esta minha edição apresenta, somos apresentados a quatro personagens que considero os mais importantes destas primeiras 200 páginas que li: o bispo de Digne, Charles Myriel, sua irmã srta. Baptistine, sua criada sra. Magloire e Jean Valjean, um ladrão recém libertado do serviço obrigatório nas galés francesas.
Jean Valjean era de caráter pensativo, sem ser triste, o que próprio das naturezas afetuosas. No conjunto, portanto, nada havia de mais calmo e de mais insignificante, ao menos na aparência, do que Jean Valjean. (p. 143)
São quase 100 páginas para a construção do núcleo que envolve o bispo, sobretudo para nos apresentar esta personagem que, apesar de não ser tão presente na obra (pelo que sei da história, ele só aparece no início, não acompanhando o enredo inteiro), ele é muito importante para ela, pois determina a conduta de Jean Valjean, um dos protagonistas do livro. O bispo é o único que aceita receber o ex-prisioneiro em sua casa, pois, com fome e exausto de tanto andar, Valjean é negado em todas as hospedarias, bares e casas de Digne por possuir um passaporte amarelo, que significa que ele foi um criminoso. Só que Victor Hugo nos conta o porquê dele ter tentado roubar um pão: sua família estava em apuros, na miséria, visto que ele não conseguia encontrar emprego. Por conta disso, e por quatro tentativas de fuga, ele fica 19 anos preso, sob trabalhos forçados. E isso o transforma; sua índole boa se esvai e dá lugar a um animal ferido que, para a sua sobrevivência, faz coisas más, como roubar a única pessoa que lhe deu abrigo, comida, hospitalidade e confiança: o bispo. Sabemos que este é uma pessoa humilde e que vive uma vida pacata, tendo somente talheres de prata e castiçais como luxo. E é justamente os talheres que Jean Valjean tentará roubar deste homem que lhe salvou do frio e da morte. Mas, tendo a chance de puni-lo e incriminá-lo, o bispo lhe dá uma lição de moral: além dos talheres, dá os castiçais de presente à Valjean também, dizendo-lhe que, a partir daquele dia, era seu dever fazer o bem. A bondade de Myriel frente a alguém que o prejudicou e menosprezou a hospitalidade surpreende o leitor e o próprio Valjean que, dessa forma, passa por um conflito interno e se questiona sobre sua boa índole - e sobre seu lado ruim.


É notável que o maniqueísmo se insere muito fortemente no livro, principalmente com a figura de Myriel. A sua atitude de fazer o bem até mesmo para um criminoso que se mostrou indiferente à sua hospitalidade é significativa. Por enquanto eu não me incomodei com isso, pois eu costumo me incomodar com personagens totalmente bons ou totalmente maus (parecem que, dessa forma, eles não conseguem ser humanos), mas isso porque o Victor Hugo é incrível ao construir seus personagens. Apesar de ficar páginas e mais páginas nos contando sobre a vida e a personalidade dos principais, eu não me cansei e tudo parece estar na medida certa. E essa medida certa é, sim, longa. São muitas descrições, muita narração do que aconteceu com os personagens, e a forma como ele constrói isso é lindo demais. Os personagens são criados e parecem reais. Apesar de todo o maniqueísmo, acreditamos na existência deles. Até agora, um caso de extremos de características: o maniqueísmo, que não gosto, e a maestria em construir personagens, que eu amei!

O cenário histórico também faz toda a diferença e é de encher os olhos de qualquer leitor que gosta de romance histórico, ou que simplesmente gosta de História. Engana-se quem pensa que Os Miseráveis se passa durante a Revolução Francesa. Pelo contrário, a história aqui narrada por Hugo acontece anos depois, principalmente em 1815, mas as consequências de 1789 (o ano da Revolução) são importantíssimas para o enredo, pois ele está repleto de seus acontecimentos. Saber minimamente sobre a Revolução e as décadas seguintes ajuda, e muito, a entender o que se lê aqui.

