4.11.15

A Dama do Lago, de Raymond Chandler

A Dama do Lago

Editora: Alfaguara
Páginas: 272
ISBN: 9788579623295
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.

A Dama do Lago é um romance que não me cativou muito. Não consegui entrar no clima. Esperava mais, principalmente por se tratar de um dos principais livros do tão falado Raymond Chandler. Mas pode ser que eu esteja sendo injusto.

Para quem nunca ouviu falar do autor, Raymond Chandler é um famoso escritor de romances policiais. Um dos principais nomes do roman noir. Embora não seja tão conhecido aqui no Brasil, Chandler é considerado um ícone do gênero, um dos seus maiores nomes. Seu detetive, Philip Marlowe, é tão conhecido lá fora quanto nomes como Sherlock Holmes (Arthur Cona Doyle) e Hercule Poirot (Agatha Christie). Apareceu em diversas adaptações para cinema, televisão e rádio.  

Eu disse que Chandler é um ícone do roman noir, então vamos voltar um pouco a isso. Para quem não está familiarizado com esse subgênero das narrativas policiais, o exemplo mais conhecido e recente que vem à minha cabeça é Sin City, embora esse filme/hq seja intencionalmente exagerado e inverossímil. O noir é marcado por um tom mais sombrio, com destaque para ambientes escuros e cenários noturnos. As tramas são complexas, os vilões têm motivações mais palpáveis do que simplesmente o mau-caratismo. E os protagonistas frequentemente são anti-heróis. Outro ponto importante é a presença da mulher, que aparece no noir em basicamente duas maneiras, a donzela e a femme fatale (geralmente loira). Femmes fatales são mesmo uma das principais características do gênero.

O romance aqui em questão compartilha essas características. Marlowe, embora tenha um senso moral muito forte, não é só virtude. É sarcástico, vive bebendo e não se importa em partir para confrontos físicos ou armados, se necessário, e trabalha por dinheiro, não por uma questão de fazer justiça ou algo do tipo. É um típico anti-herói, o que não se confunde com vilão.

As mulheres em A Dama do Lago são bastante estereotipadas. Temos a loirinha fútil, a loira dissimulada e sedutora, a secretária sedutora, a loira meiga. Sim, há certa cisma com loiras. E, falando em estereótipos, a grande presença deles me incomodou um pouco. Não vi muita profundidade em grande parte das personagens, tirando o próprio Marlowe e o antagonista da história. O romance é rico em clichês.

Quanto à trama, essa é a melhor parte do livro. Vou falar bem brevemente, para não dar spoilers. Marlowe é contratado por um executivo da indústria de perfumes para encontrar a mulher deste, que está desaparecida há alguns meses. Logo no começo da investigação, vai para a casa de verão dessa família em outro ponto da cidade. Chegando lá, durante a investigação, um corpo de mulher é achado em um lago. A mulher encontrada é, pelo que tudo indica, Muriel Chess, a esposa do caseiro, que estava também desaparecida. Ambas tinham deixado a localidade no mesmo dia, uma coincidência e tanto, que um detetive experiente não iria ignorar. Bem, a partir daí, vamos descobrindo cada vez mais coisas intrigantes sobre o caso e, principalmente, sobre as duas mulheres. E a solução para esse mistério é interessantíssima! Mais complexa do que poderíamos imaginar a princípio.

A narrativa é ao mesmo tempo muito boa e ruim. Como isso? Vou explicar. O livro é narrado em primeira pessoa, tudo o que o personagem principal sabe, vê, escuta, sente, nós sabemos. Nada é escondido do leitor. Isso é muito bom. Isso que faz a narrativa ser muito boa em minha opinião. Na hora de o mistério todo ser revelado, percebemos que todos os fatos que permitiram Marlowe chegar às suas conclusões eram conhecidos por nós. É diferente daqueles romances policiais que ficam nos enganando, desviando nossa atenção e apresentando um fato desconhecido e primordial no final. Chandler dá aos leitores chances de resolver o caso iguais às de Marlowe.

A narrativa se torna ruim, por outro lado, porque se arrasta. O livro é curto, é verdade, mas poderia ser mais curto ainda. É muita descrição, e algumas cenas e diálogos são descartáveis. O início do romance é lento, guardando toda a adrenalina e expectativa para o final. Então acabamos lendo boa parte da obra contando as páginas, esperando algo acontecer, mas nada acontece. Acredito que o livro poderia ter umas cinquenta páginas a menos. Juntando isso, os estereótipos e os clichês, a estória, pelo menos comigo, não teve muita imersão. Mas não a julgo tão negativamente, acho que foi o momento da leitura que fez com que eu não entrasse no clima. Tinha acabado de ler Sobre Meninos e Lobos quando comecei a ler A Dama do Lago. Ou seja, tinha acabado de sair de um livro policial que investe muito mais nas personagens e dialoga com a sociedade em que vivo, que é bastante diferente daquela dos anos 40. Acho, então, que o que me causou certo incômodo foi essa comparação, mesmo que inconsciente, entre as duas obras, já que são do mesmo gênero, e eu li uma seguida da outra. O livro do Chandler é muito mais simples, muito menos profundo, e acabei sentido isso durante toda a leitura.  

Apesar de não ter gostado do livro tanto quanto esperava, eu o recomendo. É um livro de leitura simples e rápida, que dá para ler tranquilamente em um único dia, principalmente se o leitor estiver mais imerso na estória do que eu fiquei. Além disso, para quem gosta de romances policiais, é interessante conhecer Raymond Chandler, e acredito que A Dama do Lago seja uma boa introdução à obra do autor, que pretendo visitar mais vezes futuramente. 

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