E o último capítulo que li se chama "1817" e faz parte do terceiro livro, "Durante o ano de 1817". Neste capítulo, Hugo nos apresenta diveeersas citações e referências culturais e históricas, comprovando o caráter histórico do romance. Foi o único capítulo cansativo lido até o momento, pois não conheço as referências e as notas de rodapés são gigantescas (vide foto).

Resumo

Páginas lidas: 200

Índice - Lido até o momento: primeiro e segundo livros ("Um justo" e "A queda") e primeiro capítulo do terceiro ("Durante o ano de 1817")


Personagens importantes apresentados: Bispo de Digne (Charles Myriel), srta. Baptistine, sra. Magloire e Jean Valjean.

Impressões: muitas descrições, mas não cansativas; quase 100 páginas somente sobre o bispo; poucos personagens; o último capítulo lido é cheio de referências históricas e culturais, com notas de rodapé gigantes; personagens construídos com maestria; presença muito forte do maniqueísmo.

Citações

27 passagens marcadas, dentre frases interessantes e descrições que quero relembrar.


– Meu Deus, sobrinho! No que está pensando agora? - Estava meditando sobre algo interessante que li, acho, em Santo Agostinho: Pondes vossa esperança justamente no que não vai acontecer. (p. 44)
A morte pertence somente à Deus. Com que direito os homens ousam tocar coisa tão desconhecida? (p. 51)
Ele sabia que crer é bom. Procurava aconselhar e acalmar o homem desesperado apontando-lhe o homem resignado; sabia transformar a dor que contempla uma tumba na dor que contempla uma estrela. (p. 52)
Com uma única palavra, denominava as duas ocupações: tudo para ele era jardinar. – O espírito é um jardim – costumava dizer. (p. 53)
Isso é coisa inventada pelas amas de leite. Bicho-papão para as crianças e Jeová para os adultos. Absolutamente: nosso futuro é a noite. Depois da sepultura só existe a igualdade do nada. Tenha sido eu Sardanápalo ou Vicente de Paulo, não importa; tudo se reduz ao mesmo nada. Essa é a verdade. Por isso, viva o superior a tudo. (p. 71)
– Quero dizer que o homem tem um tirano, a ignorância. (p. 82)
Senhor, a inocência já é realeza suficiente. À inocência não importam os títulos. (p. 84)
Vivemos numa sociedade sombria. Ter êxito, eis o ensinamento destilado gota a gota pela corrupção que avança. (p. 99)
Fora cinco ou seis exceções notáveis que constituem o brilho de todo um século, a admiração contemporânea é simples miopia. O que é simplesmente dourado passa por ouro puro. Ser o primeiro a chegar não constitui honra, a não ser que se chegue a ser alguma coisa. É o vulgar e velho Narciso adorando a própria imagem, aplaudindo a vulgaridade. (p. 100)
Jean Valjean, que Victor Hugo chamou primeiramente de Jean Tréjean ou Vlajean, é personagem inspirado em Pierre Maurin, condenado igualmente pelo roubo de um pão; libetado, foi acolhido pelo Bispo de Digne, Bienvenu de Miollis, em idênticas circunstâncias às aqui narradas a respeito de Jean Valjean. Pierre Maurin morreu valentemente em Waterloo. (p. 145, nota de rodapé)
Partiu depois para Toulon. Aí chegou após uma viagem de 27 dias, numa carroça, com a corrente ao pescoço. Em Toulon, vestiram-no com um macacão vermelho. Desvaneceu-se tudo o que havia constituído a sua vida, até o seu nome. Seu número era 24.601. (p. 146)
Jean Valjean entrara para as galés soluçando e gemendo; saiu completamente impassível. Entrou cheio de desespero, saiu sombrio e taciturno. (p. 149)
De sofrimento em sofrimento, chegara à convicção de que a vida era uma guerra, e que nessa guerra ele era o vencido. (p. 151)
Liberdade não é estar solto. Sai-se das galés, mas a condenação continua. (p. 161)
O mundo moral não tem um espetáculo mais majestoso que este: uma consciência perturbada e inquieta, a ponto de praticar uma ação má, contemplando o sono de um justo (p. 168)
Não há dúvida de que o sofrimento educa a inteligência. (p. 180)

No Youtube

continue lendo »